A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Em um primeiro momento pensei em responder que era a vida.
Mas, depois me ative que o oposto da morte é o nascimento.
Vida, é apenas o intervalo entre um e outro.
Vida é aquela viagem que todos iniciamos quando nascemos.
Mas, não sabemos quando chegaremos ao nosso destino.
Portanto, o melhor da vida são os momentos (as paisagens) que desfrutamos em nosso itinerário.
A nós, cabe escolher dormir durante a viagem, se ocupar com nossos celulares e notebooks, apreciar cada nascer e pôr do sol, escolher as melhores companhias, desfrutar do calor, da chuva, do frio, dormir bem aconchegado o tempo suficiente para repor as energias, ser feliz, mesmo que nesse trajeto haja buracos, desníveis e desvios.
Vivamos a vida da melhor forma possível, pois nossa viagem, em algum momento, chegará ao fim.
Não choreis nunca os mortos esquecidos Na funda escuridão das sepulturas. Deixai crescer, à solta, as ervas duras Sobre os seus corpos vãos adormecidos.
E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos, Agonizar… guardai, longe, as doçuras Das vossas orações, calmas e puras, Para os que vivem, nudos e vencidos.
Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos, Da multidão sem fim dos que são vivos, Dos tristes que não podem esquecer.
E, ao meditar, então, na paz da Morte, Vereis, talvez, como é suave a sorte Daqueles que deixaram de sofrer.
Uma janela não é uma simples abertura na parede. Uma janela pode ser tudo o que quisermos que ela seja – o quadro animado, a fonte de sons, o elo com a vida, o símbolo da esperança… Foram meses, quase ano, de isolamento social. De dor e tristeza. De muita angústia. E a janela quase sempre cerrada – não havia utilidade em ser aberta nem diferença em permanecer fechada. A rua estava sempre deserta, as outras janelas, aferrolhadas. Os jardineiros desapareceram e as rosas não mais floriram. Eu me perguntava: como isso tudo acabará? O que será de nós? As calçadas, abandonadas, já não eram mais o ponto de reunião e de animadas brincadeiras das crianças do quarteirão. Por isso a janela ficou muito tempo fechada. Era menos triste do que permanecer aberta para o silêncio e o nada. A vida estava do avesso. E o avesso se tornou o lado certo para se tentar sobreviver. Até esta manhã. O ruído de rodinhas de bicicletas, e o infalível assovio dos meninos chamando os outros para a rua, logo cedo, deram a ideia de que ainda estamos vivos. Tímidas, as crianças começaram a chegar, trazendo bolas, boliches, piões e outros brinquedos. Logo a gritaria se instalou, naquele caos que só as crianças sabem organizar e nele se entendem. Havia sol na manhã. Abri a janela. Era outra paisagem ou eu já me esquecera como eram as manhãs ensolaradas do lado de fora dessa janela? Encantada, deixei-me ficar ali por horas, assistindo jogos e disputas. Admirada da resiliência desses humaninhos que não se deixaram aniquilar pela desesperança que dominou os adultos durante a peste. E que voltavam à vida com todo o ardor de quem sempre acreditou. As mães chamaram para o almoço. E eles se foram. Provavelmente ficaram em casa para os estudos online. Mas minha janela permaneceu aberta. Para celebrar a vida. Ainda estamos vivos. Somos sobreviventes desse ano de horror e medo. Perdemos pessoas queridas. Choramos mortes. Mas nós sobrevivemos. E de todo esse caos que tivemos de enfrentar, vejo que renasceremos um dia, e esse dia está próximo. Nunca mais haverá o mundo livre que já conhecemos e vivemos. Os sorrisos – depois que for abolido o uso compulsório dessas horríveis máscaras – não serão os mesmos. Porque as almas entristeceram. A espontaneidade dos abraços dos antigos encontros será substituída por frios acenos distantes. O medo também foi compulsório. E abraçar alguém se tornou perigoso. A maior morte que enfrentamos nessa experiência foi dos sentimentos. Famílias separadas. Abraços, aconchegos, beijos, proibidos. Encontros desmarcados. E tudo, durante esse ano, se resumiu ao medo e ausência. Tristeza e saudade. E quem não teve medo foi obrigado, do mesmo jeito, a se isolar. E foi apontado como negacionista, idiota, fronteiriço. Porque a ordem era dominar pelo medo. E sempre que alguém não se curva às imposições, torna-se malvisto. Subversivo. Ignorante do perigo. Porque é preciso pensar com a manada. E andar no meio da manada. Ou será alvo fácil. Foi muito triste ver que as pessoas simplesmente aderiram a uma ideia de perigo sem ao menos pensar, avaliar a situação, ter a opção de correr riscos. Apenas se deixaram dominar por uma ideia vendida pela mídia. E assim um ano foi