Encontro

Sentia-se cansado, muito cansado. Andara o dia todo, tinha fome, tinha sede. E não o encontrara, embora tenha estado em todos os lugares que lhe disseram onde ele poderia estar. Sua busca terminava aqui. Há meses vagava pelas estradas poeirentas e as pequenas cidades. Agora desistiu.

Viu uma sombra acolhedora sob uma grande e centenária oliveira.

Com todo cuidado para não perder nenhuma gota, tomou os últimos goles de água do velho cantil, companheiro de batalhas e de tantos caminhos.  Comeu algumas tâmaras que lhe restavam. Deitou-se naquela sombra, e tentou dormir para empreender a caminhada da viagem de volta. Frustrado, triste, mas não adiantava continuar. Nunca desistira de um objetivo em toda sua vida, não queria voltar sem o encontrar e o tocar. Mas não conseguiria encontrá-lo. Era melhor desistir e voltar. Os ânimos estavam acirrados, os soldados irritados e agressivos, não queria se meter em mais confusões. Já as tivera bastante na juventude. Estava velho. Queria morrer em casa e em paz.

Adormeceu. Teve sonhos estranhos. Estava em uma multidão, ou uma batalha, todos se empurravam, gritavam histericamente. Ele não entendia o que acontecia. Ao longe, um homem lhe acenava, fazendo sinal para que se aproximasse, mas não conseguia vencer a turba.

De repente, estava à beira de um grande lago, muitos barcos passavam longe. Em um deles, um homem lhe acenava, fazendo sinal para que se aproximasse, mas não dispunha de nenhum meio para vencer a água.

Então se viu em um grande campo de trigo maduro, difícil de caminhar. Do nada, um fogo tomou conta do trigo e ele queria fugir, mas ao longe, um homem lhe acenava, fazendo sinal para que se aproximasse, mas não tinha como vencer o fogo.

Ouviu muitas vozes, acordou assustado, e, no meio da colina, viu um turbilhão de pessoas descendo a encosta, ladeando um homem que seguia em um burrico. Confuso, não entendia onde estava, ficou olhando em volta.

Do meio do povo, o homem no burrico lhe acenava, fazendo sinal para que se aproximasse. Com as pernas bambas do cansaço e da confusão mental, aproximou-se do Homem, e Ele lhe deu a mão e lhe perguntou: “Era por mim que procuravas, meu filho?”

Com lágrimas nos olhos, tocou, enfim, na mão de Jesus.

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Quadro – natureza morta

Há um copo sobre a mesa.

Não é um copo de fino cristal. Nem um copo para bebidas especiais.

Apenas um copo.

Simplesmente aquela vasilha de forma cilíndrica para auxiliar na ingestão de líquidos.

Há uma mesa.

A mesa não está posta. Não ostenta toalha de cambraia de linho bordada à mão, nem porcelanas inglesas ou portuguesas. Não há elegantes guardanapos bordados nem talheres de prata.

Só a tosca madeira nua, castigada pelo tempo, trazendo marcas de queimados e molhados, que mostram o uso diário durante décadas.

Há um silêncio.

Não o silêncio respeitoso do momento de meditação durante a missa. Nem aquele que impera nos velórios.

Nem o silêncio da expectativa dos primeiros acordes de um concerto. Nem o silêncio do medo ao enfrentar uma situação de perigo.

Apenas um silêncio.

Surdo. Pesado. Asfixiante.

E há penumbra.

Não a penumbra das alcovas que abriga os corpos em brasa dos que se amam.

Nem a penumbra que antecede o amanhecer.

Mas uma penumbra dolorida das janelas que permaneceram fechadas com as cortinas cerradas.

Há, na penumbra sufocante, um silêncio cortante, com um simples copo sobre a velha a mesa.

Foi tudo o que restou depois de anos de morte, tristeza, desolação e isolamento.

Texto de Wladimir Viveiro

Me perguntaram qual é o oposto da morte.

Em um primeiro momento pensei em responder que era a vida.

Mas, depois me ative que o oposto da morte é o nascimento.

Vida, é apenas o intervalo entre um e outro.

Vida é aquela viagem que todos iniciamos quando nascemos.

Mas, não sabemos quando chegaremos ao nosso destino.

Portanto, o melhor da vida são os momentos (as paisagens) que desfrutamos em nosso itinerário.

A nós, cabe escolher dormir durante a viagem, se ocupar com nossos celulares e notebooks, apreciar cada nascer e pôr do sol, escolher as melhores companhias, desfrutar do calor, da chuva, do frio, dormir bem aconchegado o tempo suficiente para repor as energias, ser feliz, mesmo que nesse trajeto haja buracos, desníveis e desvios.

Vivamos a vida da melhor forma possível, pois nossa viagem, em algum momento, chegará ao fim.

Dia de poesia – Pedro Homem de Mello – Não choreis os mortos

Conheça a comovente história por detrás do famoso túmulo do "Anjo do  Sofrimento" - Histórias com Valor | Estátuas do cemitério, Weeping angels,  Estátuas de anjo

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar… guardai, longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras,
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multidão sem fim dos que são vivos,
Dos tristes que não podem esquecer.

