Chuva

Eu vi a chuva chegar.

Desejada, sonhada, ao cair da noite ela veio.

Mansa tal como uma criança que pede carinho.

Assim ela chegou.

Bateu nos altos galhos das grandes árvores, correu pelos telhados, escorreu pelos muros e paredes.

E molhou a terra. Molhou os caminhos, encharcou os gramados.

E no ar pairou o cheiro da chuva.

Então saí.

Para ver a chuva que chegou. Para receber em mim essa bênção dos céus.

Para que ela corresse pelos meus cabelos e escorresse pelo meu corpo.

Queria sentir esse carinho de amante esperado, esse abraço improvável.

Eu senti o cheiro da terra molhada a me inebriar os sentidos.

E senti o frio gostoso que a água da chuva provoca.

Então caminhei.

Andei na chuva, como a andarilha sem destino que se contenta com o simples caminhar.

Porque não há para onde ir. Só há o ir.

Como também não há para onde voltar.

O passado acabou.

A chuva veio. E lavou os caminhos.

Agora, basta escolher um e por ele seguir.

Para nunca voltar, para jamais chegar.

Questões nada filosofais

PESQUISADOR SERGIO LUIZ RIBEIRO-DA-SILVA / EDUCAÇÃO, ANTROPOLOGIA,  SOCIOLOGIA E CIÊNCIA POLÍTICA

Talvez eu esteja enganada. Mas viver já foi mais divertido.

Houve um tempo em que o riso era mais fácil. E rir não ofendia ninguém.

Talvez nesse tempo as pessoas (ao menos aquelas com as quais convivíamos) eram mais inteligentes. Por isso entendiam brincadeiras e levezas.

Hoje o mundo está tomado por uma raça desgraçada de pessoas sérias e muito sabidas. Dominam todos os assuntos, sentem-se no direito de apontar o dedo para todos, querem mostrar o conhecimento que não têm.

Assim, para disfarçarem a própria ignorância e superarem o terrível complexo de inferioridade que os domina, inventaram o politicamente correto.

Que transformou a realidade num porre.

Em seguida, a tremenda judicialização da vida e da sociedade.

Desenvolveram uma suscetibilidade exacerbada, e tudo os ofende e os melindra.

Em todos os sentidos. Até na alimentação.

A humanidade come pão há mais de 4.000 anos. Agora, os frescos e maricas são alérgicos a glúten. E têm intolerância à lactose. Precisam de alimentos batidos e liquidificados, porque têm sensibilidade e não conseguem mastigar.

Não ingerem açúcar porque faz mal. Restringem tanto a alimentação que vivem de mal humor.

São obcecados pela forma física, e não percebem que o cérebro está em péssimo estado de conservação. Podre.

Não educam os filhos para que não fiquem traumatizados. E parentes e vizinhos devem suportar os monstrenguinhos.

Tratam cães como filhos e acham que todos devem considerar essas criaturas como humanas, ainda que só sirvam para fazer cocô e latir, incomodando a vizinhança inteira.

Acham que roupa cara faz as pessoas melhores, então desprezam solenemente até mesmo aquelas que os servem, porque são “inferiores”.

E se acham “apenas o máximo”.

Todos têm de apresentar um mesmo padrão de pensamento, expressão, linguagem, gestual, trajes…

Acabou a espontaneidade, a alegria, a conversa despreocupada.

Haja paciência para conviver.

Dia de poesia – Miguel Torga – Aos poetas

Somos nós
As humanas cigarras!
Nós, desde o tempo de Esopo conhecidos…
Nós,
Preguiçosos insetos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar!

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpítam.
Asas que morrem mas que ressuscitam
Da seputura!
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz!
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz!

E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!

56 anos sem Cecília

Aos 09 de novembro de 1964 morria a poeta Cecilia Meireles. Poetisa única, deixou um legado de valor inestimável – uma mulher moderna, solitária, que escrevia com a alma, sobre o amor, a paixão, a finitude da vida, a solidão…

Cecília Meireles - Vida e Obra - Home | Facebook

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada
.

Poesia da casa – Voo livre

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No infinito em que as paralelas se encontram

Um dia estaremos reunidos no amor

Nossas vidas se entrelaçarão

E seguiremos juntos um mesmo caminho

Remando um mesmo barco

Quero ser a vela que te impulsiona

E não a âncora que te limita

Partilharemos as grandes e pequenas alegrias

Dividiremos as dores, as mágoas e as lágrimas

Pássaros livres, sempre poderemos voar

Seguindo juntos na mesma direção

Pousaremos sempre juntos em um mesmo galho

E faremos ali novo ninho para nos abrigarmos

E estaremos juntos, voando um mesmo voo,

Voltando ao mesmo nosso ninho

Não por covardia ou medo de se estar sozinho

Mas apenas pelo imenso prazer de estarmos juntos

Porque terá sido nossa escolha pousarmos lado a lado

E ali permanecermos na alegria da liberdade partilhada