A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Maturidade é se segurar e não abrir o presente antes da hora.
Maturidade é se segurar e não chorar quando contrariado.
Maturidade é se segurar e chegar em casa com o pacote fechado…
Hoje eu tive a prova que tenho algum grau de maturidade.
Quando recebi, nos idos de 2013, meu primeiro livro publicado, “Alinhavando letras”, a emoção foi intensa. Senti que vivia um momento único.
E esse momento único se repetiu… foram dez momentos únicos…
A ansiedade para ter o livro aberto nas mãos é incontrolável. Infantil mesmo. Você já vai abrindo o embrulho no caminho, querendo tocar o livro, ver como ficou, a ansiedade é invencível.
Hoje, entretanto, eu me segurei e dei, a mim mesma, uma prova de maturidade.
Vim da Editora até minha casa com o pacote de livros ao lado. SEM MEXER!
Mas quando cheguei em casa, nem pisquei: abri o pacote, peguei um exemplar e senti a emoção intensa de mais um momento único – uma antologia, a oitava da qual participo. E aí esta: com orgulho e muita emoção nosso “Nos dias em que o mundo parou”, coordenado por Silvia Bruno Securato.
Depois de mais de cinco meses, volto para passar uns dias em São Paulo – não consigo entender as pessoas que dizem detestar esta cidade. Amo São Paulo. Aqui estou, realmente, em casa.
Uma cidade viva, vibrante, animada – sempre acreditei que dizem que São Paulo não pode parar porque não tem onde estacionar.
Ou não tinha.
Com essa peste maldita, a cidade continua vazia.
Quadras e quadras de imóveis comerciais fechados – placas “Vende-se” ou “Aluga-se” para todo lado. Dói pensar que por trás de cada uma dessas placas, existe uma ou mais famílias sem fonte de renda… Isso é horrível, principalmente porque não conseguiram estabelecer uma relação de causa e efeito entre estabelecimentos comerciais (exceto padarias, farmácias, quitandas e supermercados) e o vírus.
Será que o vírus é assim tão inteligente que distingue um restaurante de uma farmácia, um salão de beleza de um supermercado??? Lojas, lojas e mais lojas fechadas… muito triste…
Hoje fui ao centro mais central da minha terra, seu coração – imediações da Praça da Sé. Trânsito livre. Como se estivéssemos em pleno janeiro e não em meados de setembro. Sem mãetoristas, quase sem táxis… e foi triste ver isso. Cada táxi a menos corresponde a uma família a mais passando privações.
Em todos os lugares as pessoas usam máscaras. Além de danosas, ridículas. Querem nos obrigar a nos sentirmos como chineses cretinos que andam de máscaras nas ruas.
Isso é horrível.
Mais fácil eu morrer de máscara do que de covid, em razão da minha alergia. Nunca tive uma simples gripe. Vírus não têm efeitos em mim. Mas a máscara está acabando comigo.
Feia, grosseira, ridícula, tudo de ruim.
Se fico muito em casa, não é porque “tenho medo” dessa porcaria de covid – já disse um milhão de vezes e repito – de faca, bala, pancada ou vírus, um dia terei de morrer, nem antes nem depois, mas no momento exato em que foi programado para mim – mas porque me sinto muito mal de máscara. Não sou assaltante nem pretendo ser para andar com o rosto escondido…
Há alguns dias, conversava com uma amiga e quando eu falei que queria muito dar um abraço nela, mas, por ela estar grávida, não o faria por precaução, porém queria que ela se sentisse abraçada por mim, ela, com lágrimas nos olhos me respondeu que o que ela mais estava sentindo falta durante todos esses meses, era exatamente de ser abraçada.
Um abraço é tudo de bom, de gostoso, de aconchegante. Muitas vezes, tudo o que precisamos, é apenas de um abraço apertado. Mesmo em profundo silêncio. Mas o aconchego, a acolhida de um abraço. E agora até isso está proibido.
Peste maldita!
E, ainda por cima, além de encontrarmos tudo vazio, restaurantes e bares fechados, pessoas passando necessidades, já não nos abraçamos, e ainda perdemos todos os sorrisos – ninguém pode nos dar um sorriso por trás desses trapos nojentos…
E assim chego ao 26º domingo desde que entramos em isolamento social.
