
Categoria: DeAlice
Dia de poesia – Cândido Arouca – Nesta distância pequenina
Vem.
Senta-te ao meu lado.
Dá-me a tua mão mantendo-a afastada de mim.
Fala-me sem usares palavras.
Mostra-me o teu corpo sem te despires.
Dança para mim sem te mexeres.
Beija-me sem que os nossos lábios se toquem.
Ama-me nesta distância pequenina que nos separa.
E sabes que o podemos fazer,
que o fazemos,
que nos amamos assim também.
Olha-me apenas e deseja-me como te desejo.
E posso ficar horas assim contigo,
a amar-te desta forma,
a amar-te com o olhar,
a amar-te sem te tocar,
sem te possuir.
Assim entro em ti de outra forma.
Entro em ti pelo olhar e penetro-te até à alma.
Possuo-te para lá das tuas entranhas.
Revolvo-te o sentir e os sentidos.
Leio os teus pensamentos.
Desbravo o que de mais secreto há em ti.
Abro os compartimentos do teu coração até aqui encerrados.
E conheço-te melhor.
Sei-te melhor.
Amo-te melhor.
Porque te amo igualmente sem te tocar,
para que te possa amar,
sempre.”
O quadro da vida

À medida que diminuem os amanhãs, começamos a analisar todos os ontens. E sopesar as alegrias, as tristezas, os prazeres, as mágoas.
Vamos montando um quadro da nossa existência, posicionando as pedrinhas do que se viveu, dos sonhos não realizados, dos planos abandonados, lado a lado, de acordo com a importância, a forma, a cor…
As lágrimas molham o cimento das dores e fazem a massa para fixar essas memórias… de forma harmônica, agradável e suportável.
Olhamos para o passado com saudade e com vontade. Ah, se pudéssemos viver de novo, se na vida houvesse uma segunda chance… Quanta dor, quanta paixão…
O passado se torna imenso, enquanto o futuro encolhe a cada dia e vemos que pouco nos resta.
Chegamos no tempo das perdas – amigos, familiares, ídolos, todos partindo na última viagem, o que deixa claro que estamos aqui por pouco tempo.
Paira uma tristeza indizível no ar. Sorrimos, seguimos, mas dentro de nós há destroços. Quantas recordações que não queríamos ter acumulado. Mas é inevitável. E essa montagem do que trazemos é a catarse final e necessária para que possamos partir em paz.
Que haja tempo para que cada um de nós consiga montar seu quadro.
Com os cacos de minhas lembranças vou montando o mosaico de minha vida.
(Imagem: Banco de imagens do Google)
Memórias do blog – Naufrágio
La mer / Qu’on voit danser le long des golfes clairs
A des reflets d’argent / La mer
Des reflets changeants / Sous la pluie
La mer / Les a bercés
Le long des golfes clairs / Et d’une chanson d’amour
La mer / A bercé mon cœur pour la vie
(Charles Trenet)

Era um barco. Um simples e vulnerável barco, cortando as águas em busca de seu porto.
Singrava as águas mansamente, sem pressa, sem querer chegar depressa. Apenas queria chegar.
As águas, tépidas e amigas, o balançavam suavemente, brincando de resistir com sua marola.
O céu a tudo assistia. Tentava clarear o máximo de tempo possível, dourando as águas ao amanhecer, e as prateando antes de jogar sobre elas o marinho noturno.
E o barco, de dia singrava, de noite adormecia. Ao sabor das águas, confiante e sereno. Não receava tempestade, não temia o vento. Ele se bastava, não sentia solidão nem precisava de outro barco a lhe fazer companhia. Esperava as primeiras estrelas de cada anoitecer para conferir o rumo que o sol lhe dava. E, se a lua estivesse bem-humorada, logo surgia rastreando de prata toda a superfície visível.
Tão sereno, tão valente, o pobre barco confiava em seu poder e não temia seu destino.
Até o dia em outro barco, de repente, vier a cruzar sua travessia e desviar sua atenção. É a própria tragédia anunciada. O pobre barco não terá mais paz, buscando encontrar seu igual, e se sentirá só nessa imensidão.
Sem paz, não poderá mais enfrentar ventos e procelas. E conhecerá o sofrimento. A ansiedade de esperar, de querer, de desejar.
E, de repente, soçobrará.
Meu coração, esse mar. Minha paixão, esse barco, que naufragou quando buscou outro barco.
(Imagem: Banco de imagens Google)
Hoje
Para quem tem saudade
Fim de outubro
O ano quase se acabando, rapida ou lentamente, dependendo de cada situação vivida.
Lá se vai outubro. Dez meses perdidos em uma ano que só tem doze.
O que trazemos desse segundo ano de desmando e descontrole?
Apenas desânimo, tristezas e falta de vontade de continuar lutando.
Não há mais vida.
Há uma insegurança total, seja quanto à vida pessoal, às finanças, ao futuro político do país.
Não conseguiremos deixar para nossos filhos e netos um mundo melhor do que aquele que recebemos dos nossos pais e avós.
O mundo se balança perigosamente à beira de um precipício.
E vemos se escoar esse ano, tão esperado como recuperação do desastre de 2020.
Mas foi pior.
E, sem dúvida alguma, 2022 será ainda mais nefasto.
E veremos as verdades serem negadas, as regras morais desaparecem sob o autoritarismo galopante e a vida – pessoal, familiar e social – se esfacelar.
Essa é a realidade hoje.
Passado o feriado prolongado (depois de tanta paradeira na pandemia, agora a moda são os feriados prolongados), será novembro.
E de nós, o que será?