Dia de poesia – Mia Couto – Já não há domingos

Já não há domingos

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
…esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.

(Imagem: foto de Miguel Angelo Barbosa)

Poesia da casa – Dentro do seu abraço (Memória do blog, há dois anos)

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Dentro do seu abraço há um mundo inteiro

Todas as luzes e todas as cores que existem

Da mais pura paz do branco ao branco-azulado,

ao azul esverdeado alusivo a tantos mares acolhedores

Cores frias, cores quentes, tantas são as cores,

do veemente amarelo que acende todas as outras

aos mais intensos tons da paixão do vermelho e do roxo

E o repouso do preto total e aconchegante.

Dentro do seu abraço há um mundo inteiro

Todos os sons e notas musicais que existem

Da harpa celestial dedilhada por anjos do céu

quando me recosto em você no aconchego da paz

às melodias que cantam e choram amores idos e perdidos

 e aos mais estridentes e dissonantes acordes do rock

passando pelos convites do Bolero, tão fortes

à paixão dos acordes da Fantasia Improviso e ainda

aos mais intensos sons dos gemidos da paixão em brasa.

Dentro do seu abraço existe um mundo

Mais que apenas um simples mundo, mas muitos mundos

Mundos desconhecidos, sonhados, mundos conhecidos e vividos

da criança que um dia fomos e ainda a procuramos dentro de nós

dos jovens sonhadores esmagados pela dura realidade da vida

dos adultos que se pretendiam onipotentes e invencíveis

E hoje, já no nosso outono existencial, apenas conscientes

do nada que somos e do pouco que fizemos por nós.

Dentro do seu abraço existe um mundo

O mundo que nos resta neste final de vida

Que traz aconchego, reacende brasas adormecidas

Espalha as cinzas que cobriam o coração

E reaviva a paixão que ainda existe em nós.

Basta, para tanto, braços abertos e um sorriso verdadeiro

Que dizem: “vem” na acolhida apaixonada que

Cria todo esse mundo de encanto, que só existe

Dentro do seu abraço.

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de Poesia – Daniel Arruda Teixeira – Tu

Tu não estás longe de mim
nunca estiveste aliás.

Estás em mim.
Tu moras aqui
aqui dentro

És tu quem me acorda
e também quem me nina

Caminhas ao meu lado
de braços dados...
arrancas lágrimas dos meus olhos
arrancas sorrisos da minha boca

estás no meu pensamento
e nas minhas ações

és tu que controlas minhas mãos

nossas vidas se cruzaram naquele dia
ali eu nasci
tu entraste
nunca mais saíste

Tatuado em mim
tu estás
Não superficialmente na pele
mas internamente
na alma

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Desejo

Queria ser o bálsamo para curar suas dores,
Ser a canção mansa que acalma seu coração.
Queria, com suas lágrimas, umedecer meus lábios secos,
E que meus braços fossem para sempre seu repouso.
Queria dissipar seu cansaço da vida, sua tristeza,
Que em meu corpo você encontrasse seu ninho.
Queria que meu amor tivesse o poder da luz,
E a meu lado nenhum medo do futuro existisse.
Queria ser para sempre sua fonte de carinho,
E a ternura doce que você sonhava encontrar.
Queria, depois que eu partir, ser a lembrança alegre,
Ter feito a diferença da felicidade em sua vida.
Queria ter a certeza da eternidade do nosso amor
E que esta paixão, fosse, então, infinita...

(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)

Dia de Poesia – José Ribeiro Borges – Quando eu morrer

Quando eu morrer,
Morrerei em paz,
Humildemente,
Longe de toda a gente,
Longe de tudo o mais.

Me despedirei da vida
Como de um sonho que se esvai.
Não direi: Chorai.
Direi, apenas,
Não tenhas pena
De mim, minha mãe;
Não tenhas pena
De mim, meu pai.

Morrerei, simplesmente,
Obscuramente
Sem adeus adrede
De quem se despede,
De quem se vai.
Como vivi, morrerei:
Pobremente,
Sem um ai.
Como uma flor que murcha,
Como uma gota que cai.
(Imagem: foto de stock no Vecteezy, banco de imagens Google)
 

Memória do blog, há um ano – Escola

As escolas começaram com um homem embaixo de uma árvore, que não sabia que era professor, discutindo suas percepções com uns poucos que não sabiam que eram alunos.(Louis Kahn)

Interessante essa ideia da origem da escola – e do professor e do aluno.

Em que momento surgiu a escola, ou a ideia de escola, se, desde o primeiro momento da vida se começa a aprender – e há alguém a nos ensinar?

Ou escola é só aquela formal, quando o professor se propõe, como missão de vida, a ensinar a vários alunos?

Todos somos alunos e somos professores nessa vida.

A mãe é a primeira e grande mestra. Praticamente ensina ao filho, desde seu nascimento, tudo o que ele precisa saber para viver nesse mundo hostil fora de seu útero.

Então já nascemos alunos.

Mas ensinamos à mãe o que é o amor de um filho, o que é a alegria de um lar. Daí nos tornamos professores.

Os irmãos se ensinam. Tudo. Desde amizade, camaradagem, agressão e defesa pessoal, até as mais difíceis equações da matemática.

Entre irmãos somos professores e alunos.

A pessoa mais simples, com menos estudo possível, poderá ser sábia, e nos dar grandes lições de vida e resiliência. Mais sabedoria que muito professor titulado.

E tudo o que sabemos, ainda que pouquíssimo, poderemos ensinar àqueles que sabem ainda menos do que nós.

Às vezes um pequeno gesto ensina mais que muita profusão de estudos e palavras complicadas.

Aprendemos com as pessoas, na família, no trabalho, no ponto de ônibus, na praia…

Ensinamos por todos os lugares pelos quais passamos. Podemos até mesmo ensinar o que nem sabíamos saber.

De que adianta aprender e saber se não for para ensinarmos?

Qual a finalidade de se guardar tudo o que se aprende?

E, quanto mais ensinamos, mais aprendemos.

Quanto mais dividimos o que sabemos, mais adquirimos saber.

Hoje não há mais escolas. Cada um pega seu computador e vai para um canto. Não sabemos se os denominados alunos estão aprendendo. Só avaliaremos essa situação daqui uma década ou duas, quando esses alunos forem os profissionais de amanhã.

Mas aquele homem, aquele primeiro homem que resolveu formalmente dividir suas dúvidas com seus amigos, estava personificando a mais nobre ação que um ser pode desenvolver: ensinar.

(Imagem: foto de Miguel Angelo Barbosa)