Vida – com ou sem sentido?

Silhueta Mulher Pôr Do Sol - Foto gratuita no Pixabay

De todas as questões filosóficas já postas, a mais intrigante e menos respondida é aquela que indaga qual o sentido da vida.   

Não pretendo discorrer aqui sobre teses filosóficas, sobre Platão nem Aristóteles. Mas volta e meia me pego meditando sobre isso.   

Qual o sentido da vida? Por e para que vivemos? Entre nascer e morrer, qual nossa missão? Ou nascemos apenas para esperar a morte?    

Tudo que pensamos ter, não nos pertence.    

Nem bens, nem sentimentos, muito menos pessoas.    

Bens – aí compreendidos imóveis, dinheiro, joias, tudo de valor econômico – por mais que acreditemos ser donos, são totalmente passageiros. Hoje os temos, amanhã os perdemos. Tudo o que vem, vai. Nascemos absolutamente sem nada e quando morrermos nada levaremos. E o que em certo momento está em nosso poder, troca de mãos com incrível facilidade.    

Sentimentos, então, são ainda mais voláteis.    

A amizade, o amor, a paixão, a confiança, a lealdade… nada nos pertence. Não os temos nem os podemos dar. Quando muito, prometemos e tentamos cumprir a promessa. Mas não somos proprietários de nenhum desses sentimentos. Como também dos opostos, ódio, nojo, desprezo, indiferença…    

E as pessoas? Ah, as pessoas – tal como nós – são volúveis, muito volúveis. Proferem palavras levianas, por vezes ferinas, e nos deixam tal ou pior do que da forma que nos encontraram: solitários, carentes e sofredores.    

Apenas dispomos de tudo isso – bens, sentimentos e pessoas – durante alguns períodos da vida. Então nada disso – ter, sentir, conviver – integra o sentido de viver.    

É preciso buscar mais fundo, é mais abstrato que tudo isso.    

Quando estamos motivados, por um sentimento de animação, seja por um projeto pessoal, uma atividade nova, uma paixão florescendo, não pensamos muito na vida, porque o importante é o instante presente, desfrutar do prazer momentâneo.    

De vez em quando, entretanto, perdemos o fio desse sentimento, e então nos vemos desmotivados e começamos a meditar sobre o que estamos fazendo na vida, da vida e com a vida. E quase sempre a resposta não nos agrada.    

Talvez porque seja recorrente pensar que o sentido da vida é ser feliz.    

Pronto. Respondida a pergunta. Resolvida a questão. O sentido da vida é apenas ser feliz.

Ficou mais fácil?

Não, complicou.

Porque agora surge a segunda maior questão: O que é ser feliz?

Em que consiste a felicidade?

Há vidas felizes?    

O jardim do vizinho é mais bonito, mais florido, a grama mais verde do que o nosso. Isso visto de longe e do alto de nossa janela. Porque nunca adentramos no jardim do vizinho para verificar se é realmente assim ou apenas aparenta ser assim.

E a felicidade dos outros também é apenas vista de fora. A ninguém é dado penetrar na alma alheia e ver sua cor, quantas cicatrizes ali existem, o quanto ela já sangrou.    

Casais felizes? Ou bons fingidores?    

Vidas felizes? Ou com alguns momentos felizes?    

Não sei. Não posso dizer pelos outros, só tenho como saber de mim.    

Acredito que quem chegou mais perto de definir a felicidade foi o poeta Vicente de Carvalho:  “…    Essa felicidade que supomos,   

 Árvore milagrosa que sonhamos,    

Toda arreada de dourados pomos,    

Existe, sim; mas nós não a alcançamos    

Porque está sempre apenas onde a pomos    

E nunca a pomos onde nós estamos.”    

Atire a primeira flor quem é real, intensa e completamente feliz.    

Conclui-se que ser feliz não é nem pode ser o sentido da vida. Buscar a felicidade plena é o mesmo que procurar o Santo Graal.    

Não, não é ser feliz…    

Voltamos ao começo – qual o sentido da vida?    

E surge nova questão: por que buscar o sentido da vida? E se a vida simplesmente não tiver sentido?    

Talvez a vida não seja para ser esquadrinhada, esmiuçada. Talvez a vida seja apenas para ser vivida, sem pensar muito.    

Para não se chegar à conclusão mais óbvia: a vida é o período entre o nascimento e a morte.

Viver é nascer e esperar morrer.

Nada mais.

Eu deserto, você oásis

❁[Ane of The Wild Hunt]❁ | Fotografie natuur, Landschappen ...

