Poesia da casa – Alma

Close-up de Ferreiro forjando machado na oficina — fogo, moinho de martelo  - Stock Photo | #178849132

Tecida em fina renda, do mais delicado fio

A trama de minha alma suporta esses abalos

Magicamente ela resiste, não se rompe

Enfrenta tantas amarguras, tantas desventuras

E se vai deixando lapidar a cada tormento

Alma lapidada, foi forjada a ferro e fogo

No amor, no sofrer, na paixão, na desilusão

E segue, impávida, sem se deixar dominar

A alma bruta não é formosa nem é gentil,

Tal como a pedra original, que não tem fulgor

Ou ainda as brancas nuvens, disformes e sem graça

Por isso é preciso sofrer, transformar, lapidar

Aparar as arestas,  e eliminar as sobras,

Encontrar a forma perfeita para então polir

Quando então surge a alma bela e afetuosa

Como as mãos hábeis do lapidador que encontra

As melhores facetas da pedra e a transforma

Trazendo o mais belo e fulguroso diamante

O céu recoberto de nuvens amontoadas

Que escondem o sol, a lua e as estrelas

Quando, em silêncio vem o vento carinhoso

Lapidando as nuvens com cuidado e com capricho

Desnudando um céu recortado ou estrelado

Mostrando a beleza e o esplendor do infinito

Também minha alma, tão carente e tão sofrida

Se torceu na dor, no desespero, na saudade

E se tornou melhor, açoitada em sofrimento

Ela – essa alma lapidada – é tudo o que hoje

Eu tenho a ofertar, junto desse amor infindo.

Poesia da casa – Do que é feita a saudade?

Menina Mulher &Mulher Menina: Coração De Cristal...
   
 A saudade é feita de pequenos retalhos
 De momentos felizes já passados e vividos
 De beijos antigos ainda tão lembrados
 De mãos que não nos tocaram, mas desejamos.
  
  
 A saudade é feita de variados cacos
 De recordações de olhos que nos viram
 De tantas vozes que já não mais ouvimos
 De muitos carinhos que agora já não temos
  
  
 A saudade é feita de tantas lembranças
 De pessoas que não ficaram em nossa vida
 De algumas paixões ardentes que já esfriaram
  
  
 A saudade é feita de todos esses pedaços 
 De nossa alma que ficaram pelos caminhos
 E agora, recolhidos, estão guardados no coração. 
(08.12.2019)

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A
saudade é feita de pequenos retalhos

De
momentos felizes já passados e vividos

De
beijos antigos ainda tão lembrados

De
mãos que não nos tocaram, mas desejamos.

 

 

A
saudade é feita de variados cacos

De
recordações de olhos que nos viram

De
tantas vozes que já não mais ouvimos

De
muitos carinhos que agora já não temos

 

 

A
saudade é feita de tantas lembranças

De
pessoas que não ficaram em nossa vida

De
algumas paixões ardentes que já esfriaram

 

 

A
saudade é feita de todos esses pedaços 

De
nossa alma que ficaram pelos caminhos

E
agora, recolhidos, estão guardados no coração.

Centenário de Clarice Lispector

Hoje se completam cem anos de seu nascimento. Ela nos deixou foi em 1977. Mas nunca partiu, porque é imortal. Sua arte é eterna.

Amar os outros é a única salvação individual que conheço:

Ninguém estará perdido se der amor

E às vezes receber amor em troca.

Para escrever o aprendizado

É a própria vida se vivendo em nós

E ao redor de nós.

Amar eu posso

Até a hora de morrer.

Amar não acaba.

Na hora de morrer eu queria ter

Uma pessoa amada por mim ao meu lado

Para segurar a mão.

(Clarice LispectorAs palavras. Rio de Janeiro: Rocco, 2013, p. 257)

E, ainda:

Uma prece…
Clarice Lispector

“… alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha,  faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e  no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

[Clarice Lispector em “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, Editora Rocco, página 56]

Gratidão

Não sou “messiânica”, mas sou otimista. E acredito na força do pensamento, da gratidão e da palavra. Por isso sempre guardei esse texto, cuja autoria desconheço:

GRATIDÃO e BEM ESTAR: A gratidão pode melhorar nossa vida. (e sua saúde  também!)

Obrigado Senhor pelos meus braços perfeitos…
Quando há tantos mutilados.

Pelos meus olhos perfeitos…
Quando há tantos cegos.

Pela minha voz que canta…
Quando tantas emudecem.

Pelas minhas mãos que trabalham…
Quando tantas mendigam.

É maravilhoso Senhor!
Ter um lar para voltar…
Quando há tantos que não tem onde ir.

Sorrir…quando há tantos que choram.

Amar…quando há tantos que odeiam.

Sonhar…quando há tantos que se
revolvem em pesadelos.

Viver… quando há tantos que
morrem antes de nascer.

É maravilhoso Senhor, ter tão pouco
a pedir e tanto para agradecer…

Obrigado Senhor!!!

Vivendo na madrugada

O doce som de um mensageiro do vento me acorda. A brisa da madrugada vem dar seu passeio em minha varanda. E, como vozes de anjos, os sons de sinos chegam até mim.

Madrugada. A hora mais escura na noite, que precede o amanhecer. A hora em que o mundo se cala. Ouço o silêncio, às vezes quebrados pelos metais e pedras se chocando. Como um chocalho a embalar a criança que resiste dentro de mim.

Madrugada não foi feita para dormir. Mas para pensar. Sonhar acordada.

São vários conjuntos, nem todos sonoros, ao redor da varanda. De todas as formas – golfinhos, sinos, borboletas, pedras, pássaros, mandalas, estrelas; feitos de pedras variadas, de cobre, de madeira, de vidro… cada um com sua beleza.

Quando um deles vem me chamar na madrugada e me transporta para meu outro mundo, saio de mim e o sigo numa jornada única, partilhada entre mim e minha alma.

E atravesso o portal do tempo, da distância, da vida e do querer.

Por algumas horas, antes que o sol quebre esse encanto, renasço na alegria de existir, na companhia da solidão amiga, no regresso a mundos onde nunca fora antes.

Meus mensageiros trazem até mim quem está longe, quem partiu, quem não está. E vozes, e luzes, e cantos e carinhos há tanto já perdidos.

Brincamos de roda, cantamos ritmos, tudo dentro do mais absoluto e solene silêncio da madrugada. Nessas horas, em que estou mais viva do que durante o dia, sinto o prazer da vida, envolto pelo escuro e pelo silêncio.

E, quando a brisa os avisa que está partindo antes que a aurora a flagre desarrumando a ordem da noite, eles se calam, minha alma volta para mim, e então adormeço, até o raiar do novo dia.

Poesia da casa – Gotas de mar

Trazia em si o encanto da imensidão
Nos olhos inundados de mar
Se movia no ritmo de ondas
Como se vivesse em um barco
                               
Trazia na alma uma imensa paixão
Alimentava-se de amor, luz e alegria
Amava a espuma frágil da vida
Como se fosse personagem de romance
                              
Trazia uma esperança de felicidade imbatível
Acreditava que o amor venceria tudo e todos
Até o momento em que viu seu mundo cair e
Sentiu a tristeza do abandono e solidão
                              
E quando de seus olhos brotaram
As gotas do mar que trazia em si
Pela face tristemente correram,
Lágrimas salgadas como água do mar