Poesia da casa – Pequeno pássaro

Quando você pega meu coração em suas mãos
e o acaricia, como se fosse um pequeno pássaro ferido 
e então eu vejo como ele realmente é:
fraco e vulnerável em sua dolorida fragilidade, 
um pequeno e indefeso pássaro caído do ninho
que sobrevive no medo, no abandono e sobressalto,
sem nada esperar do futuro, sem nada ter vivido.
Não sei se você compreende esta minha inquietude,
que se traveste de insensatez quando busca o amor.
Esse coração, qual pequeno pássaro doído,
se sente seguro e protegido em suas mãos fortes:
essas mãos que povoam meus sonhos 
e preenchem meus dias,
mãos que me acarinham, mãos que me buscam
e me levam até você, em encantado aconchego,
com o cuidado de quem segura fino cristal .
Você sabe que poderei quebrar ao menor movimento,
porque já são tantas trincas de dores já passadas...
E cuidadosamente, você segura em suas mãos 
esse meu coração que bate pelo seu, que eu
sinto derramar em mim toda a ternura do mundo
e então consigo entender o sentido da vida.
(Imagem: banco de imagens Google)

Jardim de saudades (Memória)

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A vida é como um bosque. Por vezes cerrado, difícil de atravessar. Outras vezes, recanto de luz e poesia. Ao longo dos caminhos, flores em profusão. Flores do amor. Da paixão. Da saudade.

Flores: as cores da natureza. Para ressaltar a maravilha de todos os tons de verde contra o azul do céu, surgiram as flores. Com suas cores, tamanhos e formas variadas. Uma mais bela e exuberante do que a outra, encanto aos nossos olhos, alimentos de pássaros e de sentimentos.

Cada uma com seu destino. Morrer na haste ou ser colhida? Diz-se que colhemos as flores que mais gostamos; e cultivamos aquelas que amamos.

Colhidas, vão para os vasos de mesas e aparadores. Altares e sepulturas. Festas e velórios. Em cada arranjo, uma mensagem. De alegria ou de tristeza. De chegada ou de despedida.

Em meio a páginas de livros, guardo flores. E pétalas. Muitas flores e muitas pétalas. Recebidas de pessoas inesquecíveis, ainda que muitas vezes afastadas pelo decorrer da vida.

Flores ofertadas por amores e amigos. Mas sempre flores. Nada mais belo, mais singelo e mais emocionante do que receber flores. Seja uma singela flor, colhida apressadamente no canteiro da praça, seja um arranjo caprichosamente elaborado por mãos hábeis e olhos experientes em misturar cores, tamanhos e texturas. A emoção de receber é a mesma. Sempre.

Algumas vezes as flores são simbolicamente ofertadas. Na impossibilidade de ser uma flor real, entrega-se um afago, um olhar carinhoso, um abraço sincero. E nossa alma recebe como se fossem flores imateriais, que guardaremos para sempre.

São as rosas as mais belas, as mais perfeitas da natureza? Talvez, desde o botão de rosa, que já é lindo antes mesmo de se abrir, até a rosa exaurida em sua beleza totalmente exposta.

As margaridas, alegres em seus miolinhos de cores contrastante com as pétalas em sua volta.

As prímulas, efusão de cores. As orquídeas, elegantes e atemporais. A delicadeza do miosótis. A ostentação das tulipas coloridas.

Caminhos de hortênsias. Buganvílias nas beiras das estradas… Hibiscos nas praças, cravos e cravinas nos canteiros. Alamandas fazendo arcos nas passagens, onze horas, buquês de lantanas, gerânios, lírios, cíclames, flores do campo. A elegância das camélias e gardênias, a alegria do girassol e das astromélias. Cascata de petúnias. Dama-da-noite atendendo pedidos das pessoas no tempo da florada, com seu perfume inconfundível.

São tantas as flores, que é difícil escolher uma.

Tive, um dia, meu jardim de rosas. Lindas. Rosas brancas, vermelhas, cor-de-rosa, coral e suas nuances. Uma roseira – arbustiva e linda – me retribuía meu amor com rosas de duas cores diferentes. Tanto mais eu as amava, mais elas floresciam.

Foi-se meu jardim de rosas. Foi-se meu tempo de cultivar flores. Mas tudo deixou saudade. Cultivo, hoje, em minha vida, um vasto jardim de saudades. Das pessoas que se foram (especialmente meu pai, que partiu recentemente para conhecer as flores do céu). De situações alegres. De tempo em que as risadas eram mais frequentes que as lágrimas. Saudade de ter mais amanhãs do que ontem na minha vida.

Hoje, à falta de um jardim de flores coloridas, trago em mim esse jardim de flores de saudade.

(publicado pela Oficina do Livro na antologia Um Jardim em Palavras)

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Walter Duarte – Andarilho

(Capa do livro Andrailho, do autor Walter Duarte – Oficina do Livro Editora)

Vasculhei minha trouxa de mendigo,
passei a examinar tuo o que trago.
Sozinho, e tendo a noite por abrigo,
olhei-me nos remendos dos meus trapos.

Uns restos de lições sobre uma Cruz,
que se encontram puídas no meu fardo.
Da infância, esses pedações já sem luz,
envoltos por lembranças de alguns cardos.

Bastante enferrujadas pelo tempo,
as malhas de uma insípida moral,
cruel, aprisionou meus sentimentos,
levo tantos remorsos no bornal.

Migalhas de coragem, muito medo,
o mapa de uma estrada que é sem meta,
Um pouco, quase nada um arremedo,
de uma verve vesana de poeta.

Eu devo ter perdido no caminho
a esmola que pensei felicidade,
só encontrei os fiapos do carinho
de um doce desejado, e uma saudade.

No balanço do vento é que me embalo,
minha alma com artrose e solidão,
que ferem, mesmo assim sempre me calo,
já velho... a manquejar na escuridão.

Para falar de saudade

Ah, saudade…

Tanta saudade, tanta ausência, tanta falta…

Às vezes penso que sou feita só de saudade, por isso a distância existe – para que eu também possa existir…

Não há Drummond, Vinicius ou Neruda que consiga cantar a saudade que sinto. Essa saudade é tão minha, tão carne, tão sangue, que outros não a pressentem nem sentem. Só eu posso tê-la, senti-la, descrevê-la. É o que mais tenho de meu nessa vida: essa saudade, companheira inseparável, péssima conselheira, grande estimuladora de bobagens, bebedeiras, e lágrimas.

Porque sentir saudade é viver do que não há; é tentar forçar a realidade dentro da névoa do esquecimento; é tentar esquecer dentro do whisky; é chorar, chorar e chorar…

A vida, muitas vezes, é leve, mas a saudade que arrasto tem um peso imensurável.

A presença é pouca, é pequena. Mas a ausência, ah, essa é ilimitada. E a saudade que a ausência traz é de tamanho indescritível.

E por isso o sorriso se torna raro. A alegria se esgarça.

Caminho, levando comigo o fardo e a doçura dessa imensa saudade. Que se tornou, depois de tanto viver a meu lado, a única e fiel companhia que tenho.

(Imagem – banco de imagens Google)