Na pré-véspera do Dia dos Namorados

Aleatório.: Namorar.

E vem chegando o dia dos namorados.

Penso que, na verdade, deveria ser o Dia dos Enamorados.

Quantas pessoas não tem namorado ou namorada, mas são, por natureza, enamoradas?

Da vida, de si, de alguém.

Ter um namorado ou uma namorada é circunstancial. Mas ser enamorado ou enamorada é essencial.

Uns não querem e têm.

Outros querem e não têm.

Muitos não têm nem querem.

Muitos querem e têm.

E por que ter namorado ou namorada? Se a vida solo propicia aventuras, noitadas, viagens inesperadas, tantas surpresas – boas e ruins?

Porque não há nada mais gostoso na vida do que ser ou ter namorado ou namorada.

Namorado (a) é aquela pessoa que olha para você com encanto nos olhos. Que fala com você com doçura na voz. Que beija você com mel na boca. Que toca você com meiguice e ternura nas mãos.

Que ri do que você fala. Que chora junto com você.

Que se interessa por sua história. Que respeita sua família.

Que sempre está disposto (a) a ir com você ao shopping, à sorveteria, ao boteco ou até à oficina mecânica. Acompanha no dentista e no restaurante. Assiste filme, jogo e luta na tv, prepara a pipoca e chora nos dramas.

Cede um pedaço maior do cobertor se você estiver com frio.

Vai dormir cedo quando você está com sono.

Faz a pesquisa para o seu trabalho na faculdade sem reclamar.

E, melhor do que tudo, são os braços do namorado (a).

São exatamente da sua forma, no seu tamanho.

Sempre há ali, naqueles braços, a qualquer momento que você quiser ou precisar, o melhor e mais carinhoso abraço do mundo.

Vida solo não é ruim.

Mas namorar é tudo de bom!

Poesia da casa – A alma e o nada

No mais profundo do ser
Está sua alma inatingível
Com sua consistência de nuvem
Em suas paredes de fumaça
E sua força de névoa
Não ser
Não estar
Apenas existir
Como algo inconsútil
Que não se rompe
Não se entrega
Não se deixa dobrar
Ali permanecer
No silêncio do nada
Entre as pregas do querer
No regaço do desejo
Do avental do amar
Até o final
Em busca do sentido
Achar o sentido no nada
Quando não restar mais 
Do que uma onda de quietude
E uma partida sem volta.

Solitária caminhada

Cómo se explica la “luz al final del túnel” - VIX

Solidão.

Tão assustadora para muitos, tão companheira para poucos.

A bem da verdade, poucas pessoas realmente a conhecem. Porque a nós, humanos, não nos é dado sermos solitários e desde muito cedo nos fazem esquecer da nossa vocação solitária.

A solidão soa como um defeito a ser sanado. Não se pode deixar ninguém sozinho, essa é a regra.

Então as pessoas estão sempre acompanhadas de outra, de outras, de algo. Mas nunca sozinhas.

Se todos soubessem como é bom ser sozinho! A liberdade e a alegria que decorrem da própria solidão…

Por isso nascemos sozinhos. Ainda que tenhamos sido gerados junto com outro ser, ainda que tenhamos dividido não apenas um útero, mas até mesmo uma placenta, nascemos sozinhos.

Porque na hora exata do nascimento, estávamos sozinhos.

Saímos sozinhos de um mundo de paz, calor, escuro e quietude para o caos, o frio, a luz e o barulho. E o fizemos sozinhos. E sozinhos vencemos esse primeiro momento traumático que inaugura o viver.

Fomos obrigados a receber cuidados e companhia. E, com o tempo, quase todos fomos nos esquecendo da maravilha do tempo solitário que antecedeu o nascimento.

Muitos desenvolvem até mesmo um efetivo medo da solidão. Pânico de ser sozinho. Pavor de ser solitário.

E assim se cercam de interesseiros, de aproveitadores, e pensam que estão cercados de amor.

O que é o amor? Um sentimento egoísta, que faz querer abduzir a alma do outro e submeter esse outro a seu horário, a seu desejo, a seu mundo, como se o outro não tivesse uma existência própria e solitária antes de ser amado por alguém.

Se não for possível amar sem se quebrar, não é amor. Mesmo amando, temos de continuar a preservar nossa solidão, nossa integridade emocional. Se não soubermos ficar sozinhos, como amar?

Sem perceber, na verdade, passamos sozinhos as emoções da vida. As boas e as ruins.

Por exemplo, na hora da dor.

Todas as vidas têm muitos momentos de dor. Dor verdadeira. Seja emocional, seja física.

Nossas dores emocionais nos fazem procurar um cantinho quieto, escuro, e… solitário. Ali choramos nossa intensa mágoa, ali sonhamos com o que será depois da dor, ali planejamos um futuro para a vida nova que nascerá dessa dor.

E a dor física, é possível dividi-la? Nunca. Podemos até ter companhia enquanto sentimos as intensas dores físicas, por doenças, acidentes, seja a origem que for, mas a dor é só nossa. Ninguém a sente por nós. Não partilhamos a dor. Enfrentamos sozinhos as dores que a vida traz.

A emoção das conquistas, também não dividimos. O prazer do sucesso é nosso, não é possível dividir. Nosso prazer é só nosso. Nossa emoção não pode ser sentida por outra pessoa.

Estamos sempre sozinhos. Ainda que cercados de pessoas.

E no grande e solene momento, que coroa a vida de todos, também há a mais profunda solidão.

Porque, ainda que no meio de muitas pessoas, morreremos sozinhos. Ninguém morrerá por nós nem conosco.

Ainda que outros morram a nosso lado, no mesmo instante, cada um tem sua própria morte.

Não é possível dividir a morte com ninguém.

A vida, é portanto, uma solitária caminhada rumo à solidão da morte.

É melhor nos acostumarmos…

Dia de poesia – Miguel Carlos Vitaliano – Nina

Deve ser um rei

Deve ser um deus

O homem que possui você

Afinal, quem é você

que me desloca o corpo,

me descompassa o passo,

me entorta o olho,

troca minhas noites

me bota de quatro?

Quem é você

que leva longe meu sono,

desmente meu desengano,

sana meu sonho insano?

Quem voa longe

nas suas asas?

Que sonho sonha

seu sonho que me acorda

pensando ser eu seu sonho?

Quem é a mulher

que desritima meu coração,

que esvai em sangue

a minha adrenalina,

me dá saliva,

e calma?

A minha alma acalma.