Dia de Poesia -Francisco Otaviano – Morrer… Dormir…

Morrer .. dormir .. não mais! Termina a vida
E com ela terminam nossas dores: 
Um punhado de terra, algumas flores, 
E às vezes uma lágrima fingida!

Sim! minha morte não será sentida; 
Não deixo amigos, e nem tive amores! 
Ou, se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.

Tudo é podre no mundo.  Que me importa
Que ele amanhã se esb’roe e que desabe,
Se a natureza para mim é morta!

É tempo já que o meu exílio acabe,
Vem, pois, ó Morte, ao Nada me transporta!
Morrer… dormir… talvez sonhar… quem sabe?

 

 

Hoje é dia de poesia – Mia Couto – Saudade

 

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho’

Hoje é dia de poesia – Neruda – Te amo!

Te amo de uma maneira inexplicável,
de uma forma inconfessável,
de um modo contraditório.
Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos
e mudar de humor continuadamente
pelo que você já sabe
o tempo,
a vida,
a morte.
Te amo, com o mundo que não entendo
com as pessoas que não compreendem
com a ambivalência de minha alma
com a incoerência dos meus atos
com a fatalidade do destino
com a conspiração do desejo
com a ambiguidade dos fatos
ainda quando digo que não te amo, te amo
até quando te engano, não te engano
no fundo levo a cabo um plano
para amar-te melhor
Te amo, sem refletir, inconscientemente
irresponsavelmente, espontaneamente
involuntariamente, por instinto
por impulso, irracionalmente
de fato não tenho argumentos lógicos
nem sequer improvisados
para fundamentar este amor que sinto por ti
que surgiu misteriosamente do nada
que não resolveu magicamente nada
e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada,
melhorou o pior de mim.
Te amo
Te amo com um corpo que não pensa
com um coração que não raciocina
com uma cabeça que não coordena.
Te amo incompreensivelmente
sem perguntar-me porque te amo
sem importar-me porque te amo
sem questionar-me porque te amo
Te amo
simplesmente porque te amo
eu mesmo não sei porque te amo…

(Pablo Neruda)

Assim sou eu

 

Não olhe assim para mim

Sou apenas uma mulher

Do século vinte e um.

Eu que faço acontecer,

Que passeio em rua coberta,

Que cozinho em micro-ondas,

Sou apenas uma mulher,

Que trabalho, luto e vivo

Plenamente em minha época.

Faço poesia no computador,

Ando na corda bamba da vida,

Mas preciso de você comigo.

Você é meu solo, minha luz, minha água.

Não tenha receios de mim:

Se abandone a meu lado – sem medo,

Tal como se fosse uma orquídea,

Não sou parasita – sou epífita.

Fado/poesia

Ouvi, hoje, esse fado, escrito por Rosa Lobato. Que poesia!!!!!!! Vou publicar aqui porque realmente vale a pena ler:

 

Vinha dizer adeus

(Rosa Lobato Faria / Tó Zé Brito)

Vinha dizer adeus, mas reparei

Que na faia do pátio era Setembro

Vinha dizer adeus, mas encontrei

Um livro na cadeira do alpendre

Vinha dizer adeus, mas as maçãs

Estavam no forno a assar e esse cheiro

Fez-me parar na porta das manhãs

A relembrar o nosso amor inteiro

Vinha dizer adeus, mas o teu cão

Veio lamber-me os dedos hesitantes

Vinha dizer adeus, mas vi no chão

A manta, ao pé do lume como dantes;

Vinha dizer adeus, mas senti fome

Ao ver a mesa posta para dois

Dálias e o guardanapo com o meu nome

Sem ter havido antes nem depois

Vinha dizer adeus, mas que surpresa

À Passionata… o último andamento

Como se tu tivesses a certeza

Que eu ia chegar nesse momento

Vinha dizer adeus, mas nesse olhar

Vi tanta solidão, tantos abraços

Tantas amendoeiras ao luar

Que me escondi, chorando nos teus braços                                                                                

Vinha dizer que já não estou contigo

Que este amor singular já não é nosso

Vinha dizer adeus, mas já não digo

Vinha dizer adeus, mas já não posso

Último poema

 

Era apenas uma lágrima. Gota quente que brotou dos olhos

Na fria madrugada ao receber a mensagem do já esperado adeus.

Esperado, não desejado, não provocado, mas sinalizado.

E a lágrima, lentamente desceu pela face, esfriando e a marcando.

Outras vieram em seguida. Quentes, misturavam-se, e ao final

Todas estavam frias, como era fria aquela triste madrugada.

Geladas, chegaram ao coração. Que até então batia aquecido

Na paixão ardente que o embalava nos últimos anos.

O coração gelou e congelou o sangue. A aurora, mais fria ainda

Aproximou-se e entrou de mansinho, tentando dar um consolo

Àquela alma que se contorcia na dor da perda inexplicada.

A doçura e a mansidão dessa alma a mantiveram em silêncio.

O dia amanheceu, radiante e ensolarado, secando as últimas

Lágrimas que insistiam em cair. E aquela intensa dor da alma

Se transformou em dor física. E tomou conta de todo o corpo.

Anoitecera e adormecera no calor de uma paixão tão linda

Mas amanheceu na solidão silenciosa e dolorida do abandono,

Que cortava como faca afiada. O sol avisou que a vida continuava.

Devastada, aos pedaços, mas não viva, pois algo morrera por dentro,

Levantou-se e enfrentou o dia, já inundada de uma saudade que

Sabe jamais saciada, e se pergunta agora como seguir em frente

Com todos seus sonhos pisoteados, quando nada mais tem a esperar…

Meu encanto

Foi um vendaval – um forte e quente vento de verão

Que se aproveitou de uma janela esquecida aberta

E subitamente adentrou neste velho coração

E trouxe dúvidas para a essa vida que estava certa

 

Não consegui contê-lo, e assim também não me contive

E se anoiteci na rotina de tantas tristezas antigas

Amanheci renovada, na paixão incontida

Reavivada no calor dessas lembranças amigas

 

Tsunami, temporal, sensações passadas

Desejo, saudade, palavras esquecidas

Torvelinho fatal do que estava resolvido

 

Fecho hoje com cuidado as janelas – agora já cerradas

E as cinzas, que esvoaçaram doidas, voltam, entristecidas

A cobrir de novo as brasas de um coração adormecido.