Texto de Vinícius de Moraes – Ausência um

Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Minha Bandeira

Bandeira do Brasil / Ninguém te manchará
Teu povo varonil / Isso não consentirá

Bandeira idolatrada / Altiva a tremular
Onde a liberdade / É mais uma estrela a brilhar.

(Fibra de Herói – Música de Teófilo De Barros Filho e Cesar Guerra Peixe)

 

Dia de faxina de documentos no escritório.

Olho pela janela. Vejo a Bandeira Nacional.

Não na sua tradicional forma retangular de fundo verde, sobreposto por um losango amarelo e um círculo azul, no meio do qual está atravessada uma faixa branca com o lema nacional em letras maiúsculas verdes, na proporção 7:10.

Mas outra forma, que a natureza traz à minha janela:

 

Contra o céu azul malhado de nuvens brancas, uma sibipiruna coloca estrategicamente sua folhagem de um verde forte, salpicado de delicadas flores de intenso amarelo.

Fico a olhar longamente esse enquadramento. E vejo a Bandeira do Brasil.

A verdadeira.

Aquela que representa um país que foi às ruas para evitar que nossa bandeira se tornasse vermelha, sendo substituída pela bandeira de um partido esquerdista e oportunista, que estava destruindo a economia da nação e tirando a dignidade de um povo.

Não sei o quanto investi nessa luta. Não sei quantas centenas de e-mails e mensagens. Não sei quantas dezenas de vezes ouvi dos céticos e omissos “Ah, isso não vai dar em nada…”. Não sei quantos milhares de passos caminhei pela Avenida Paulista, sol ou chuva, cansada ou disposta, doente ou sã.

Mas estava lá. Não ganhando, mas até mesmo pagando. Porque meu ideal era maior que qualquer desânimo, qualquer dificuldade, qualquer perigo. E, nesses dias, não apenas a Paulista ou São Paulo era verde e amarelo, mas um país de dimensões continentais se revestia com suas cores e se transformava em imensa Bandeira viva.

Fui pioneira ao cunhar a expressão “A minha Bandeira jamais será vermelha”, que se transformou em “A nossa Bandeira jamais será vermelha”. Sinto orgulho quando a ouço nos quatro cantos do país.

Foi uma grande alegria ver que o país – pela primeira vez em sua História – se uniu em um objetivo comum, de recuperação, reconstrução e democracia. Um povo que no máximo se unia para torcer em jogo de copa do mundo de futebol.

É uma alegria ver que a mobilização não acabou, o povo não se dispersou.

Conseguimos, como efeito colateral, despertar a consciência política. A população se interessa pelo que acontece na vida do país. Se une para pedir, reclamar, boicotar, agir para melhorar. E isso é lindo. Muito lindo. Isso é o pleno exercício da cidadania.

Chegamos lá? Claro que não. Ainda falta muito.

Mas o primeiro passo foi dado, e, como em uma maratona, ninguém mais conseguirá segurar nossa caminhada rumo ao Brasil Verde-e-Amarelo que sonhamos. Agora é realidade.

Eu sou funcionário, ela é bailarina

Em continuação ao post de 03.02.2020, sobre viver juntos/separados, 

veio-me à memória essa canção do Chique Buarque, que trata desse tema (clique no link para ouvir):

O nosso amor é tão bom / O horário é que nunca combina
Eu sou funcionário / Ela é dançarina
Quando pego o ponto / Ela termina
Ou: quando abro o guichê / É quando ela abaixa a cortina
Eu sou funcionário / Ela é dançarina
Abro o meu armário / Salta serpentina
Nas questões de casal / Não se fala mal da rotina
Eu sou funcionário / Ela é dançarina
Quando caio morto / Ela empina
Ou quando eu tchum no colchão / É quando ela tchan no cenário
Ela é dançarina / Eu sou funcionário
O seu planetário / Minha lamparina
No ano dois mil e um / Se juntar algum
Eu peço licença / E a dançarina, enfim
Já me jurou / Que faz o show / Pra mim
Ela é dançarina / Eu sou funcionário
Quando eu não salário / Ela, sim, propina
Eu sou funcionário / Ela é dançarina
Quando esquento a sopa / Ela cantina
Ou quando eu Lexotan / É quando ela Reativina
Eu sou funcionário / Ela é dançarina
Viro o calendário / Voa purpurina
No ano dois mil e um / Se juntar algum
Eu peço uma licença / E a dançarina, enfim
Já me jurou / Que faz o show
Pra mim

Noite-e-dia

Pela centésima milionésima vez, ontem vi novamente o filme O feitiço de Áquila. Do livro Ladyhawke, de Joan D. Vinge. Vale a pena ler. Vale a pena assistir.

A história – realismo-fantástico – gira sobre uma maldição lançada por um bispo sem vocação contra um casal de namorados – o Capitão da guarda, Etienne de Navarre (vivido pelo ator neerlandês Rutger Hauer) e sua amada Isabeau d’Anjou (estrelada pela belíssima Michelle Pfeiffer).