Isolamento já mitigado por medidas que ampliam a possibilidade de vida, mas ainda restringem nossa vida, e, o pior, é que o rescaldo nem começou – quem conseguirá voltar ao chamávamos “vida normal” antes dessa situação que tanta miséria e tristeza nos trouxe?
Para alegria do meu coração, estou de volta a São Paulo, minha terra natal, minha cidade amada. Estava aqui quando decretadas as primeiras medidas restritivas, viajei para outra de minhas casas, no interior, no dia 19/03, onde fiquei todo o tempo da chamada “faixa vermelha”, que lá durou mais de 120 dias. Foi terrível.
Por ter alma livre, nascida sob o signo da liberdade, é muito difícil, para mim, ficar cumprindo regras estúpidas e que não provaram ser nem eficientes nem necessárias. Até hoje sequer o governo do Estado conseguiu uma linha de ação clara e inteligível para contagem, sem fraudes, do número de doentes do vírus maldito, nem do número de mortos, nem estabelecer um protocolo eficaz de tratamento. A impressão que se tem é a de que, para esse (des)governo, quanto mais confusão, mais notícias histéricas, mais pânico, maior número de infectados e mortos (ainda que não corresponda à verdade), melhor.
E, desta forma, fiquei restrita a uma casa (graças ao bom Deus, tenho casa onde ficar, e meios de me sustentar mesmo com tudo fechado e tantas empresas falindo e empregos desaparecendo) desde 19 de março. E lá se foram 25 domingos em prisão domiciliar.
Mas hoje, nesse 26º domingo, estou em São Paulo. Estou viva. Não tive covid. Embora tenha cumprido dois períodos de total isolamento – o primeiro de 14 dias, quando cheguei de São Paulo, onde estivera em locais públicos, inclusive aeroporto – e por conviver com duas pessoas do chamado grupo de risco, fiquei isolada para não acontecer eventual contaminação. E, em final de agosto, por uma dor de garganta, mais doze dias totalmente isolada, porque foi necessário um exame – swab – para ser possível ao médico administrar medicação para a garganta. Nesse período, novo isolamento, sendo que, para a realização do exame foram necessários quatro dias apenas para conseguir agendamento, e, ainda, mais seis ou sete para sair o resultado, que foi negativo para a peste, e a garganta já havia sarado sozinha. De qualquer forma, mais doze dias confinadíssima.
Continuo usando a focinheira, vulgo máscara. Sei que não adianta para nada, a não ser acalmar a histeria de certas pessoas. Uso para não complicar a situação dos poucos comerciantes que ainda resistem à falência. Esse uso compulsório se assemelha mais a um exercício, um teste de submissão – até onde podem ir para domar a população? o povo vai continuar a suportar a domesticação ou vai se revoltar? – do que uma medida eficiente de proteção a um vírus que nem sabem direito como se transmite. Eu uso o mínimo de tempo possível – com rinite alérgica, se não morrer de covid vou morrer de máscara mesmo, porque para mim é mais grave do que o vírus.
E, quem não quiser se aproximar de mim porque estou sem máscara, que não se aproxime. Será um favor. Mesmo porque, estranhamente, quanto mais esquerdista a pessoa, mais defende a necessidade de isolamento, máscara e outras baboseiras, como se dispusesse de informações privilegiadas e secretas, sobre os terríveis efeitos do vírus e da doença. Só não defende o uso e acesso da população à medicação preventiva, à qual médicos sérios creditam a verdadeira imunização contra o vírus.
Mas hoje não foi um domingo perdido.
Foi um dia muito bom. O melhor desde março.
A última pessoa com quem estive antes do encasulamento foi Myrian. Amiga de décadas. Pessoa que não digo que ocupa um pedaço especial da parte dedicada aos amigos, do meu coração, porque, na verdade, ocupa quase todo o espaço ali existente. É minha amiga, fomos colegas, nos tratamos como se fôssemos irmãs pelo amor e pelos interesses que partilhamos.
E ela veio almoçar comigo. Tal como no último dia antes de nos recolhermos compulsoriamente em nossas casas. E aqui ficou até o começo do anoitecer.
