Quando se canta a tristeza

Soneto (Chico Buarque)

Por que me descobriste no abandono?
Com que tortura me arrancaste um beijo?
Por que me incendiaste de desejo?
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo?
De que romance antigo me roubaste?
Com que raio de luz me iluminaste?
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida?
E me indicaste o mar, com que navio?
E me deixaste só, com que saída?

Por que desceste ao meu porão sombrio?
Com que direito me ensinaste a vida?
Quando eu estava bem, morta de frio

Lygia se foi, mas não morreu – ela é imortal

Hoje perdemos a “dama da literatura nacional”, escritora paulista, vencedora de cinco prêmios Jabuti, a imortal Lygia Fagunde Telles. Aos 98 anos de idade, ela partiu. Alma delicada, inteligência privilegiada, foi grande, foi enorme. Honrou o fardão que ostentou por décadas na Academia Brasileira de Letras, onde, desde 1985, ocupava a cadeira 16. Excelente escritora, ela é imortal. Estará sempre presente na memória dos leitores.

A disciplina do amor


Por que não lhe disse antes?
Apertá-lo demoradamente contra o meu peito e dizer: não disse porque pensava que tinha pela frente a eternidade. Só me resta agora esperar que aconteça outra vez, vislumbro esse encontro – mas vou reconhecê-lo? E vou me reconhecer nos farrapos da memória do meu eu?
Peço que me faça um sinal e responderei ao código secreto na mente e no silêncio dos navios que se comunicam quando cruzam no mar.

Ela disse tudo. Nada mais é preciso dizer…

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Canção para ninar meu amor

Dorme, meu amor
Vai para esse teu mundo encantado
onde reinas absoluto e tranquilo
onde ninguém pode entrar nem perturbar

Nesse lugar mágico de teus sonhos
onde ficas livre dos problemas
livre das tristezas
livre da realidade

Dorme, meu amor
eu velo teu sono
eu sou teu descansar
eu sou teu mundo aqui do lado de fora

Descansa, meu amor
descansa de tudo  
descansa todo esse teu cansaço
porque precisas muito descansar

Dorme meu amor, relaxa
Aproveita tuas horas de sono
E te renova inteiro na paz
envolto pela minha ternura

Estarei sempre aqui, 
vigiando teu sono
guardando esses teus momentos
nunca sairei de teu lado

Para ser em teus olhos
a primeira imagem do teu despertar
e a primeira alegria de teu novo dia
Dorme, meu amor. 

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Martha Medeiros – O tamanho das pessoas

Os Tamanhos variam conforme o grau de envolvimento…

Uma pessoa é enorme para ti, quando fala do que leu e viveu, quando te trata com carinho e respeito, quando te olha nos olhos e sorri.

É pequena para ti quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade, o carinho, o respeito, o zelo e até mesmo o amor

Uma pessoa é gigante para ti quando se interessa pela tua vida, quando procura alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto contigo. E pequena quando se desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.

Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos da moda.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas.

Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. O nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de acções e reacções, de expectativas e frustrações.

Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente torna-se mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande… é a sua sensibilidade, sem tamanho…

(Imagem: banco de imagens Google)

Memória: Voo de alma

Ter penas não é ser livre / Nem nos pode libertar
Um par de asas apenas / Se falta o céu pra voar

(João Chagas Leite)

Voar… nada mais livre do que voar.

Símbolo maior da liberdade é o voo – talvez os pássaros sejam os animais mais livres da face da Terra.

Voar é contar consigo mesmo e acreditar. É confiar em si mesmo e na própria capacidade de ir além, quebrar fronteiras, ultrapassar limites. Ninguém pode voar pelo outro.

Assim, a primeira condição para voar é a auto confiança.

Mas também depende da sensação de liberdade. Não adianta ter asas nem ter o céu para voar, se a alma não for livre o suficiente para alçar o voo.

Há quem seja livre de alma e não pode voar por não possuir asas.

Há quem as tem mas não possui a alma livre para voar. A alma livre é a coragem.

Se o pássaro não tiver coragem de voar, ficará eternamente cativo, ainda que tenha asas e as portas da gaiola permaneçam abertas.

Quantos são prisioneiros vivendo em liberdade, quantos continuam livres, ainda que encarcerados?

Aqueles que têm alma de prisioneiro se resignam e aceitam qualquer limitação, qualquer prisão, mas quem tem a alma livre acaba por encontrar a liberdade.

Ainda que prisioneiro da Ilha do Diabo, ou de Alcatraz, ou da Torre de Londres.

Seja René Belbenoît, sejam Frank Morris e seus dois companheiros, seja o padre John Gerard. Ou, na literatura, Jean Valjean ou Edmond Dantès, dentre outros.

A lição que todos nos deixam é que a alma livre faz o homem livre.

O voo do pássaro simboliza o sonho de liberdade do homem.

Pássaro cativo não voa.

E voar é a imagem da liberdade.

(Imagem: banco de imagens Google)

Na guerra

Após uma reunião entre representantes russos e ucranianos na terça-feira (29), em Istambul, na Turquia, o vice-ministro da Defesa da Rússia, Alexander Fomin, anunciou uma “redução radical” das atividades militares nas regiões de Kiev e Chernihiv, na Ucrânia.” (Rafael Bevilacqua, 30/03/2022 09h21)

Olhou mais uma vez a foto da filhinha antes de guardar no bolso da farda. Estava sujo, cansado, faminto. Há dias de prontidão nesse ponto entre o nada e o lugar nenhum. Não entendia de guerra, mas precisou se alistar e agora estava nesse impasse.

Convocado, não tardou a se apresentar. Não acreditou que seria guerra de verdade.

Dias e dias de silêncio total, quando imaginava que a guerra era a cena de um filme, com tiros, explosões e gritos.

Nada disso.

Apenas dias de silêncio e alguns assovios. Alguma canção popular, um chamado entre amigos, e nada mais.

Faltavam dois dias para o aniversário da filha. E, na tropa, corria um boato que haveria rendição e que a guerra estava no fim. Questão de dias. E isso já durava há semanas.

Sonhava em voltar para casa, rever a mulher e a filha, tomar um banho de verdade e comer comida quente. Mas a sonhada notícia de que a guerra acabara, nunca vinha.

As costas doeram de tanto tempo na mesma posição. Levantou-se para caminhar um pouco e esticar as pernas.

Não viu de onde veio a bomba. Só viu o clarão. Nem ouviu a explosão e nem o silêncio que veio depois.

Para ele, a guerra acabou.

(Imagem: banco de imagens Google)