É violento este mar que navego. Balança meu coração e derruba catedrais. Por onde levo meu corpo a memória grita e racha a minha musculatura seca de desejos... É violento demais este vento a passar! Como fogo encarniça minha pele! Sozinho, canto um lamento que nem eu aguento mais ouvir. Mas sorrio e aceno a cada transeunte que passa... É violenta esta imagem da paz! Também sei, que como o vento, vai passar!
Poesia da casa – Poesia livre

Não quero a estrofe bem rimada
Nem o verso todo arrumadinho
Quero a poesia solta como pedra lançada
Sem regras e sem limites
Quero ouvir o canto de cada alma
Ver o brilho de todos os olhares
Mesmo naqueles olhos que já foram tristes
Ver rodar a ciranda que vida traz
A poesia, livre, está no ar
Na risada alegres das crianças
Nas memórias tristes dos idosos
Na angústia que cada um carrega em si
Nas mãos que um dia se encontraram
Sabendo que teriam de se soltar depois
Na esperança da vida que ainda resta
Na certeza da morte que chegará
Quero a poesia da música dos ventos
Do marulho que embala o adormecer
Da serenata matinal da passarada
Do trovão que anuncia a tempestade
Essa a poesia que eu quero
Que vive solta, leve, a pairar
Que muitas vezes é esquecida
Mas ressurge, linda e forte.
Poesia que não aceita fronteiras
Que rompe as grades, sai da gaiola
Não pode ser domesticada
Vive por si, em plena liberdade
Essa é a poesia que vive em mim
E que me impulsiona, entra na alma,
Traduz meus sonhos e se renova toda
Minha poesia é igual a mim: livre...
Texto de Diego Engenho Novo – Casamento – modo de usar

Case-se com alguém que adore te escutar contando algo banal como o preço abusivo dos tomates, ou que entenda quando você precisar filosofar sobre os desamores de Nietzsche.
Case-se com alguém que você também adore ouvir. É fácil reconhecer uma voz com quem se deve casar; ela te tranquiliza e ao mesmo tempo te deixa eufórico como em sua infância, quando se ouvia o som do portão abrindo, dos pais finalmente chegando. Observe se não há desespero ou insegurança no silêncio mútuo, assim sendo, case-se.
Se aquela pessoa não te faz rir, também não serve para casar. Vai chegar a hora em que tudo o que vocês poderão fazer, é rir de si mesmos. E não há nada mais cruel do que estar em apuros com alguém sem espontaneidade, sem vida nos olhos.
Case-se com alguém cheio de defeitos, irritante que seja, mas desconfie dos perfeitinhos que não se despenteiam. Fuja de quem conta pequenas mentiras durante o dia. Observe o caráter, antes de perceber as caspas.
Case-se com alguém por quem tenha tesão. Principalmente tesão de vida. Alguém que não lhe peça para melhorar, que não o critique gratuitamente, alguém que simplesmente seja tão gracioso e admirável que impregne em você a vontade de ser melhor e maior, para si mesmo.
Para se casar, bastam pequenas habilidades. Certifique-se de que um dos dois sabe cumpri-las. É preciso ter quem troque lâmpadas e quem siga uma receita sem atear fogo na cozinha; é preciso ter alguém que saiba fazer massagem nos pés e alguém que saiba escolher verduras no mercado. E assim segue-se: um faz bolinho de chuva, o outro escolhe bons filmes; um pendura o quadro e o outro cuida para que não fique torto. Tem aquele que escolhe os presentes para as festas de criança e aquele que sabe furar uma parede, e só a parede por ora. Essa é uma das grandes graças da coisa toda, ter uma boa equipe de dois.
Passamos tanto tempo observando se nos encaixamos na cama, se sentimos estalinhos no beijo, se nossos signos se complementam no zodíaco, que deixamos de prestar atenção no que realmente importa; os valores. Essa palavra antiga e, hoje assustadora, nunca deveria sair de moda.
Os lábios se buscam, os corpos encontram espaços, mas quando duas pessoas olham em direções diferentes, simplesmente não podem caminhar juntas. É duro, mas é a verdade. Sabendo que caminho quer trilhar, relaxe! A pessoa certa para casar certamente já o anda trilhando. Como reconhecê-la? Vocês estarão rindo. Rindo-se.
Poesia da casa – Momento da despedida

Toda a dor que havia em mim,
já não mais cabendo em meu peito,
explodiu em pranto e lágrimas.
Entendi, então, o que era te perder.
Você, entre mudo e comovido,
tocado pelo meu sofrimento
Não sabia mais se partia ou se ficava.
E compreendeu, então, o que era me deixar.
Dia de poesia – Vinicius de Moraes – O mais-que-perfeito
Ah, quem me dera ir-me
Contigo agora
Para um horizonte firme, comum
(comum, embora...)
Ah, que me dera ir-me
Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que nem presumes
Ah, quem me dera amar-te!
Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais cuidado....
Ah, quem me dera ver-te!
Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te...
Hoje é dia da saudade…
Hoje, 30 de janeiro, Dia da Saudade. Saudade, minha essência, razão de minha existência. Vou replicar um texto antigo sobre saudade. Quantos textos escrevi por saudade… Há muitos. Escritos e por escrever. Porque a saudade é uma companheira fiel – chega por último, depois que o amor, a paixão, a alegria, todos já se foram. Mas nunca mais irá embora: ela chega para ficar…
Saudade
«É uma mania que a alma tem
De ouvir o que não é dito.
De sentir o que não se toca,
de ver o que não pode ser visto.
saudade,
é um pedacinho da gente,
Que alguém sem pedir permissão,
Leva para bem longe.»
(Marcelo Vico)
Quantas vezes eu já escrevi sobre saudade.
E quantas mais sobre saudade eu li…
Saudade, essa presença incômoda de uma ausência que não nos abandona.
Esse sentimento de gosto amargo que adoça a vida com doces lembranças.
Essa presença invisível que nos acompanha dia-a-dia, hora-a-hora.
Esse fio mágico que não conhece distâncias e nos mantêm unidos a quem se foi.
Ah, saudade, eu peço, me deixe em paz. Procure outra alma para fazer seu ninho.
Quero viver sem pensar, sem lembrar, quero viver sem ter saudade.
Mas, imagino, sem saudade, a vida seria um deserto onde somente se avança
Onde não há um velho porto à nossa espera para voltarmos
As portas se trancam à nossa passagem e impedem o regresso
Porque sentir saudade é voltar um pouco e encontrar quem se foi
É trazer de volta sensações, cheiros, toques, abraços que se foram
Viver sem saudade é viver sem lembranças doces
É trilhar o atalho até à morte sem se ter vontade de ficar
Então eu peço: Saudade, fique! Não me deixe nunca!