Texto de Angela Caboz, in Confissões da miúda gira

Queria-te tanto.

Sim queria tanto, que o único caminho livre que escontrei foi esquecer-te. Apagar-te para sempre do passado que não queria lembrar.

Por isso, resolvi aproveitar todo o meu tempo livre para voar. Ganhei asas e fui em busca de outros sonhos, em busca de outros braços para abraçar.

De repente tu já não tinhas a dimensão do meu sonho. Tive que pedir ao tempo para me emprestar horas para te esquecer.

Queria-te tanto que já não conseguia medir esse amor. Não existiam em mim kilometros suficientes para alcançar a paixão que tinha ficado esquecida no passado.

E, na dúvida, deixei o tempo continuar o seu percurso.

Tu tinhas deixado de ser o ponteiro certo para o meu relógio e era tempo de acertar o meu fuso horário. As horas passariam a ser o que eu quisesse fazer com elas. Tinha todo o tempo do mundo para te esquecer. (…)

(Imagem: acompanha o texto original do blog citado)

Saudade

– Quando foi a última vez que você deu aquela gargalhada solta, contagiante?

– E quando foi a última vez que você deu uma risada?

– Mas me diz: quando foi a última vez que você sorriu de verdade?

– Agora me responde: quando foi a última vez que você chorou de saudade?

Então, ela levantou o rosto, olhou para mim, e lágrimas rolavam de seus olhos…

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Sonhos (Memória)

Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado montado num cavalo branco
Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado de carroça ou a pé
Já nem precisa ser encantado, nem mesmo príncipe... apenas encantador
Mas se não puder ser encantador, que seja apenas atencioso
O tempo passou e levou todos os sonhos da juventude
E a vida não deu mais tempo para construir novos sonhos
E o tempo não parou para que alguém notasse a falta deles
E a vida seguiu sem sonhos, só na dura realidade que não deixa pensar
O tempo da diversão deu lugar ao tempo da responsabilidade
A leveza da juventude cedeu sua vez à intensidade da maturidade
E a vida se tornou um parque de responsabilidade, deveres sem direitos
Um dia ao longe a vida mostra um lindo príncipe em um belo cavalo branco
Impossível alcançá-lo ou ser notada por ele no borralho da realidade
Então vem à mente a vontade já indisfarçável de fugir. Não com o príncipe
Mas montar seu próprio cavalo e finalmente com as rédeas em suas mãos
Simplesmente ir...

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Walt Whitman – A um ser estranho


Estranho ser que passas! não sabes com que ansiedade ponho
meus olhos em ti,
bem podes ser aquele que eu andava buscando ou aquela que
eu andava buscando
(isso me ocorre como num sonho),
algures certamente eu já vivi contigo uma vida de alegrias,
tudo é lembrado ao passarmos um pelo outro, fluidos,
afeiçoados, castos, amadurecidos,
cresceste junto comigo, foste menino comigo ou menina comigo,
comi contigo e dormi contigo, teu corpo não se fez exclusivo
nem meu corpo ficou meu exclusivo,
tu dás a mim o prazer de teus olhos, rosto, carne, ao cruzarmos,
tomas-me a barba, o peito, as mãos, em troca,
eu não estou para falar contigo, mas para pensar em ti quando
me sento sozinho ou quando à noite desperto sozinho,
estou à espera, não duvido de que estou para encontrar-te outra vez,
com isso estou por ver que não te perco.

(Imagem: banco de imagens Google)

de “Confissões da miúda gira”

Tantas vezes, a vida lhe roubou sorrisos!

Tantas vezes, a ilusão a despiu, para de seguida, a vestir apenas de recordações.

Viveu a vida de outros a quem amou.

Esqueceu-se da cor dos seus sentimentos, para dar cor aos dias de quem não a amou.

Deu amor a quem pouco lhe acrescentou.

Recebeu dos outros a dor que o passado lhe deixou.

Tantas vezes, olhou para o futuro e implorou à vida umas migalhas de felicidade.

Por vezes, cruzava-se na rua com as sombras da sua própria tristeza. Ou então, cruzava-se com aqueles que lhe desejavam o corpo, sem nada terem para lhe oferecer.

Ela recusava receber essas esmolas, de quem não tinha tempo para a conhecer.

Sorria para a tentação desses olhares.

Mas negava-se a entregar o seu corpo, a quem não lhe saberia aquecer a alma.

Sim, porque era a alma que lhe gelava a vida. Vivia sem o calor do amor. Sonhava com a possibilidade de dividir uma paixão calorosa com alguém.

Fazia rascunhos de vidas. Ensaiava alternativas para os seus dias cinzentos.

E, sempre que procurava as cores para colorir esses desenhos, percebia que já alguém se antecipara. Já alguém lhe roubara a tinta da alegria. Os desenhos ficavam na sua mente, porque o pintor já se tinha instalado noutros braços.

A vida continuava a negar-lhe sorrisos. Não lhe dava explicações. Ela não encontrava razões, mas tão-somente desilusões.

Até ao dia, que poisou na linha do amor e viu a cor da paixão a tocar-lhe a alma. Até ao dia, que sentiu o frio do desejo na sua pele.

Só que na hora de tocar a realidade, viu que quem estava à sua frente era um anjo da guarda. O anjo que a vida lhe tinha reservado.

Então, recuperou espaço para caminhar na estrada da esperança. Assustou os seus medos. Fez o mesmo com alguns fantasmas que a perseguiam.

Era um anjo a dar-lhe a mão, mas para o seu coração parecia-lhe a porta da perdição. A sua sede de amor era tanta, que os seus olhos viram ali a tentação. O seu sonho insistia em dizer-lhe que aquele anjo já não tinha asas e podia ser a sua salvação.

@angela caboz

(Imagem: banco de imagens Google)