A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Uma vez – era 1º de janeiro de 1986 – eu resolvi nadar da praia até a escuna, nas imediações de uma ilha, dispensando o barquinho de transporte. Fui. Sozinha. Os grupos de nado já tinha ido mais cedo.
A certa altura minha cervical travou – imediatamente o braço esquerdo “morreu”. Eu tenho uma lesão que paralisa o lado esquerdo, desde que meu pescoço ficou embaixo de um caminhão, aos 18 anos.
Eu tentei mais duas ou três braçadas. Só o direito respondia.E também sabia que se forçasse muito, a perna esquerda também paralisaria. Já era acostumada com o problema.
Respirei fundo para clarear as ideias e dominar o pânico – se você apavorar e engolir água, vai ficar ali para sempre.
Virei de costas e comecei a boiar. Bem solta, leve, achando bom.
Era céu e mar. E eu.
Fui rodando com a marola, para me localizar.
A praia estava muito longe. Não daria para voltar.
O barco estava muito longe. Não daria para alcançar.
Então eu fui me posicionando numa linha reta e o local onde uma família – mãe e duas crianças pequenas, que não podiam voltar nadando – esperava na praia pelo barquinho de resgate.
E ali fiquei. Uns quinze a vinte minutos, até meu pessoal, que já estava no barco, notar que eu não estava mais nadando e precisava de socorro.
Só uns quinze a vinte minutos.
Mas, sozinha, deitada sobre o mar e coberta pelo céu, eu era o nada, o nada-do-mais-profundo-nada no meio de duas imensidões – o mar e o céu, quando então o tempo toma outra dimensão.
Vinte minutos são a eternidade.
Sobrevivi.
Estou aqui.
Outra pessoa, não mais a que entrou no mar e ficou vinte minutos aguardando um escaler para ser resgatada.
Conclusão:
Aprendi, em quase vinte minutos, que não se luta com a vida. Mas, pela vida, ainda que permanecer imóvel e calma seja a única chance possível de vitória.
Sou a única responsável pela minha vida e pela minha sobrevivência. Ninguém pode lutar por mim.
O que vida me manda, aceito com alegria.
Se for amargo, bebo de uma vez e esqueço.
Se for doce, saboreio em pequenos goles, para durar mais.
A vida é o que é. Reina absoluta até que a morte nos resgate.
Hoje, 13 de abril, é comemorado o Dia Internacional do Beijo, (que tanto pode ser comemorado no dia 13/04 quanto no dia 06/07).
Não há nada mais terno, mais gostoso, mais encantador do que um beijo.
Ninguém consegue lembrar todos os beijos que deu ou ganhou na vida.
Mas um único beijo – ah, AQUELE beijo – esse ninguém esquece.
Anos se passam, mas de repente, num descuido da mente, quando a saudade fala mais alto, aquele beijo é lembrado. Algumas vezes num doce sorriso, outras numa dolorida saudade.
De repente, música que tocava no momento daquele longínquo beijo começa a tocar, e por mais distraído que se esteja, a alma volta voando no tempo e traz de volta aquele toque mágico do beijo inesquecível.
Sinto pena de quem não tem um beijo inesquecível, de quem não tem um beijo para recordar, para fazer sonhar.
Felizes aqueles que levam dentro de si a lembrança desse beijo inesquecível…
Para comemorar essa data, posto aqui textos de diversos autores, que falam sobre o beijo. Começo com o magistral Olavo Bilac:
Um beijo
Foste o beijo melhor da minha vida, ou talvez o pior…Glória e tormento, contigo à luz subi do firmamento, contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida: queimas-me o sangue, enches-me o pensamento, e do teu gosto amargo me alimento, e rolo-te na boca malferida.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo, batismo e extrema-unção, naquele instante por que, feliz, eu não morri contigo?
Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto, beijo divino! e anseio delirante, na perpétua saudade de um minuto…
E mais Bilac
Quero um beijo sem fim, Que dure a vida inteira E aplaque o meu desejo Ferve-me o sangue: Acalma-o com teu beijo.
E sigo com Dominguinhos:
Tô com saudade de tu, meu desejo Tô com saudade do beijo e do mel Do teu olhar carinhoso Do teu abraço gostoso De passear no teu céu É tão difícil ficar sem você O teu amor é gostoso demais
E ainda Martha Medeiros
Foi um beijo…
foi um beijo onde não importava a boca só tuas mãos quentes me apertando pelas costas nada estava acontecendo na minha frente e a ansiedade que havia não era pouca teus dedos perguntavam pra minha blusa se meu corpo acolheria um delinquente descoladas as línguas um instante minha resposta saiu um tanto rouca
E Chico Buarque
Soneto
Por que me descobriste no abandono Com que tortura me arrancaste um beijo Por que me incendiaste de desejo Quando eu estava bem, morta de sono…
Ainda, Adélia Prado
A vida é muito bonita, basta um beijo e a delicada engrenagem movimenta-se, uma necessidade cósmica nos protege.”