Neste deserto em que sozinha eu caminhava

A areia queimava meus pés cansados

Enquanto o vento cortava minha face

O sol inclemente me causticava pele

Mas eu precisava seguir, sempre adiante

Ainda que a sede me tirasse as forças

E a tristeza dominasse minha alma

Quando acreditei não mais poder prosseguir

eu encontrei você – feito de verde paz

Era água, era sombra, era aconchego

E você me abriu os braços como um oásis

Deixei-me assim acolher, sedenta e carente

Fora longa a caminhada pelas quentes areias

Em você eu fiquei, recostei, descansei

Sua sombra acalmou o calor da minha pele

Sua água matou a sede de tanto tempo

Seu abraço apagou o cansaço do caminho

Ali ficamos, eu deserto abrigada em seu frescor

Você oásis se alimentando de meu deserto

Mas um dia foi preciso partir – é a vida

Eu, nômade, sempre a partir e a buscar

Você oásis, sempre a ficar e a abrigar

Deixei seu aconchego, seu seguro abrigo

E em lágrimas parti em busca de mim

Você, imóvel, chorando a minha partida

Assim nos separamos. Trouxe sua água em mim

Deixei minha areia para sempre em você

Eu não podia ficar e nunca voltaria

Você não podia partir e me disse adeus

Para sempre viveríamos dessa doce lembrança:

Você, o oásis no deserto de minha vida

Eu, deserto e vida em você, oásis

Liberdade para sonhar

Amor e liberdade

Por mais que se prenda um corpo, se alma for livre, nada a prenderá. Há homens livres entre os prisioneiros. E muitos que, mesmo liberados, levaram a prisão dentro de si.

Podem tolher ou mesmo destruir a liberdade de locomoção e de expressão de alguém. Mas não da alma, do pensamento, da emoção e do desejo.

Olhe nos olhos de quem tira sua liberdade. Não precisa dizer nada. Seus olhos dirão: “somos livres e assim continuaremos. Ainda que em uma escura cela solitária”.

A essência do ser humano é a liberdade. E, mesmo assim, muitos dela abrem mão por covardia ou comodidade.

Ser livre é o que se tem de mais precioso.

E quando se tem a liberdade do corpo aliada à liberdade da alma, aí, sim, é possível ser feliz. Ter alma livre. E se tornar livre na vida.

Só quem é livre pode voar. Só a liberdade permite voar mais alto.

Por isso não se devem seguir caminhos trilhados, mas fazer os próprios, para chegar a novos lugares. E não apenas pelos próprios pés.

Porque os olhos sempre podem enxergar além de onde os pés poderiam levar. E a liberdade estava além da distância percorrida.

Mas também não somente pelos olhos. Porque os sonhos vão mais longe do que os olhos podem mostrar.

Liberdade é perseguir o sonho. Sonhar é enxergar além da realidade.

Ser livre é viver o sonho.

De amor, em três dias, parte 03 No Dia dos Namorados

E, mais uma vezes nesta vida apaixonante de uma eterna apaixonada, novamente é Dia dos Namorados… tantas lembranças, tantas saudades…

Vou trazer, em revival, o que aqui postei, por esta época no ano passado, porque, para mim, nada mais romântico que uma carta de amor…

 

                               

 

No dia dos namorados

Queria uma carta de amor

Uma carta escrita com carinho

Cheia de palavras de amor;

Que viesse em um papel delicado,

Com letra tremida de paixão,

Tinta carregada de ternura

E perfume de muita saudade.

Que aquecesse meu coração,

Alegrasse minha existência

E que me provocasse

Na boca um terno sorriso,

Enquanto dos olhos escorresse

Uma lágrima de emoção;

Trazida com muito cuidado

No bico de um rouxinol.

Mas se não puder mandar a carta

Se não gostar de escrever

Se não tiver esse papel, nem essa tinta

Se não souber essa letra e nem tiver

De emissário um rouxinol, não faz mal

Venha então pessoalmente

Para me dizer essas palavras

Com voz de muita paixão

E nos olhos muita ternura

Nas mãos não quero flores

Nem mesmo quero presentes

De nada que há em lojas eu preciso

Quero apenas mãos trêmulas de desejo

E um abraço que mate toda essa saudade.

