Não-viver

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Tempos estranhos. Um eterno “déjà vu”. Tudo se repete na maior monotonia, como se eu fosse ponteiros de um relógio, condenados a rodar eternamente em torno de um mesmo mostrador.

Mas um “déjà vu” negativo. Uma monotonia destruidora de almas.

Não é sobre ficar em casa.

Porque é uma bênção ter uma casa para ficar.

Mas sobre a compulsoriedade. Sobre a proibição. Sobre a limitação de minha liberdade individual, meu direito de sair. De viajar.

Não é sobre isolamento social.

Porque nunca fui muito sociável.

Sempre vivi bastante sozinha.

Mas sobre estar impedida de me reunir com as poucas pessoas cuja companhia me agradam.

Não é sobre portar máscara.

Acho até bonitas as máscaras do carnaval veneziano.

Cheguei a usar máscaras em carnavais.

Mas nos olhos. Não impedindo as pessoas de sorrirem umas para as outras.

Não é sobre a doença que está acontecendo.

Porque todos, mais cedo ou mais tarde, adoecemos e morremos.

Assim é nosso ciclo vital.

Mas sobre já estarmos mortos, enterrados, isolados, violentados em nossas liberdades civis. Estamos morrendo de tanto medo de morrer.

Não é sobre o governador ter ou não competência para editar esses atos.

Até agora isso não foi questionado.

Nem sobre a necessidade de tantas restrições.

Mas da passividade bovina do povo em aceitar tudo isso, permitir esse abuso. E, de joelhos, beijando as mãos e agradecendo aos carrascos, acreditando que isso tudo é “para seu bem”.

Folhas mortas

Les feuilles mortes ne se ramassent pas…

Outono: quando começa e características principais

Essa frase tem uma sonoridade outonal fabulosa – como se fosse um início de depressão, uma nostalgia infinda, um toque sutil de um sofrimento indefinido.

No entanto, nada mais é que uma constatação da natureza, observação de agrônomo: Não se ajuntam as folhas mortas.

E por que?

Porque muitas folhas, quando caem e forram o chão passam a exercer papel importante no enriquecimento do substrato local, por isso devem ser deixadas ali, onde tombam, ainda que os ventos carreguem parte delas. Mas as que ficam, estas não devem ser juntadas. Isso foi tirado de um artigo publicado por Alain Lompech no Le Monde, que dizia: “Les hibiscus mauves perdent déjà leurs feuilles qui s’amoncellent sur la pelouse. La tondeuse les ramassera. Mais celles qui tombent ao pied de cet arbuste resteront là où elles sont. Elles se décomposeront su place et enrichiront la terre en surface. Em attendant, elles sont d’um bien beau jaune. …. Elles protégeront du froid les Begonia evansiana qui poussent ao pied de la glycine. …

É a poesia da natureza por si mesma: as folhas caem porque é outono. Forram o chão cobrindo a terra. Que prazer caminhar sobre folhas mortas, seu som, seu cheiro…

O vento as leva, as ajunta, mas arbustos prendem algumas e as seguram a seus pés. E essas lhe servirão de cobertor, protegerão do frio intenso. E se decomporão no local, enriquecendo a terra que as acolheu.

E assim tudo se renova.

E nós, o que fazemos quando chegamos ao outono de nossa vida? Caímos, porque o inverno da velhice não perdoa os que sobrevivem…

E somos varridos e ajuntados ou servimos de proteção, fonte de calor e nutrientes para aqueles que vêm depois de nós?

A escolha depende de cada um, não quando chega ao outono pessoal, mas na construção de sua vida.

Há pessoas que seguramos conosco, queremos que continuem ali, como guias, fonte de amor, de calor. Outras preferimos que as tempestades varram e ajuntem bem longe de nós.

Temos que tentar ser para os outros – arbustos novos que vêm depois, nosso futuro – as folhas a serem agarradas, valorizadas e não o lixo que é levado pela tempestade da vida.

E temos também que agarrar e segurar junto de nós as folhas das quais dependemos para ter um pouco de calor quando nosso inverno chegar, reconhecer e valorizar essas folhas tombadas de rara beleza em seu amarelo de outono. (14/10/08)

A morada do poeta

Alma ou poeta: O blog
Poeta, onde é sua morada? 
Quero encontrá-lo, ver onde vive, 
do que é feito seu mundo. 
O poeta me recebe, mas não é bem 
uma casa onde ele mora.
Sua morada é no mundo, seu telhado é o céu
De dia ele avista as nuvens, 
à noite dialoga com as estrelas
Também não tem paredes, 
porque o poeta é livre
Seus limites são os limites do Universo
Não precisa portas nem janelas,
não há cercas nem muros
O chão do poeta é o imenso oceano
Pisa nas espumas das ondas, repousa nas marolas
Os vizinhos do poeta são as matas, os rios,
A natureza tranquila e exuberante
Na casa do poeta se ouvem o mar, o vento e o silêncio
Porque o poeta medita, em profunda solidão, 
 vive dentro de si para conseguir ver o mundo
Procurando a morada do poeta, não a vi
Ela não está sobre a terra, não está no horizonte
Descobri então que o poeta, na verdade
Mora nas lágrimas dos que choram de amor
 Dos que sofrem pelas dores dos humanos
De todos que são amados de verdade
A morada do poeta é a alegria das crianças
A saudade dos idosos, a tristeza de tantos irmãos
A morada do poeta são os sonhos da juventude
E as lembranças que se levam pela vida
Encontrei sua morada, enfim, dentro de mim
Porque o poeta mora, desde sempre, em minha alma.