E encerro com Augusto Branco:
Te levarei ao inferno para te dar um beijo ardente E meus braços queimarão Ao agarrarem teu corpo em brasa
Quero te ter louca, cálida,densa, inconsequente Pra viver contigo um romance tórrido eternamente E exorcizar de mim este sentimento que me abrasa
Te levarei ao inferno Pra que tu sejas meu paraíso Te levarei ao inferno para te dar um beijo ardente…
Há muito, muito, a se falar do beijo. Do abraço, da paixão e da saudade. Mas hoje passei a palavra a outros…
É verdade, houve um tempo em que éramos livres. Eu quase já me esqueci como era isso…
Viajávamos à vontade, carro, ônibus, avião, cruzeiros de navios… Podíamos nos hospedar em hotéis em qualquer lugar do mundo. Íamos livremente às lojas, havia dinheiro girando pelo mundo, bastava trabalhar e já se ganhava o suficiente para viver e, muitas vezes, o bastante para esbanjar.
Esse tempo era tão bom…
Havia doenças, claro. Doenças dos mais variados graus. Desde simples resfriados e gripezinhas, até pneumonias duplas, tuberculose, pancreatite, vários tipos de câncer. E se morria, sim, de doenças, de reações adversas a medicamentos, de complicações em cirurgias.
Os hospitais estavam sempre superlotados. Principalmente hospitais públicos. Faltavam leitos em UTIs, cirurgias eram marcadas a longo prazo, muitas vezes a doença matava o paciente antes dos exames ou da cirurgia. Era um caos. Mas éramos livres.
Podíamos até mesmo optar entre a saúde e a doença.
E, se nos sentíamos saudáveis, podíamos ir à missa, ao culto, ao cinema, ao restaurante, ao parque, à praia.
Os amigos se encontravam, as famílias se reuniam, bares e restaurantes viviam lotados, conversas, risadas, cantorias, muita alegria. Podíamos sair à noite livremente.
Ah, como esse tempo era bom. Éramos livres. Éramos saudáveis. Éramos felizes.
Um dia inventaram que todos deveriam ficar doentes.
E todos deveriam empobrecer. Morrer de doença ou de fome. Montaram um grande circo.
E começaram a tocar pânico nas pessoas. Através de notícias dadas por repórteres histéricos.
Os mesmos que, a princípio, negaram a existência da doença e insistiram em fazer um carnaval mega-enorme, logo depois passaram a acusar o povo de espalhar a doença por ter participado do carnaval.
E aproveitaram a ocasião para cassar a liberdade de todos.
E vieram o isolamento compulsório, o toque de recolher e outras medidas restritivas do direito à liberdade.
O povo, acuado, e com medo, foi se acovardando.
Até isso acontecer, vivíamos um tempo bom.
Éramos livres. Éramos felizes. Éramos saudáveis. Não éramos covardes.
E, dia após dia, mês após mês, ano após ano, foram nos limitando. Destruíram os empregos, as empresas, as famílias, os afetos.
E o povo, com medo de morrer, se deixava matar.
Verdade, você agora me fez lembrar, houve um tempo em que éramos livres. Eu quase já me esqueci como era isso…
– É impertinente que se fala. Incômodo, aborrecido, ou como vocês dizem, chato.
– Desculpa, não quis incomodar. O senhor sabe que lugar é esse?
– Não. Parece ser uma sala de espera. Veja, aquele portão grande ali, fechado. Acho que alguém vira abrir e nos explicar como viemos aqui. Só lembro de estar dormindo e acordar aqui.
– Eu também! Fui deitar, estava com dores e cansado e acordei aqui. Já não sinto mais nada. Será que é um hospital? Tudo tão branco, tão limpo… mas o senhor faz o que?
– Eu sou um Príncipe.
– Nossa, eu nunca vi um de verdade. Só nos livros. Meu pai diz que eu sou um príncipe também, mas não de verdade né?
– Sim. O que teu pai diz é verdade! Toda criança é um príncipe ou princesa para seu pai. Então você é o príncipe dele.
– Mas não do meu padrasto. Ele diz que não gosta de mim, ele me bate e diz que se eu falar pra minha mãe ela também não vai gostar de mim.
– Seu pai não te protege?
– Ele não pode, ele e minha mãe são separados. Ele me abraça quando estamos juntos, mas não é sempre. O senhor abraça teus filhos?
– Muito menos do que gostaria. Príncipes tem protocolos, obrigações…
– Deve ser chato né? Mas aqui só estamos nós dois. O Senhor poderia me abraçar? Tenho medo…
– Claro! Venha aqui. Como você se chama?
– Henry.
– Henry? Bonito nome. Tenho um neto com esse nome! Um pouco rebelde, mas um bom homem…
– E o senhor? Como se chama?
– Felipe. Pode me chamar de tio se quiser.
– Olha tio! O portão abriu! Tem uma luz bonita lá dentro! Vamos?
– Vamos menino, vamos lá até a Luz…
Gosto de imaginar que possa ter sido assim, num Reino muito, muito distante; em uma dimensão longe daqui…