Poesia da casa – Ausência

Poemas sobre Ausência. Pessoas e momentos fazem tanta falta.
Sentir nas mãos o perfume de outras mãos
Manter na pele o toque de outra pele
Trazer no corpo o relevo de outro corpo
Ouvir com a mente a voz que já se calou

Se a vida não conseguiu unir
O que a distância pôde separar
O vazio se tornou a companhia
De quem não pensou viver sozinho 
 
Andar de mãos dadas com mãos ausentes
Dormir nos braços que já se foram
Ter vivos os carinhos encerrados
Esse é o retrato da saudade
 
A saudade que restou de uma ausência
Que já impede de contar estrelas
Apagou dos olhos o brilho do olhar
E tirou da alma a vontade de viver
 
Ausência – a falta absoluta
De quem não poderia ter partido
Quem se foi, mas deixou na outra alma
Toda a ternura que havia em tanto sonho

Dia de Poesia – Pablo Neruda – Tenho fome da tua boca

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo, 
e ando pelas ruas sem comer, calado, 
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta, 
busco no dia o som líquido dos teus pés. 

Estou faminto do teu riso saltitante, 
das tuas mãos cor de furioso celeiro, 
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas, 
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
 

Quero comer o raio queimado na tua formosura, 
o nariz soberano do rosto altivo, 
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas 

e faminto venho e vou farejando o crepúsculo 
à tua procura, procurando o teu coração ardente 
como um puma na solidão de Quitratue. 

O passado e uma foto

Fotos. Que antes eram fotografias. E, antes ainda, retratos.  

Em músicas, filmes, romances, sempre há o recurso da foto para voltar ao passado. Seja de forma figurada ou literal dentro da ficção. E, na vida real, fotos são lembranças vivas, fazem o passado sempre presente.  

Conseguimos nos desfazer de muitas coisas ao longo da vida, mas não temos coragem de rasgar fotos e jogar no lixo. A não ser algumas, que foram rasgadas com raiva e molhadas de lágrimas.  

Assim, vamos acumulando fotos e mais fotos. Álbuns e mais álbuns. E, nos dias de hoje, com a facilidade da foto digital, as temos aos milhares.  

Vejo antigas fotos (não as chamo velhas – ou seria eu também velha por as possuir…).  

Elas me trazem de volta meus vinte anos. No milênio passado. Não poderei nunca mais ter vinte anos, mas me posso ver nessa idade. E outras pessoas com quem convivi naquela época.  

Fico a lembrar de tantos acontecimentos, tanta leveza, uma vida livre e despreocupada.    

Meus pais ainda jovens, fortes, nossa casa tão cheia de amigos, nossa vida tão cheia de festas e encontros.  

Tudo se perdeu. Tudo ficou nessa caminhada árdua que a vida se tornou de repente.  

A memória é algo fabuloso. Deus a deu aos homens para tornar mais leve a realidade. Basta fecharmos os olhos e relembrarmos o que já foi, deixar fluir o pensamento. Reviver os melhores momentos. E, para isso, as fotos são magníficas. Porque não mostram nossa decadência física. Elas nos guardam naquele momento, em que a juventude brilhava em nossos olhos e tonificava nosso corpo.  

E Deus foi tão bom com os homens, que, para aqueles que a memória machuca no final da vida, ela se perde na bruma da velhice.  

Olho para mim mesma em uma antiga foto. E confiro no espelho com a imagem que me tornei.    

E entendo, sim, o que pensava Wilde com seu Dorian Gray…

Desatinados

Por serem tão desatinados, talvez Deus perdoe os poetas. (Walter Duarte)

Wattpad y otras increíbles plataformas para escritores | Club ...

Com essa e outras frases, as quais serão comentadas em outras ocasiões, meu amigo poeta Walter Duarte encanta meu pensamento com sua preciosidade “Cotidiano” (Editora Oficina do Livro). Desafia o meu pensar.

Desatinados – o que é desatinado? Aquele que comete desatinos? Aquele que não tem tino? O que é tino e qual motivo os não poetas o têm?     

Para o dicionário, tino é discernimento. Juízo. Portanto, desatinado é aquele que perdeu o tino – sem juízo, sem discernimento.     

Tudo que Deus faz é perfeito – conforme se diz comumente. Então, meu caro amigo Walter, não se trata de Deus perdoar os poetas por serem desatinados. Na verdade, Deus os fez desatinados para que pudessem ser poetas.     

Imagine o verso quadradinho, a poesia engessadinha, de um poeta com tino. Não, Deus sabe o que faz e faz com perfeição – já nos fez, a nós, poetas, desatinados, para que déssemos vazão à poesia.

A poesia nasce da paixão. Da intensidade dos sentimentos. Apaixonar-se é o salto no escuro – tem de ter muita coragem e pouco juízo. Quem tem tino não se apaixona.     

Deus não nos perdoa, a nós, poetas. Ele nos aceita e nos ama. Entende nossa loucura. Ele nos fez assim. 

Somos poetas porque somos desatinados, apaixonados, insensatos, sofredores e intensos…

Dia de poesia – Cruz e Sousa – Acrobata da dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta …

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d’aço. . .

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

O preço da verdade

Qual o preço da verdade? Por que nunca admitimos nossos erros e nos recusamos a assumir a responsabilidade e pagar esse preço?     

Por mais escura que seja a noite, haverá um amanhecer luminoso. E tudo será exposto, tudo será visto, a verdade conhecida e restabelecida.     

Não adianta tentar se esconder, como a lua por trás das nuvens, porque o vento a desnudará.     

Guardamos dentro de nós comportamentos infantis, como acreditar que se cobrirmos nossos olhos com as mãos, estaremos invisíveis. Mas, nunca estivemos nem estaremos.      Há pessoas que mal enxergam o que está à frente dos próprios olhos. Há outras que nem precisam dos olhos para enxergar. Simplesmente sabem o que está acontecendo, captando no ar o que lhe tentam esconder.     

Fugir nunca foi solução. Porque sempre se pode fugir. Mas nunca haverá um lugar para permanecer escondido.

E disfarçar a culpa é ainda pior. Porque a cara da criança que quebrou o pote mostra claramente o que aconteceu. Ainda que se tenha tentado esconder os cacos.     

Diz-se – com muita propriedade – que se pode enganar alguns por muito tempo, e muitos por algum tempo. Mas não se pode enganar todos o tempo inteiro. É verdade. E, se alguém é enganado, isso não aconteceu porque o outro é mais esperto. Mas porque o enganado acreditou, confiou ou amou demais.     

Enganar é apenas se aproveitar da confiança e da boa-fé do outro, e não significa ser mais esperto nem mais inteligente.     

Acredito que para ser considerado adulto, o primeiro passo é assumir os erros. Ainda que o preço da verdade seja alto e implique até mesmo em rompimentos sofridos. Mas seria uma forma de se demonstrar um mínimo de dignidade.