Poesia da casa – Gotas de mar

Trazia em si o encanto da imensidão
Nos olhos inundados de mar
Se movia no ritmo de ondas
Como se vivesse em um barco
                               
Trazia na alma uma imensa paixão
Alimentava-se de amor, luz e alegria
Amava a espuma frágil da vida
Como se fosse personagem de romance
                              
Trazia uma esperança de felicidade imbatível
Acreditava que o amor venceria tudo e todos
Até o momento em que viu seu mundo cair e
Sentiu a tristeza do abandono e solidão
                              
E quando de seus olhos brotaram
As gotas do mar que trazia em si
Pela face tristemente correram,
Lágrimas salgadas como água do mar



Sons de dezembro

Dezembro conseguiu chegar, não obstante a pandemia, a hipocrisia, a histeria e tudo o mais de ruim que dominou este ano.

Ainda que alguns políticos estejam ameaçando proibir até mesmo as comemorações natalinas familiares, não há como fazer a população ignorar a realidade: ESTAMOS EM DEZEMBRO. NATAL . REVEILLON.

Para as crianças, o significado de tudo isso é um só: Papai Noel virá trazer os presentes de Natal.

Mas para os “mais crescidinhos”, Dezembro tem outra cara: os domingos do Advento, as missas solenes, a preocupação em organizar os encontros familiares.

E, para os donos de supermercado, além do vertiginoso aumento das vendas, a inclusão de faixa única no playlist – basta apenas o Jingle Bells. A partir do final de novembro, se você entra em um supermercado, tome jingle bells. De manhã, à tarde e à noite. Quando chega o Natal ninguém mais suporta ouvir essa música. De vez em quando até variam. Com apenas outra, a Simone cantando Então é Natal…

Mas são muitas as canções natalinas. E lindas. E as gravações, antigas ou modernas, extremamente agradáveis.

Tenho a minha predileta. Ao ouvi-la sou transportada para o verdadeiro espírito natalino.

Embora avessa às comemorações forçadas, hipócritas e comerciais do Natal, trago em mim o sentido religioso da festa máxima da Cristandade. Não há Natal sem Adeste Fideles. E, em qualquer ocasião, ouvi-la me traz o Natal.

E tantas outras canções – ouvidas desde muito cedo nas missas, depois cantada junto com os grupos de jovens, e, bem mais tarde, ensaiadas com as Irmãs e as crianças que se apresentavam na Paróquia que eu frequentava. Quantos Natais na minha vida.

Mas há um acorde inicial em uma harpa, pelas mãos abençoadas de Luis Bordon, que me traz o Natal, devolve à memória o cheiro dos assados, das frutas, da grande e cheirosa árvore montada na sala…

E, principalmente, devolve-me os sons do Natal, os sons da minha casa, num tempo distante em que tudo era alegria, em que havia as risadas dos primos, as vozes de meu pai, minha mãe, avós e tios, em que havia o infalível brinde da meia-noite, em meio à maravilhosa ceia que minha mãe caprichosamente preparava, o brinde comandado pela Vovó Nenê “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados”…

Ouvir esses acordes iniciais basta para me levar de volta a esse passado, que nunca passou de tudo, e a emoção impede que continue a escrever

Fim da linha

Prefeitura promete liberar tráfego em ponte no Coxipó em dez dias - O Livre

Ligou o carro e saiu. Para não ir a lugar nenhum. Para não voltar a nenhum lugar. Só queria recuperar o prazer de dirigir. Sem pressa, sem bagagem, sem rumo.

Deixara tudo arranjado: contas pagas, armários, gavetas e geladeira limpos e arrumados. Despensa abastecida. A mesa posta. O jantar pronto.

Sabia que ninguém daria por sua falta. Já há algum tempo deixava tudo arrumado e ia para o quarto. No dia seguinte encontrava tudo do mesmo jeito – ninguém tinha o cuidado sequer de tirar o prato da mesa e deixar na pia. A mesa sempre suja e bagunçada, tudo por tirar.

Não davam pela sua falta, desde que o jantar e a mesa estivessem do agrado. Sua presença não era reclamada nem sentida sua ausência. Foi fazendo um balanço de sua vida nas últimas décadas.

