A quem devo dizer que em tua carne
se sobreleva o tempo e o duradouro,
mancha de óleo no azul, alaga e intensifica
o contratempo a que chamei amor?
A quem devo dizer dos meus perigos
quando, o corcel furioso olhei ao longe
e não vi mais limites que o oceano
nem mais convites que o das ondas frias?
Como antepor o corte nas montanhas
– Liberdade – ao dever que a si mesma impõe a terra
de estender-se conforme o espaço havido?
Malícia do destino, ardil composto outrora...
Arde a grama da noite em que te vais embora,
e essa chama caminha, essa chama, essas vinhas,
essas uvas, cortadas noite afora.
Poesia da casa – No mar

Acordo na madrugada,
quando o mar
aos gritos, chama por mim.
Ele sabe que um dia eu irei.
Entrarei em suas águas
desmanchando-me nas espumas
e levada por suas ondas,
eu o seguirei. Para sempre.
A paixão então explodirá.
Embriagados e loucos,
tal como amálgama,
para sempre, eternamente,
estaremos juntos.
Não retornarei.
Poesia da casa – Ao amor desconhecido
Você, amor que virá para mim, estará na minha vida,
Como a chuva inesperada que transforma a paisagem
Seja bem-vindo desde já, sua chegada me alegra
Chegue logo, o mais cedo que você puder
Traga consigo a beleza do infinito azul do céu
O mistério dos perigos do profundo azul do mar
Todas as nuances do verde da natureza
O perfume de cada flor que surge nos campos
A transparência das águas que lavam a Terra
E a ternura que existe em cada noite de amor
Espero ansiosa sua chegada na minha vida
Trazendo a luz e o encanto para minha caminhada
Traga todos os sorrisos e todos os abraços
Tudo o que a vida me tirou e está me devendo
Porque você, meu amor, será minha redenção.
Texto de Rubem Alves

Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.
É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que se as portas das gaiolas estivessem abertas eles voariam. A verdade é o oposto. Os homens preferem as gaiolas ao voo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão as suas vidas. (Rubem Alves , Religião e Repressão)
Uma jovem senhora de 467 anos

São Paulo, minha Terra, Pátria amada
São Paulo para os que aqui nasceram,
Sampa para os que aqui chegaram
Aqui onde tantos se encontram e reencontram

Vivem, sonham, constroem
Onde a riqueza circula sem pudor
E a miséria é mais aguda, mais sofrida
Essa Cidade-Estado-País,

Mãe, pai, madrinha e madrasta
Velha senhora elegante, hippie e maltrapilha
Com braços abertos tenta acolher todos que recebe
São Paulo, com seu organizado trânsito caótico

Com suas multidões andando pelas calçadas e ruas
Seu calor insuportável em meio a tanto concreto
Suas chuvas torrenciais arrastando a cidade nas noites
E sua hoje rara garoa, que já foi sua maior marca

São Paulo onde a noite é linda
Onde a lua se faz de difícil e pouco se mostra
E há mais luzes na terra do que estrelas no céu
Onde fica a mais Paulista das avenidas

São Paulo cosmopolita, poliglota, megalópole
Verdadeira Babel de todas as línguas
Centro do universo de todas as religiões
Berço dos que aqui nascem, túmulo dos que aqui vivem
Todos os povos de todas as origens,
Irmanados no amor dessa Terra vencedora,
Para onde todos vêm para serem também vencedores

São Paulo de onde brota o grito de LIBERDADE!
Local de nascimento dos sonhos de um país vencedor
Ainda hoje ecoam por suas ruas, os gritos
de seu povo que não se dobra nem se escraviza

São Paulo, capitã maior do desenvolvimento de um país
São Paulo que respira cultura, exporta conhecimento,
Domina as ciências e se parte em milhares de escolas
A todos ofertando a chance de se fazer maior
Cidade esplêndida, distribui igualmente suas oportunidades
Sem olhar etnia, origem, cor nem estirpe – apenas vê pessoas

E quando finalmente São Paulo folga, que festa!
Seus parques, avenidas, restaurantes, bares e calçadas
Tornam-se a vitrine da alegria de um povo grande, trabalhador
Que muito luta e sabe pelo que está lutando
E nos ínfimos momentos que lhes sobram para o lazer,
Erguem seus braços e seus copos para um único brinde:
“Viva São Paulo, Terra amada de todos nós”
Poesia da casa – Sonhos

Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado montado num cavalo branco
Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado de carroça ou a pé
Já nem precisa ser encantado, nem mesmo príncipe… apenas encantador
Mas se não puder ser encantador, que seja apenas atencioso
O tempo passou e levou todos os sonhos da juventude
E a vida não deu tempo para construir novos sonhos
E o tempo não parou para que alguém notasse a falta deles
E a vida seguiu sem sonhos, só na dura realidade que não deixa pensar
O tempo da diversão deu lugar ao tempo da responsabilidade
A leveza da juventude cedeu sua vez à intensidade da maturidade
E a vida se tornou um parque de obrigações, de deveres sem direitos
Um dia ao longe a vida mostra um lindo príncipe em um belo cavalo branco
Impossível alcançá-lo ou ser notada por ele no borralho da realidade
Então vem à mente a vontade já indisfarçável de fugir.
Não com o príncipe
Mas montar seu próprio cavalo e finalmente com as rédeas em suas mãos
Simplesmente ir…