 

e, para arrematar os três dias de romance, dois poemas, o primeiro de nosso Poeta da paixão

 

SONETO DO AMOR TOTAL

 

Amo-te tanto, meu amor
Não cante o humano coração com mais verdade
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
 
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante
 
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente
 
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia, em teu corpo, de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude
 
 
 
 
E
 
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É ASSIM QUE TE QUERO, AMOR

 

Chegastes à minha vida

com o que trazias,

feita

de luz e pão e sombra, eu te esperava,

e é assim que preciso de ti,

assim que te amo,

e os que amanhã quiserem ouvir

o que não lhes direi, que o leiam aqui

e retrocedam hoje porque é cedo

para tais argumentos.

Amanhã dar-lhes-emos apenas

uma folha da árvore do nosso amor, uma folha

que há-de cair sobre a terra

como se a tivessem produzido os nosso lábios,

como um beijo caído

das nossas alturas invencíveis

para mostrar o fogo e a ternura

de um amor verdadeiro.

(Pablo Neruda)

De amor, em três dias, parte 02

Não compreenda o amor @ A astúcia de Ulisses

Continuando a falar de amor, e só de amor, por três dias, hoje postarei um texto e dois poemas:

Vacina de ano novo

Muitos me desejaram paz e amor em 75.

Mas havendo amor, haverá paz?

Amor é o contrário radioso dela.

É inquietação, agitação, vontade de absorver o objeto amado, temor de perdê-lo, sentimento de não merecê-lo, ânsia de dominá-lo, masoquismo de ser dominado por ele, dor de não o haver conhecido antes, dor de não ocupar seu pensamento 24 horas por dia, e mais dias a pedir ao dia para ocupá-lo, brasa de imaginá-lo menos preso a mim do que eu a ele, desespero de o não guardar no bolso, junto ao coração, ou fisicamente dentro deste, como sangue a circular eternamente e eternamente o mesmo.

Amor é isso e mais alguma triste coisa.

E a tristeza incurável do tempo não passa fora de nós, passa é dentro e na pele marcada da gente, lembrando que eternidade é ilusão de minutos e o ato de amor deste momento já ficou mergulhado em ter sido.

Amor é paz?

(Carlos Drummond de Andrade)

E

Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh’alma alcança quando, transportada,
sente, alongando os olhos deste mundo,
os fins do ser, a graça entresonhada.

Amo-te a cada dia, hora e segundo
A luz do sol, na noite sossegada
e é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com a dor, das velhas penas
com sorrisos, com lágrimas de prece,
e a fé de minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas,
por toda vida, e assim Deus o quiser
Ainda mais te amarei depois da morte…

E, ainda,

Como eu te amo

 

Eu te amo

sem orgulho

sem esperança

Como o mar ama a montanha

sem jamais a alcançar

e, por suas ondas, incessantemente,

tenta chegar a seus pés

 

Eu te amo

Com desvario

Com insanidade

Como a lua ama o sol

Sem jamais encontrá-lo

E sem temer o abraço fatal

Que os fundiria irremediavelmente

 

Eu te amo

Sem vaidade

Sem egoísmo

Com um amor que não tem brio

que sufoca a dignidade

e se basta a si mesmo

 

Eu te amo

Com loucura

Com paixão

Nesse doce devaneio

Que é apenas insanidade

Esse constante delírio

De inquieta alucinação

(Maria Alice Ferreira da Rosa)

De amor, em três dias, parte 01

A importância do amor - Raquel Pirobano - Portfólio - Medium

Ontem fiz um propósito de só falar de amor por três dias – textos e poesias de amor, homenagem ao dia dos (e)namorados. E sair um pouco dos assuntos tão repetidos em todos os blogs, jornais, revistas e conversas.   

Falar de amor… o primeiro nome que vem à mente, é óbvio, é Vinicius de Moraes. O Grande Poetinha. Quem mais soube falar de amor, despertar a paixão, e cantar os amantes.   

E Vinicius nos ensinou os versos de amor, a declaração de amor, o pedido amor. E nos deixou, ainda, o texto, maravilhoso, PARA VIVER UM GRANDE AMOR:  

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor.    

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… – não tem nenhum valor.    

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada – para viver um grande amor.    

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.    

Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor. 

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô – para viver um grande amor.    

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.    

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista – muito mais, muito mais que na modista! – para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor…   

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs – comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?    

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto – pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente – e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia – para viver um grande amor.    

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que – que não quer nada com o amor.    

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor.

Mas, eu pergunto, o que é o amor? Como defini-lo, descrevê-lo? E me socorro, então do maior poeta da língua portuguesa, Luís de Camões:

Amor é um fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?