De como a vida foi empurrando e então se deixando empurrar. Por problemas familiares deixou o emprego. Mudou de cidade. Praticamente mudou de corpo. Era outra pessoa ocupando o corpo que um dia lhe pertencera. E, de certa forma, até mesmo sua mente.

Não sabe dizer direito o que aconteceu que, de repente, enxergou isso tão claro. E quis recuperar os anos perdidos. Mas não teve jeito. Não havia como romper com tudo isso. Então foi se encolhendo. E sua presença não fazia falta, sua participação não era apreciada.

Por isso tomou a decisão. E tomou, também, todas as providências. Saiu no final da tarde. Sua falta somente seria sentida na noite seguinte, quando não haveria casa arrumada, nem jantar nem mesa nem nada. Era uma boa dianteira. Pensou tudo muito bem antes de executar. Para nada dar errado.

Passou pela ponte, bem devagar, para ver o local onde seus conhecidos se acidentaram há uns dias. Ninguém consertara a amurada. Apenas umas placas de compensado de lâminas de madeiras e luzes vermelhas de alerta mostravam a vulnerabilidade do local.

Tocou em frente. Sentiu saudade do tempo que era realmente sozinha – pelo menos era feliz e infeliz sozinha. Na maior parte do tempo era feliz. Muitos a consideravam louca, pois era livre num tempo em que as mulheres eram domesticadas.

Mas também caiu na armadilha. E se transformara na figura que a sociedade esperava, totalmente enquadrada. E totalmente infeliz.

Queria voltar à vida de porraloka da juventude. Mas era muito tarde.

Fez o retorno. Voltou para a ponte. Passou pelas luzes vermelhas. Acelerou tudo o que podia, e, rindo sozinha, depois de muitas décadas, fez novamente a manobra brusca chamada cavalo-de-pau. Ainda era mestra nisso. Fez mais uma vez e girou o volante na direção do madeirite.

O carro, possante e pesado, rompeu a barreira e mergulhou no vazio. Em paz, sentiu o baque na água e o suave balanço antes do mergulho final. O rio a recebeu. Abriu suas águas como braços para a acolhida. E recebeu o corpo e a alma que o mundo rejeitava.

A lua

Linda, soberana, instigante, surge a luz em seu esplendor.

Há quantos milênios ela se apresenta no firmamento, e sempre tão bela, tão jovem, com tanto esplendor. Qual será seu segredo para nunca envelhecer, jamais aparentar cansaço, nunca perder o brilho?

Olho maravilhada para a Lua. Há quantas décadas ela me fascina, me atrai, praticamente me obriga a procurá-la no céu a cada anoitecer, a cada madrugada?

Nós, míseros seres humanos, imperfeitos, feiosos, desbrilhados… Tentamos ajudar a natureza com tratamentos, roupas, disfarces, mas não conseguimos enganar nem a nós mesmos.

Quando em nosso outono o vento da vida vem e nos espalha como folhas secas que se desprendem dos galhos, temos a certeza da decadência física. Não importa o que fomos na juventude, envelhecemos monstros.

No entanto, ao final cada entardecer, a Lua volta a seu ponto máximo. E brilha.

A cada noite mais brilha, orgulhosa de sua beleza eterna, rejuvenescida a cada anoitecer.

E, quando amanhece, um pouco pálida, ela se retira, desaparece, para surgir ainda mais exuberante no começo da nova noite.

A Lua está sempre sozinha. Linda, fascinante, a todos atrai, mas a ninguém pertence.

Solitária, quiçá celibatária, marcando presença e deixando saudade, parece que a Lua é feliz.

Queria ser uma lua.

Eterna espera

Hourglass Que Conta O Tempo Imagem de Stock - Imagem de conta, hourglass:  848529

E eu esperei.

Com a paciência de um pescador,

 Sentei-me à beira-mar e esperei.

Por todos os séculos que você não voltou.

Assim eu esperei

Com a alegria de uma criança

Em meio a tantos brinquedos

Por todos os anos que você não voltou.

Então eu esperei

Com a confiança de uma mãe,

De madrugada no canto da sala,

Por todas as noites que você não voltou.

E eu ainda espero

Com a perseverança de uma mulher

Que apaixonada acredita em amar

Eu para sempre esperarei

Por todas as noites, anos e séculos,

Esperarei eternamente pela sua volta