Como é bom encontrar a Myrian, conversar com ela, partilhar um domingo com uma pessoa que faz tanto bem à mente e ao coração. Temos mil assuntos – sem cri-cri, sem pandemia, sem hipocondria nem fofoca.
Tive, hoje, meu refresco nesse ano tão esquisito. Por isso não vou contar esse dia como 26º domingo de confinamento. Mas um dia de liberdade depois de 25 domingos sem alegria.
Obrigada, Myrian, por sua amizade, seu carinho e sua companhia. Um dia voltaremos à vida.
E os spas e hotéis que se preparem, porque vamos tirar a diferença desse tempo horroroso, continuando nossas viagens.
(Imagem: foto tirada da janela de casa, por volta de 18h15, do vermelho anoitecer neste domingo em São Paulo)
Eu não sei, não sei dizer Mas de repente essa alegria em mim Alegria de viver Que alegria de viver E de ver tanta luz, tanto azul! Quem jamais poderia supor Que de um mundo que era tão triste e sem cor Brotaria essa flor inocente Chegaria esse amor de repente E o que era somente um vazio sem fim Se encheria de cores assim
Coração, põe-te a cantar Canta o poema da primavera em flor É o amor, o amor chegou Chegou enfim
A harpa e seu lamento retido em nervos de metal dourado,tão suave instrumento ressonante ou delgado,buscam, ó solidão, teu reino gélido. (Garcia Lorca)
Como definir a solidão, se não é igual para todos? É tão relativo o seu conceito…
Para os poetas é inspiração, para os amantes – se juntos é o ideal, se separados é desespero, para crianças é medo, para tantos adultos é tranqüilidade ou angústia…
A cada fase da vida a solidão se transforma, adota outros significados.
Um bebê deixado sozinho fatalmente morrerá. A cada vez que não visualiza o rosto da mãe o bebê chora porque não tem noção de tempo nem distância e encara a solidão momentânea como total e definitivo abandono.
Nos primeiros anos da vida a solidão se transforma em medo – medo do escuro, medo do desconhecido, medo da noite…
Conforme se cresce,aprende-se a dominar os medos – especialmente os medos abstratos – para mostrar maturidade. Ninguém é ridicularizado se mostra medo de uma serpente, mas se disser que tem medo da noite ou do escuro, vira motivo de infinitas gozações…
E na idade adulta esses medos têm que ser controlados. Aí a grande arte de viver.
O medo da própria vida geralmente se transmuda em timidez. Cada medo vai encontrando uma forma de se encaixar na realidade. E saber lidar com essa gama de emoções se torna essencial para a convivência.
E o medo da solidão – algo abstrato e indefinido – mais cedo ou mais tarde aparece para todos. Vencê-lo é o desafio. Ou conviver com ele e fazer da solidão uma aliada da jornada terrena.
Quem é mais solitário, o filho que fecha a porta do quarto e ali permanece horas ou dias inteiros ou a mãe, que não tem essa escolha e continua nas lides domésticas, fazendo o trabalho invisível, que é feito exatamente para ser desfeito em seguida?
O defunto que é enterrado sozinho em sua caixa de madeira enfeitada ou a viúva, que terá que continuar viva, caminhando sozinha na vida depois de tantos anos de companheirismo?
A irmã que chora ao se despedir da irmã que vai embora para sempre do país ou essa que vai enfrentar o desconhecido em outras terras?
Todos são igualmente solitários.
E a pior de todas as solidões, sem dúvida, é a solidão cotidiana, dentro do grupo em que se convive.
Solidão em família, solidão entre amigos, solidão no ambiente de trabalho.
Todos passam, em algum momento da vida, por solidão. Doída, aguda, insuportável, porém inevitável.
E surpreendentemente, muitos conseguem lidar de forma extraordinária com a solidão, fazendo dela uma grande aliada, a melhor companheira.
E são felizes sozinhos, a companhia de outro ser humano, eventual, passageira, chega até a incomodar, porque se sentem melhor sozinhos…
Se a solidão é opção, poderá, até mesmo, ser transformada em felicidade.
E equilibrar tudo isso é a maneira de se viver em paz: não se desesperar com tempos de solidão e dar valor às pessoas com as quais se convive – momentânea ou permanentemente.