Quando descobriu que sua eleita amava o capitão, e que ambos haviam fugido de Áquila, o bispo invocou as forças do mal e os amaldiçoou de forma que nunca mais se encontrassem como homem e mulher. Ele, de dia o garboso cavaleiro, trazia consigo um falcão. Depois do por do sol, ela, a linda mulher, caminhava pelas florestas com um lobo negro. “Sempre juntos, eternamente separados”. Ou seja – ele se tornava lobo ao mesmo tempo em que ela voltava a ser mulher, o que impedia que se encontrassem. Ele era o dia, e ela, a noite. E a maldição só seria quebrada se os dois – Navarre e Isabeau, ficassem, ambos na forma humana, de frente para o bispo e este os encarasse.

Entretanto, o maldoso bispo não contava que existe, sim, “dia sem noite e noite sem dia” – quando ocorre o fenômeno do eclipse solar.

Mas, não vim aqui para contar o filme e sim para comentar a distância que a perda ou separação impõem àqueles que desejam estar juntos, mas são condenados a viverem separados.

A perda, pela morte, é irremediável. A morte é o maior mistério da vida. Onde estão as pessoas que morreram? Devemos alimentar a esperança de estarmos todos um dia novamente juntos, ou a morte é, simplesmente, o fim de tudo? Então qual seria o sentido da vida, se tivermos apenas esses poucos anos na Terra?

Indagações que rendem textos e mais textos, filosofia pura e também filósofos de mesa de buteco…

Apaixonar-se, amar, desejar, querer, e estar separado. Essa a grande questão de hoje aqui no post.

Quem nunca?

Pois é…

A separação é reversível? Nem sempre. Muitas vezes reveste-se de uma definitividade que não admite contra-argumentos.

Outras vezes, quando revertida, mostra-se inviável.

Tal como a máxima que um homem não mergulha duas vezes na mesma água de um rio, voltar pode nos levar a outro lugar, a outra pessoa, agora diferente do que deixamos. Porque o tempo passou para os dois. Nem sempre o reencontro é agradável ou duradouro.

Ah, mas todo mundo merece uma segunda chance…

Sei!

A vida não é uma ciranda de danças, que você vai trocando de par até chegar no primeiro novamente e tudo continua igual…

Pode ser que os vícios, os defeitos, tudo que separava tenha se agravado com o tempo…

Ainda que um revival seja sempre uma tentação, nem sempre é a solução…

Mas, voltando ao ponto central: o sofrimento de estar separado quando as almas estão juntas.

O pensamento dia e noite em quem está distante, não há como encontrar, tocar, estar junto… ainda que a tecnologia tenha conseguido suprimir algumas arestas da separação – temos hoje comunicação audiovisual instantânea – podemos conversar vendo o outro.

Mas o âmago da saudade está em mais que ver e ouvir: tocar, abraçar, amar…

E isso não existe.

Quando a separação abrange, ainda, fuso horário e enquanto para um é dia, para o outro é noite, aí fica ainda mais difícil. Nem mesmo a comunicação audiovisual é fácil…

Medida em milhas ou quilômetros, a distância é o desespero dos que se amam.

Os sonhos trazem o outro, mas não satisfazem o que o corpo e a alma esperam.

A voz através do telefone até aquece o coração, mas não silencia a saudade.

A interação audiovisual não supera a ausência física.

As lembranças se avolumam, tornam-se doces.

E, por incrível que pareça, por outro lado, a convivência não é garantia de felicidade. Essas mesmas pessoas, se colocadas para viverem o dia-a-dia na mesma casa, dormindo juntos todas as noites, fazendo em comum as refeições, dividindo sonhos e problemas, contas e alegrias, talvez não consigam permanecer juntas. Porque a rotina mata a paixão. A intimidade anula o respeito. A facilidade do contato abafa o desejo.

Paradoxal…

A solução? Não a tenho. Mas penso que o melhor caminho é viver relações como se fôssemos, ao mesmo tempo, as pipas e as mãos que as empinam. Darmos toda a linha para a distância necessária, mas segurarmos com a firmeza suficiente para que não se afaste muito, nem se vá para sempre…

Cultivarmos as asas, uns dos outros, para que todos possam voar livres. Mas firmarmos suas raízes junto de nós para que sempre voltem.

Porque sempre haverá o momento do eclipse, em que os encontros encantados acontecerão, e a paixão dominará…

Hoje

Em alguns raros anos temos datas palíndromas.

Hoje, por exemplo – 02.02.2020 ou 02022020.

Nesse dia – 02 de fevereiro – é comemorado o dia de Nossa Senhora dos Navegantes. Dia das lindas procissões de barcos por todo o país, e o dia da padroeira, muito comemorado em Porto Alegre.

Ela é a protetora dos pescadores. Nessa data, eles enfeitam seus barcos com as cores da santa, e promovem as lindas procissões aquáticas. É emocionante assistir.

Mas também dia de Iemanjá, designada “rainha dos mares”.

