O silêncio

O que é o silêncio?

Apenas a ausência dos sons?

A falta de ruídos?

O silêncio é concreto ou abstrato? Necessário ou indesejado?

O silêncio não apenas nos cobre, mas nos invade. Toma nossa alma e a faz refém.

Não da calma, mas da calmaria que antecede a tempestade.

Não do sol que aquece, mas do calor que abrasa e destrói.

O silêncio pode ser a companhia ideal em certas situações, mas pode ser o opressor que tortura em tantas outras.

Quando resulta do abandono, do descaso, da solidão dolorida de uma ausência, o silêncio é dor, faz sangrar.

Na madrugada é bem-vindo, mas nos domingos é aflitivo.

Na hora da oração é necessário, mas na hora na qual deveria haver cantos e alegria, é cruciante.

A saudade é feita de longos e cruéis silêncios.

Quantas vezes o silêncio é torturante, mais ensurdecedor do que qualquer barulho.

O silêncio é a foto que congela as ondas do mar sem seu canto, as águas tombando na cachoeira sem seu estrondo, a alegria dos pássaros depois da chuva, sem sua algazarra…

Tão antagônico, tão contrário a si mesmo é o silêncio, e, neste exato momento, tão amado e tão dolorido para mim…

(Imagem: foto de Marina Maggioni)

Ele sempre volta

Ele sempre vai embora. Não consegue ou não pode ficar.    

Às vezes discretamente, outras com grande estardalhaços.

Às vezes se vai mais cedo, outras fica enrolando e demora para ir.   

Mas ele sempre se vai.    

Sabe que deixará saudade, sua volta será ansiosamente aguardada.  

E então tudo escurece, perde o brilho, o calor, e sua ausência é lamentada.   

E chega a hora mais escura da noite, a hora mais fria da madrugada, a natureza em completo repouso, parece que está tudo perdido, que tudo acabou de vez.

Então ele volta.   

Surge, quente e imponente, em cores deslumbrantes, anunciando o novo dia. 

E volta a luz, a claridade, o calor e a própria vida. 

Porque o sol volta, ele sempre volta.

(Imagem: foto de Maria Alice)

21 de março – Dia Mundial da Poesia

Luar na mata, raio de luz

Ruído de água, canto do vento

Terra sonhada, sol que aquece

Alma encantada, som de desejo

Corações em sintonia, mãos que acarinham

Olhos nos olhos, palavras de ternura

Lágrimas de emoção, penas e angústia

Tudo o que importa na vida,

Sonho de amor, paixão infinita,

Poesia.

(Imagem: foto de Maria Alice)

Dia de Poesia – Sol Holande – Saudade

E bateu uma saudade...
Saudade do teu abraço...
Saudade do nosso abraço...
Do teu cheiro...
Saudade do nosso cheiro...
Do som da tua voz...
Saudade do som das nossas vozes, 
misturadas...
Saudade do seu sorriso
do seu olhar de "interrogação"...
Saudade de você...
Saudade de andar de mãos dadas,
Saudade daquele café na padaria,
numa manhã qualquer de domingo...
Saudade da gente...

(Imagem: banco de imagens Google)

Última chuva do verão

“… É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira…

É um belo horizonte, é uma febre terça
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração…”
(Antonio Carlos Jobim)

Chove. Anoiteceu chovendo muito, intensamente.

É a última chuva do verão, que amanhã se irá para voltar em dezembro.

Escuto a chuva. Adoro chuva. Adoro ver chover. Adoro ouvir e ver a chuva.

Sem raios, sem trovões, apenas água. Água linda, que cai limpando o ar e purificando a Terra. Bênção divina.

Verei outras chuvas?

Verei outros verões?

Quem sabe, ou pode afirmar?

Esse foi um triste verão, sem cores, sem sol, sem alegria.

Se houve cores, se houve sol, se houve alegria, não percebi.

Saindo de uma peste para entrar numa guerra, só para dizer o que se passa lá fora.

E a bagunça que reina aqui dentro impede ver qualquer sinal de um típico verão.

Mesmo que não mais esteja aqui, tenho certeza que em dezembro o verão estará de volta. E no próximo ano, neste dia, uma linda chuva virá para cumprir a sina das “águas de março fechando o verão”.

(Imagem: foto de Maria Alice)

Memória – O traste da paixão

Não te espero, só porque te quero. Te quero, como sei que eu nunca quis alguém assim. Não te espero, só porque te quero. É porque te quero só pra mim… Te quero na minha vida, na minha paixão. Te espero, em todos os momentos e não só na solidão.(Celi Luzzi)

Ah, a paixão… a velha e boa paixão…

Chega de repente, nem se sonhava que estava a caminho. Pega de surpresa e se espalha. A paixão toma todo o corpo, ocupa todos os espaços. Torna-se obsessão, ideia fixa. Já não se sente mais necessidade de comer, de dormir, de conviver. Basta a existência, a atenção e a companhia do ser que despertou toda essa torrente de emoções.

Segue-se como encantado, com o sonho invencível de consumar a paixão, a necessidade de saber onde o outro está, o que faz, o que pensa…

De vez em quando a paixão é recíproca – aí é a pura maravilha, porque quando correspondida, a vida se torna colorida, sinos tocam sem cessar, anjos cantam dia e noite, tudo é encantamento.

Geralmente, no entanto, a paixão não é via de duas mãos – enquanto um está intensamente apaixonado, o outro só está passando o tempo, esperando que alguém mais conveniente apareça. E finge paixão.

E promete, e faz sonhar, deixa o apaixonado nas nuvens. Até o dia em que aparece o que esperava – mesmo que seja um traste imprestável – e deixa o apaixonado falando sozinho, até este perceber que a paixão era via de uma só mão.

E, pelo traste pelo qual foi substituído, o apaixonado acaba se dando conta do traste imprestável pelo qual se apaixonara…

(Imagem: banco de imagens Google)