Dia de Poesia, Porque hoje é sábado

O dia da criação 

II

Neste momento há um casamento 
Porque hoje é sábado. 
Há um divórcio e um violamento 
Porque hoje é sábado. 
Há um homem rico que se mata 
Porque hoje é sábado. 
Há um incesto e uma regata 
Porque hoje é sábado. 
Há um espetáculo de gala 
Porque hoje é sábado. 
Há uma mulher que apanha e cala 
Porque hoje é sábado. 
Há um renovar-se de esperanças 
Porque hoje é sábado. 
Há uma profunda discordância 
Porque hoje é sábado. 
Há um sedutor que tomba morto 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande espírito de porco 
Porque hoje é sábado. 
Há uma mulher que vira homem 
Porque hoje é sábado. 
Há criancinhas que não comem 
Porque hoje é sábado. 
Há um piquenique de políticos 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande acréscimo de sífilis 
Porque hoje é sábado. 
Há um ariano e uma mulata 
Porque hoje é sábado. 
Há uma tensão inusitada 
Porque hoje é sábado. 
Há adolescências seminuas 
Porque hoje é sábado. 
Há um vampiro pelas ruas 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande aumento no consumo 
Porque hoje é sábado. 
Há um noivo louco de ciúmes 
Porque hoje é sábado. 
Há um garden-party na cadeia 
Porque hoje é sábado. 
Há uma impassível lua cheia 
Porque hoje é sábado. 
Há damas de todas as classes 
Porque hoje é sábado. 
Umas difíceis, outras fáceis 
Porque hoje é sábado. 
Há um beber e um dar sem conta 
Porque hoje é sábado.
 
Há uma infeliz que vai de tonta 
Porque hoje é sábado. 
Há um padre passeando à paisana 
Porque hoje é sábado. 
Há um frenesi de dar banana 
Porque hoje é sábado. 
Há a sensação angustiante 
Porque hoje é sábado. 
De uma mulher dentro de um homem 
Porque hoje é sábado. 
Há a comemoração fantástica 
Porque hoje é sábado. 
Da primeira cirurgia plástica 
Porque hoje é sábado. 
E dando os trâmites por findos 
Porque hoje é sábado. 
Há a perspectiva do domingo 
Porque hoje é sábado. 

(Vinicius de Moraes)

Dia de Poesia – Neruda

Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.

Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.

Fui tuyo, fuiste mía. Qué más? Juntos hicimos 
un recodo en la ruta donde el amor pasó.

Fui tuyo, fuiste mía. Tu serás del que te ame,
del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.

Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste. 
Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy.

…Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós.

(Pablo Neruda, em “Crepusculário)

Dia de Poesia, Porque hoje é sábado

O dia da criação

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo

A vida vem em ondas, como o mar

Os bondes andam em cima dos trilhos

E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo

Não há nada como o tempo para passar

Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo

Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo

Amanhã não gosta de ver ninguém bem

Hoje é que é o dia do presente

O dia é sábado. Impossível fugir a essa dura realidade

Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios

Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas

Todos os maridos estão funcionando regularmente

Todas as mulheres estão atentas

Porque hoje é sábado.

(Vinicius de Moraes)

Férias de sonho

Vou tirar férias de mim,

Vou tirar férias de tudo.

Jogar os sapatos pro alto,

tirar as pilhas dos relógios.

 

Desligar o telefone, a campainha,

Dispensar a entrega de jornal,

Perder as chaves do carro,

Esquecer de abrir os portões.

 

Afofar os travesseiros,

encomendar muito sol.

Ficar sem mala, nem bolsa.

Não pensar, não querer, não ouvir.

 

E assim ficarei trinta dias

Ausente de tudo e de mim.

E, se lá estiver muito bom,

Quem sabe não volto mais, não.

Todas que sou

 

Tantas eu sou quantas mais eu fui

Porque indiferente ser um, não ser um ser nenhum

Se viver é se superar a cada momento, lanhar a casca para seguir adiante

Não posso me levar inteira para onde eu for

Alguns lugares são tão pequenos para todas essas

E jamais poderei deixar alguma para trás, abandonada

Ou corro o risco de nunca mais a encontrar

Temos de nos unir e nos adaptar ao nosso canto

E assim vivendo entre mim e mim mesma

Indecisa entre ficar inteira ou ir partida, despedaçada,

Prefiro deixar-me ficar junto de mim aqui

Espalho eu mesma minhas eus pelo meu mundo

E depois as recolho e as guardo com amor

 

Poesia para o sábado de chuva – Duas Almas

Sábado, carnaval, MUITA chuva e visitas… para não falhar no propósito de postar 100 dias seguidos, mas, também, sem tempo para escrever, preencho o post com uma de minhas poesias favoritas: Duas Almas… que me encanta desde sempre…

Duas Almas

(Alceu Wamozy)

 

Ó tu que vens de longe, ó tu, que vens cansada,

Entra, e, sob esse teto encontrarás carinho:

Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,

Vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

 

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada

E a minha alcova tem a tepidez de um ninho,

Entra, ao menos até que as curvas do caminho

Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

 

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,

Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,

Podes partir de novo, ó nômade formosa!

 

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.

Há de ficar comigo uma saudade tua…

Hás de levar contigo uma saudade minha…