E, ao meditar, então, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

(in “Caravela ao Mar”)

(Imagem Pinterest.com)

O perfume das madressilvas

Madressilva Banco de Imagens e Fotos de Stock - iStock

Uma janela não é uma simples abertura na parede. Uma janela pode ser tudo o que quisermos que ela seja – o quadro animado, a fonte de sons, o elo com a vida, o símbolo da esperança…
Foram meses, quase ano, de isolamento social. De dor e tristeza. De muita angústia.
E a janela quase sempre cerrada – não havia utilidade em ser aberta nem diferença em permanecer fechada.
A rua estava sempre deserta, as outras janelas, aferrolhadas. Os jardineiros desapareceram e as rosas não mais floriram. Eu me perguntava: como isso tudo acabará? O que será de nós?
As calçadas, abandonadas, já não eram mais o ponto de reunião e de animadas brincadeiras das crianças do quarteirão. Por isso a janela ficou muito tempo fechada. Era menos triste do que permanecer aberta para o silêncio e o nada.
A vida estava do avesso. E o avesso se tornou o lado certo para se tentar sobreviver.
Até esta manhã. O ruído de rodinhas de bicicletas, e o infalível assovio dos meninos chamando os outros para a rua, logo cedo, deram a ideia de que ainda estamos vivos.
Tímidas, as crianças começaram a chegar, trazendo bolas, boliches, piões e outros brinquedos.
Logo a gritaria se instalou, naquele caos que só as crianças sabem organizar e nele se entendem.
Havia sol na manhã. Abri a janela. Era outra paisagem ou eu já me esquecera como eram as manhãs ensolaradas do lado de fora dessa janela?
Encantada, deixei-me ficar ali por horas, assistindo jogos e disputas. Admirada da resiliência desses humaninhos que não se deixaram aniquilar pela desesperança que dominou os adultos durante a peste. E que voltavam à vida com todo o ardor de quem sempre acreditou.
As mães chamaram para o almoço. E eles se foram. Provavelmente ficaram em casa para os estudos online.
Mas minha janela permaneceu aberta.
Para celebrar a vida. Ainda estamos vivos. Somos sobreviventes desse ano de horror e medo.
Perdemos pessoas queridas. Choramos mortes. Mas nós sobrevivemos.
E de todo esse caos que tivemos de enfrentar, vejo que renasceremos um dia, e esse dia está próximo.
Nunca mais haverá o mundo livre que já conhecemos e vivemos. Os sorrisos – depois que for abolido o uso compulsório dessas horríveis máscaras – não serão os mesmos. Porque as almas entristeceram. A espontaneidade dos abraços dos antigos encontros será substituída por frios acenos distantes. O medo também foi compulsório. E abraçar alguém se tornou perigoso.
A maior morte que enfrentamos nessa experiência foi dos sentimentos. Famílias separadas. Abraços, aconchegos, beijos, proibidos. Encontros desmarcados. E tudo, durante esse ano, se resumiu ao medo e ausência. Tristeza e saudade.
E quem não teve medo foi obrigado, do mesmo jeito, a se isolar. E foi apontado como negacionista, idiota, fronteiriço. Porque a ordem era dominar pelo medo. E sempre que alguém não se curva às imposições, torna-se malvisto. Subversivo. Ignorante do perigo.
Porque é preciso pensar com a manada. E andar no meio da manada. Ou será alvo fácil.
Foi muito triste ver que as pessoas simplesmente aderiram a uma ideia de perigo sem ao menos pensar, avaliar a situação, ter a opção de correr riscos. Apenas se deixaram dominar por uma ideia vendida pela mídia.
E assim um ano foi perdido. Vidas foram destruídas.
Mas aqueles que resistiram, aqueles que serão os primeiros a reagirem na hora determinada, estes terão forças para o recomeço e, quem sabe, até mesmo se tornarem motivação para que outros saiam das ostras e voltem à vida.
Porque haverá vida depois da peste. Disso tenho certeza.
Ainda cantaremos juntos nossas canções e celebraremos a vida que continua com brindes e alegria.
Empresas reabrirão, empregos serão restaurados. E, todos juntos, conseguiremos colocar novamente nossa vida, nossa família, nossa cidade e nossa Pátria de pé.
Todos os dias desses tempos de peste, eu tenho me preparado para o fim dela. Não pensava em me esconder, não receava adoecer nem mesmo morrer. Mas tinha a mente fixa no momento do renascimento, do recomeço.
Quero de volta minha vida nômade. Quero minha praia na manhã ensolarada. Quero minha mesa no bar ao anoitecer.
Cruzar estradas, mares e céu em busca de outros mundos, voltar à vida que sempre tive, sem rotina, sem parada, sem medo de morrer.
Escrever, publicar, discutir – com pessoas e não com letras ou imagens de computador – e ver brotar a vontade de viver e de seguir adiante, construindo um futuro não só para mim, mas para todos os que vêm e virão depois de mim.
Vou deixar meu legado de luta e disposição para ajudar nas mudanças que a humanidade precisa para não sucumbir ao voraz apetite do consumismo nem à falta de liberdade das dominações.
Ainda brindarei com muitos outros resistentes nossa vitória sobre o medo e – mais importante – sobre a dominação pelo medo.
Porque os homens se levantarão e voltarão à vida com a vontade de crescer e de vencer que demonstravam antes que fossem engolidos pela onda de medo que dominou o mundo.
E tenho planos, muitos planos, para recomeçar do ponto onde parei para me recolher nesse isolamento não desejado. Eu sobrevivi. E honrarei o destino que me deixou viver quando tantos sucumbiram, física ou emocionalmente, diante de um vírus.
Assim foi meu dia de renascer, quando tive a certeza de que estamos de volta.
Agora, quando chega a noite com a doçura da lua crescente – símbolo maior da esperança de que virão as noites de lua cheia – é o momento de fechar minha janela. Apenas por uma noite, porque será aberta todas as manhãs. Será aberta pelo simples motivo que estou viva.
Mas hesito a fechá-la: o calor do dia e a brisa do anoitecer ativaram todo o perfume das flores, e fico mais uns minutos com minha janela aberta, para voltar a sentir a delicadeza do doce perfume das madressilvas em flor
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(Imagem: banco de imagens Stock)