Texto de Viviane Mendonça – Árvores do tempo

Árvore do Cerrado, Pau-Santo,Kielmeyera coriacea - Sucesso Vital

Sou galho que brota de antigas árvores de raízes profundas.
Árvores que brotaram do chão ressequido do cerrado goiano.
De tempos difíceis de chão batido, de poeira produzida pelas boiadas nas estradas rústicas do passado.
Do cheiro gostoso da comida feita no fogão à lenha e do café torrado e moído no velho moinho.
Dos bordados de rosas produzidas pelas mãos ásperas e delicadas no bastidor de madeira.
De velhas cristaleiras, com guardanapos de rendas delicadas que escondiam louças e porcelanas que “apareciam” apenas para visitas ou em dias de domingo.
Da máquina de costura de pedal e roca de fiar o grosso algodão encardido.
Das visitas inesperadas e muito bem recebidas, das conversas e causos que encantavam ou arrepiavam.
De rezas, benzeções, chás milagrosos, missas, terços, quermesses e procissões
De trabalhos árduos e incansáveis, de mãos calejadas, suor e fadiga.
Das produções infindáveis de bolos, broas, doces, biscoitos, farinha e polvilho para saciar a fome de quem por ali passasse.
Do tempo em que o tempo não era cronometrado, mas vivido e aproveitado.
Onde a lua e as noites estreladas eram contempladas.
Apenas um simples galho de árvores fêmeas… mulheres fortes, simples, porém doutoras.
Mulheres do cerrado, mulheres sábias, de traços suaves e delicados, mas de presença forte e altiva que sabiam a arte de educar apenas com o olhar.
Ardósias fundidas, presas no moinho do tempo e da memória, que ainda vivem dentro do baú de meu coração.
Sou galho dessas árvores de raízes profundas que tanto me inspiram a continuar acreditando no tempo, na espera e na força dessas mulheres.
E nessa certeza, continuo regando essa árvore para que suas raízes se mantenham vivas e que no tempo certo, as flores brotem em meus galhos para continuar a vida enfeitar e perfumar.

(Foto: Árvore do Cerrado – Kielmeyera coriacea – Pau-Santo)

Que venham novos tempos

Que essa semana passe rápido, essa quinzena se finde e esse mês acabe. Não começou bem e não acabará melhor. O que começa torto acaba torto ou mais torto ainda. O que começa errado acaba errado ou mais errado ainda. Portanto, um mês que começou ruim não acabará bom, será ruim ou pior ainda.

Que novos meses venham com mais leveza e alegrias. Que novos ventos nos tragam boas novas, e estejamos sempre preparados, portas e janelas abertas para a felicidade que há de chegar. Um dia tudo muda na vida de cada um. E o barco toma o rumo inverso. E se tivermos força remaremos rumo ao arco-íris que anuncia o fim da tempestade.

Basta estar pronto e atento.

A maior arte da vida é saber se levantar. Porque cairemos. Sempre. Cairemos sozinhos ou seremos empurrados. Cairemos porque tropeçamos ou porque alguém nos passou uma rasteira. Mas cairemos.

Quem sabe se levantar e seguir adiante não ficará caído. Viver é a arte de se adaptar, de se renovar, de se levantar depois de cada tombo, de se apaixonar e sobreviver ao fim da paixão.

Aprendemos, desde o momento do nascimento, à nos adaptarmos. Porque ao nascer já nos adaptamos a respirar sozinho, à luz, aos ruídos, aos movimentos bruscos, ao mundo frio, feio, claro, barulhento e hostil. E, adaptados, sobrevivemos.

E muito cedo já começamos o aprendizado da renovação – perdemos pessoas amadas, mudamos de casa, de escola, de amizades e a cada mudança é necessária a capacidade de se renovar, por mais difícil que seja a nova realidade.

Muitas vezes cairemos, por isso somos incentivados a conseguirmos voltar a ficar de pé depois do tombo – sermos capaz de nos levantarmos, sozinhos, a cada tombo, nos torna invencíveis.

Ainda, ao longo da vida, nós nos apaixonaremos diversas vezes.

E isso nos fará sofrer quando terminar.

Por isso devemos nos preparar. Para a paixão e para o pranto. Sabendo que ambos passarão.

E quando o coração, cansado de bater sozinho, nos pedir um par, que estejamos prontos, preparados e com as portas abertas para a nova paixão.

E o círculo se repetirá inúmeras vezes enquanto vivermos.

E então podemos dizer que estamos vivos.