perdido. Vidas foram destruídas. Mas aqueles que resistiram, aqueles que serão os primeiros a reagirem na hora determinada, estes terão forças para o recomeço e, quem sabe, até mesmo se tornarem motivação para que outros saiam das ostras e voltem à vida. Porque haverá vida depois da peste. Disso tenho certeza. Ainda cantaremos juntos nossas canções e celebraremos a vida que continua com brindes e alegria. Empresas reabrirão, empregos serão restaurados. E, todos juntos, conseguiremos colocar novamente nossa vida, nossa família, nossa cidade e nossa Pátria de pé. Todos os dias desses tempos de peste, eu tenho me preparado para o fim dela. Não pensava em me esconder, não receava adoecer nem mesmo morrer. Mas tinha a mente fixa no momento do renascimento, do recomeço. Quero de volta minha vida nômade. Quero minha praia na manhã ensolarada. Quero minha mesa no bar ao anoitecer. Cruzar estradas, mares e céu em busca de outros mundos, voltar à vida que sempre tive, sem rotina, sem parada, sem medo de morrer. Escrever, publicar, discutir – com pessoas e não com letras ou imagens de computador – e ver brotar a vontade de viver e de seguir adiante, construindo um futuro não só para mim, mas para todos os que vêm e virão depois de mim. Vou deixar meu legado de luta e disposição para ajudar nas mudanças que a humanidade precisa para não sucumbir ao voraz apetite do consumismo nem à falta de liberdade das dominações. Ainda brindarei com muitos outros resistentes nossa vitória sobre o medo e – mais importante – sobre a dominação pelo medo. Porque os homens se levantarão e voltarão à vida com a vontade de crescer e de vencer que demonstravam antes que fossem engolidos pela onda de medo que dominou o mundo. E tenho planos, muitos planos, para recomeçar do ponto onde parei para me recolher nesse isolamento não desejado. Eu sobrevivi. E honrarei o destino que me deixou viver quando tantos sucumbiram, física ou emocionalmente, diante de um vírus. Assim foi meu dia de renascer, quando tive a certeza de que estamos de volta. Agora, quando chega a noite com a doçura da lua crescente – símbolo maior da esperança de que virão as noites de lua cheia – é o momento de fechar minha janela. Apenas por uma noite, porque será aberta todas as manhãs. Será aberta pelo simples motivo que estou viva. Mas hesito a fechá-la: o calor do dia e a brisa do anoitecer ativaram todo o perfume das flores, e fico mais uns minutos com minha janela aberta, para voltar a sentir a delicadeza do doce perfume das madressilvas em flor.
Uma vez – era 1º de janeiro de 1986 – eu resolvi nadar da praia até a escuna, nas imediações de uma ilha, dispensando o barquinho de transporte. Fui. Sozinha. Os grupos de nado já tinha ido mais cedo.
A certa altura minha cervical travou – imediatamente o braço esquerdo “morreu”. Eu tenho uma lesão que paralisa o lado esquerdo, desde que meu pescoço ficou embaixo de um caminhão, aos 18 anos.
Eu tentei mais duas ou três braçadas. Só o direito respondia.E também sabia que se forçasse muito, a perna esquerda também paralisaria. Já era acostumada com o problema.
Respirei fundo para clarear as ideias e dominar o pânico – se você apavorar e engolir água, vai ficar ali para sempre.
Virei de costas e comecei a boiar. Bem solta, leve, achando bom.
Era céu e mar. E eu.
Fui rodando com a marola, para me localizar.
A praia estava muito longe. Não daria para voltar.
O barco estava muito longe. Não daria para alcançar.
Então eu fui me posicionando numa linha reta e o local onde uma família – mãe e duas crianças pequenas, que não podiam voltar nadando – esperava na praia pelo barquinho de resgate.
E ali fiquei. Uns quinze a vinte minutos, até meu pessoal, que já estava no barco, notar que eu não estava mais nadando e precisava de socorro.
Só uns quinze a vinte minutos.
Mas, sozinha, deitada sobre o mar e coberta pelo céu, eu era o nada, o nada-do-mais-profundo-nada no meio de duas imensidões – o mar e o céu, quando então o tempo toma outra dimensão.
Vinte minutos são a eternidade.
Sobrevivi.
Estou aqui.
Outra pessoa, não mais a que entrou no mar e ficou vinte minutos aguardando um escaler para ser resgatada.
Conclusão:
Aprendi, em quase vinte minutos, que não se luta com a vida. Mas, pela vida, ainda que permanecer imóvel e calma seja a única chance possível de vitória.
Sou a única responsável pela minha vida e pela minha sobrevivência. Ninguém pode lutar por mim.
O que vida me manda, aceito com alegria.
Se for amargo, bebo de uma vez e esqueço.
Se for doce, saboreio em pequenos goles, para durar mais.
A vida é o que é. Reina absoluta até que a morte nos resgate.