Dia de poesia – Hilda Hilst – Tenta-me de novo

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Por que?

Se não era para ficares, por que chegaste tão cedo?

Se era para partires, por que vieste um dia?

Igual uma chuva, tão desejada, mas que não dura,

Porque vem o sol que apaga todos os sinais

Ou um céu estrelado por mais lindo e admirado,

Vem o amanhecer, o dia que a faz desaparecer

Se era para acabar e causar tanta dor, por que começou?

Se era para caíres em seguida, por que alçaste esse voo?

Da mesma forma que as marcas deixadas na areia

São em seguida desfeitas pelas ondas do mar

E os frutos, tão caprichosamente concebidos na natureza

São derrubados e destruídos pelo vento insensível

Se não pretendias amar, por que o juraste em falso?

Se não era para ser amor, por que surgiu esta paixão?

Como nuvens formando as mais lindas figuras

Que não permanecem, somem à primeira brisa?

Tudo que temos são as brancas espumas do mar

Que se desfazem quando se deitam em sua amada areia

Se não era para beijares, por que me deste este abraço?

Se não pretendias me levar, por que me chamaste?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Névoa

Quando me dei conta, ela já havia passado

Eu, pensando que a esperava chegar, não a vi

Só pressenti, intui, pensando haver chegado,

Mas ela já se fora quando enfim a percebi

 

Como uma névoa, que tudo cobre, onde se avança

Vendo os vultos a cada metro então vencido

Fui devagar, e a me guiar, só a esperança

Sem perceber que assim morria sem ter vivido

 

Ah, tempo, tão ingrato e sempre apressado

Que nesta alma provocou tanta erosão

Traga de volta aquela que não tem passado

 

Que, fugidia, se vai sem despedida

E a busco, e procuro, sempre em vão

Essa louca a quem chamo “minha vida”

Dia de poesia – Carlos Nejar – Aqui ficam as coisas

Nossa sabedoria é a dos rios.

Não temos outra.

Persistir. Ir com os rios,

Onda a onda.

 

Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.

Intactos passaremos sob a correnteza

feita por nós e o nosso desespero.

Passaremos límpidos.

 

E nos moveremos,

rio dentro do rio,

corpo dentro do corpo,

como antigos veleiros.

 

Aqui ficam as coisas.

 

Amar é a mais alta constelação.

 

Os sapatos sem dono

tripulando

na correnteza-espaço

em que deitamos.

 

Os corpos

circulando

na varanda dos braços.

 

É a mais alta constelação.

De um passado

Quando pele contra pele em perfeita concha adormecemos,

Almas felizes, paixão satisfeita, tudo mais que perfeito;

A Terra girava em seu exato eixo, o mundo se acalmou,

A mansa chuva lavava os céus, o ar, nossas almas sedentas,

Tudo, todos e cada um ocuparam seu devido lugar,

A felicidade se fez e inundou a noite com sua paz.

O tempo, passou, cruel, separando quem se queria junto,

A vida, implacável, seguiu seu curso de angústias e dores

Como um rio cujas águas não podem ser contidas nem represadas,

E consigo tudo arrasta, separa, esparrama e desfaz…

Pouco a pouco apenas recordações se fazem presente

Nessa vida de repente tão sem brilho, tão vazia de você,

Meus braços, agora, só encontram o vazio para enlaçar.

Somente as lembranças hoje se deitam a meu lado

E tenho, por única companhia, apenas a sua ausência.

Por aí

Antologia - A voz da esperança

Quero a beleza do amanhecer na floresta, com o ruído das folhas ao vento

Misturados à algazarra animada dos pássaros e às cores do dia que surge.

Não posso ficar indiferente a tanta beleza, a tanta alegria da natureza

Que nesse altar se revigora todas as manhãs, e renova a vida, o céu e a terra.

Mas também quero o silêncio longo do anoitecer no lago da montanha

Com suas cores exóticas, brisa amiga, longos pios ao longe dentre as árvores

E a água se vestindo de ouro, de azul, de prata, de cinzas vários até enegrecer

E a noite, cálida e amiga, despertando os corações para novas paixões.

E não quero viver longe da cidade grande, com seu caos organizado, sua vida

Pulsante que nos provoca sempre – sobreviver é a proposta, viver é o desafio

Onde tudo é difícil, mas maravilhoso, tudo longe, mas compensador e vibrante

E ali, na madrugada que se esvai, então dormir com a certeza de um novo dia.

Mas preciso do mar, meu amado mar, de tantas vestes diferentes e humor variado

Nas horas sem fim, que passo a mirar as águas, as ondas vadias que me chamam

Ouvir seu canto infinito, sua eterna canção de me ninar nas noites insones

Apenas estar. Sentir. Não pensar, não sofrer, voltar às origens da vida sem dor.

Tudo isso eu quero, ver a vida de tantas e diferentes janelas, nunca ficar parada

Saber que em algum lugar alguém me espera com ansiedade, sabendo que irei

Porque nunca estou, sou vento, sou chuva – apenas passo e não me detenho.

Voltarei pelo seu amor: não posso parar, sou ave de arribação, espere por mim.