Dia de poesia – Paulo Mendes Campos – Três coisas

Não consigo entender

O tempo

A morte

Teu olhar

 

O tempo é muito comprido

A morte não tem sentido

Teu olhar me põe perdido

 

Não consigo medir

O tempo

A morte

Teu olhar

 

O tempo, quando é que cessa?

A morte, quando começa?

Teu olhar, quando se expressa?

 

Muito medo tenho

Do tempo

Da morte

Do teu olhar

 

O tempo levanta o muro.

A morte será o escuro?

Em teu olhar me procuro.

Dentro do seu abraço

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Dentro do seu abraço há um mundo inteiro

Todas as luzes e todas as cores que existem

Da mais pura paz do branco ao branco-azulado,

ao azul esverdeado alusivo a tantos mares acolhedores

Cores frias, cores quentes, tantas são as cores,

do veemente amarelo que acende todas as outras

aos mais intensos tons da paixão do vermelho e do roxo

E o repouso do preto total e aconchegante.

Dentro do seu abraço há um mundo inteiro

Todos os sons e notas musicais que existem

Da harpa celestial dedilhada por anjos do céu

quando me recosto em você no aconchego da paz

às melodias que cantam e choram amores idos e perdidos

 e aos mais estridentes e dissonantes acordes do rock

passando pelos convites do Bolero, tão fortes

à paixão dos acordes da Fantasia Improviso e ainda

aos mais intensos sons dos gemidos da paixão em brasa.

Dentro do seu abraço existe um mundo

Mais que apenas um simples mundo, mas muitos mundos

Mundos desconhecidos, sonhados, mundos conhecidos e vividos

da criança que um dia fomos e ainda a procuramos dentro de nós

dos jovens sonhadores esmagados pela dura realidade da vida

dos adultos que se pretendiam onipotentes e invencíveis

E hoje, já no nosso outono existencial, apenas conscientes

do nada que somos e do pouco que fizemos por nós.

Dentro do seu abraço existe um mundo

O mundo que nos resta neste final de vida

Que traz aconchego, reacende brasas adormecidas

Espalha as cinzas que cobriam o coração

E reaviva a paixão que ainda existe em nós.

Basta, para tanto, braços abertos e um sorriso verdadeiro

Que dizem: “vem” na acolhida apaixonada que

Cria todo esse mundo de encanto, que só existe

Dentro do seu abraço.

Dia de poesia – J.G. de Araújo Jorge – Soneto a tua volta

Encontrei, por acaso, em minha biblioteca, um livro sem capa, que trazia, cobrindo a primeira página, um antigo papel de presente. E uma singela data, provavelmente quando veio parar em minhas mãos – 1975 – na qual pude reconhecer meu traço.

Bazar de Ritmos… J G de Araújo Jorge.

Começo a folhear. Poesia. Romantismo a toda prova. Saudade, separação, desesperança…

Trago, desse poeta e político brasileiro, uma poesia – Soneto à tua volta – que traduz muito do que todos nós já sentimos, ao menos uma vez na vida, datado de 1.935:

Voltaste, meu amor… enfim voltaste!
Como fez frio aqui sem teu carinho….
A flor de outrora refloresce na haste
que pendia sem vida em meu caminho.

Obrigado… Eu vivia tão sozinho…
Que infinita alegria, e que contraste!
-Volta a antiga embriaguez porque voltaste
e é doce o amor, porque é mais velho o vinho!

Voltaste… E dou-te logo este poema
simples e humilde repetindo um tema
da alma humana esgotada e envelhecida…

Mil poetas outras voltas celebraram,
mas, que importa? – se tantas já voltaram
só tu voltaste para a minha vida…

Texto de Grace Ramsay, de “História de Iza”, escrito em 1.869

E as pessoas ficaram em casa
E ele leu livros e ouviu
E ele descansou e fez exercícios
E ele fez arte e tocou
E ele aprendeu novas maneiras de ser
E ele parou

E ele ouviu mais profundamente
Alguém meditou
Alguém orou
Alguém estava dançando
Alguém encontrou sua sombra
E as pessoas começaram a pensar de forma diferente

E pessoas foram curadas.
E na ausência de pessoas que viviam
De maneiras ignorantes
perigosas
sem sentido e sem coração,
Até a terra começou a se curar

E quando o perigo acabou
E as pessoas se viram
Eles lamentaram os mortos
E eles fizeram novas escolhas
E eles sonhavam com novas visões
E eles criaram novas formas de viver
E elas curaram completamente a terra
Assim como elas foram curadas.

Texto de Emille Kisar

Um dia a gente volta a se abraçar

Por enquanto,

abracemos no olhar

abracemos no falar

abracemos até no silêncio

abracemos ligando para saber como o outro está

abracemos pela janela e pela fresta

abracemos esperando o tempo passar

abracemos o mundo mesmo que de longe

Porque tudo vai passar

Estamos apenas dando um tempo ao tempo

Estamos deixando o tempo resolver a gente

Mas vamos continuar

Sempre continuamos

Nós e nossos abraços

Nós e nossos desejos de voltar a tocar

Nós e nossa vontade ainda maior de sermos humanos

Procure seu melhor abraço

e faça-o sem medo

 

Sem palavras

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Quando você chegar

Na hora mágica do nosso encontro

Não diga nada. Absolutamente nada.

Deixe que seus olhos digam o quanto me procuraram

E que sua boca sacie, na minha, a sede da caminhada

E que suas mãos em meu corpo demonstrem o tamanho

Da saudade que você sentiu de mim

Mas não fale nada. Absolutamente nada.

Apenas sorria pela felicidade do reencontro

Esse seu sorriso maroto e de garoto arteiro

Olhe nos meus olhos com seu olhar profundo

Que atravessa meu ser e chega à minha alma

Abrace-me com sofreguidão de quem nunca

Foi abraçado com paixão nessa vida

Beije-me com todo o desejo contido no universo

Não quero palavras vãs, não quero explicações frágeis.

Por isso, quando você chegar

Na hora mágica do nosso encontro

Não diga nada.

Nada precisará ser falado.