Assim, esse dia já possui simbolismos extraordinários e de grande apelo popular.

Em razão do ano ser 2020, traz, hoje, sua carga extra de superstições. Recebi inúmeras mensagens das mais diversas origens, falando sobre o que ocorre em datas tão especiais.

Não acreditei em nada.

Para mim, mais um domingo ou mais um dia 02 de fevereiro na minha vida, exatamente igual a todos que já passei.

Pensando bem, acho que há, mesmo, uma pequena diferença:

Hoje é tão hoje, mas tão hoje, que hoje é hoje até de trás para frente!

Texto de Fabíola Simões – O que perdemos quando o nosso pai morre

Por “A Soma de Todos Afetos” – 6 de junho de 2019

O momento em que um pai morre é um dos mais complexos na vida de uma pessoa. Não importa quantos anos tenhamos ou quão bom ou ruim esse relacionamento tenha sido com o pai. Mesmo um pai distante ou ausente deixa um vazio profundo e uma série de sentimentos e emoções difíceis de processar.

Quando nosso pai morre, precisamos nos reposicionar mentalmente no mundo. Por um tempo, o lugar que ocupamos no planeta se torna um pouco difuso. Nós também temos que modificar nossa autopercepção. Sem o nosso pai, não somos iguais a antes.

Embora o habitual seja que tenhamos mais apego e proximidade com nossa mãe, a verdade é que o pai é uma figura que está sempre no horizonte. Mesmo quando não está lá, sua presença brilha no pano de fundo. É um guia e protetor, embora não o guie ou proteja. Nossa mente colocou nesse papel, mesmo sem perceber.

Quando o pai morre, a identidade muda

Somos nós quando temos um pai e outros quando nosso pai morre. Não importa se temos 30, 40 ou 50 anos no momento em que o evento ocorre. Enquanto nossos pais estão vivos, uma parte de nós continua a viver na infância. Nós sentimos que nossa vida é liderada por outro ser.

No momento da morte do pai, um pequeno terremoto ocorre em nossa identidade. Nós somos aqueles que lideram as gerações que nos seguem. Isso assusta e gera uma sensação de solidão.

Um processo de construção de uma nova identidade adulta começa então. Isso não é feito automaticamente e não está livre de sofrimento. Precisamos construir uma nova perspectiva sobre quem somos e nosso lugar na vida dos outros. Quando o pai morre, é como se tivéssemos perdido uma âncora. Por um tempo estaremos à deriva.

Nostalgia pelo que nunca foi

Nós nunca teremos outro pai. É uma perda absolutamente irreparável. Quer tenhamos um bom relacionamento com ele ou não, sentiremos nostalgia pelo que nunca aconteceu ou o que nunca aconteceu. Algo dentro de nós resiste a renunciar aos ideais, a aceitar o impossível.

Se nosso pai era próximo e afetuoso, vamos ver tudo o que ele nos deu. Seus sacrifícios e esforços para nos fazer felizes. Então, podemos pensar que não correspondemos adequadamente àqueles presentes generosos. Que nos faltava dar mais amor, mais atenção ou mais felicidade.

Se o relacionamento com o pai não foi bom, as coisas ficam um pouco mais difíceis. O normal é que as fraturas e os pontos de ruptura nessa relação começam a pesar mais. Agora não há mais a oportunidade de encurtar essas distâncias ou simplesmente dizer sim, que apesar de tudo, nós amamos isso.

Algo semelhante acontece no caso de pais ausentes. Para aquela ausência vivida e sofrida, seguramente por muito tempo, a força da ausência total é acrescentada agora. É como ser forçado a fechar um ciclo que nunca foi realmente aberto.

O imperativo para avançar

Não importa quais sejam as circunstâncias, se nosso pai morrer, a dor provavelmente aparecerá. Nós também vamos mudar às vezes de uma maneira positiva. Sem essa figura normativa atual, é possível que aspectos de nossa personalidade ou realidades que foram inibidas por sua presença venham à luz.

De qualquer forma, essa perda certamente irá doer intensamente por um bom tempo. Ao longo dos meses e anos, será mais tolerável. O mais aconselhável é entender que o sofrimento puro e duro antes da morte do pai é uma fase perfeitamente normal. Podemos ter 50 anos, mas mesmo assim vai doer, vai nos assustar.

A psicóloga Jeanne Safer recomenda dedicar um tempo para refletir sobre o legado que nosso pai nos deixou. E faça basicamente cinco perguntas: o que eu recebi do meu pai? O que eu quero manter disso? O que eu quero descartar? O que eu me arrependo de não ter recebido? O que eu gostaria de dar e não dizer?

Tudo isso permite identificar onde estão as fraturas e vazios. Isso, por sua vez, ajuda a gerar estratégias para processar essas lacunas e interrupções. Quando nosso pai morre, novas veias de crescimento também se abrem. O mais inteligente é tirar vantagem deles.

(Do original publicado no site lamenteesmaravillosa)