A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Eu te amo. Mesmo negando. Mesmo deixando você ir. Mesmo não te pedindo para ficar. Mesmo estando longe, eu te amo. E amo mesmo. (Caio Fernando Abreu)
Leio essa frase do Caio Abreu e penso sobre ela. O que é o amor. O que é a paixão.
O recorrente tema da paixão. Porque esse “eu te amo” da frase acima é a expressão da paixão sem limites. É ser loucamente apaixonado por alguém a ponto de deixar de se amar.
Não se amar nem se valorizar. Amar mesmo sendo abandonado. Trocado. Traído. E continuar apaixonado.
Ver o outro ir embora sem ter chances de segurá-lo. E continuar amando.
Ficar longe, completamente separados, mas ainda amando.
Isso não é amor. Isso é obsessão.
Porque amor é troca. Eu amo você e você me ama. Assim é amar.
Não dá para amar pelos dois, não existe amor unilateral.
Porque se for unilateral é loucura, não amor.
Mas é esse desvario do amor não correspondido que desperta o mundo. Ou não teríamos poesias nem romances de amor.
Se o amor for calmo, correspondido, metrificado, quem vai querer saber os detalhes?
Para despertar a curiosidade, vender livros e filmes, a paixão tem de ser devastadora. Muito pranto, muito desespero. Alguém se arrastando até perder a dignidade. Alguém matar ou se matar. Escândalo, sangue, gritos… aí a atenção de todos se manifesta.
Mas se eu amar quietinha, deixar ir, chorar sozinha, que graça tem?
Todos querem fatos picantes e detalhes sórdidos, na história alheia.
No entanto, sonham com esse amor quadradinho, morninho, certinho para si.
Somente na canção de Gil existe o despendimento de “o seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar…” Aqui, na fria realidade, é ame-o, agarre-o e destrua sua liberdade; ou quebre suas pernas para que não se afaste, arranque suas asas para que não voe… o sentimento de posse sobre o ser amado é intenso e asqueroso.
Não aceitar ver o outro partir não é amor. É doença.
Matar o parceiro que quis se afastar não é amor. É doença.
Tentar se matar porque o outro achou que era hora de terminar não é amor. É doença.
Amor não mata. Não destrói. Não prende.
O amor simplesmente ama. É altruísta. É bondoso. Acrescenta. Faz crescer e desabrochar.
Dizem (já havia cronistas sociais aqui em 1822), que Dom Pedro I subia vagarosamente a serra no lombo da mula, quando, ao chegar à colina do Ipiranga, nas margens do citado regato, já no planalto, entrando na cidade de São Paulo, recebeu uma carta de José Bonifácio, o patriarca da Independência.
A carta avisava que o o velho Rei d. João VI, que voltara para Portugal, exigia a presença do filho – o Príncipe d. Pedro, no além-mar e, ainda que fora determinada a prisão dele, José Bonifácio, e, portanto, diante de tais fatos, era chegada a hora de o Príncipe tomar uma atitude firme a respeito desses fatos.
Sacando da espada, D. Pedro teria lançado seu brado heróico e retumbante, cantado na primeira estrofe do Hino Nacional: “Independência ou Morte!”
Pensando a respeito, suspeito que não tenha sido esse o grito. Mesmo porque, ainda que existissem fofoqueiros e colunistas sociais já naquela época, não existiam gravadores nem filmadoras, então cada um colocou na boca do príncipe valente e decidido o grito que quis. Aliás, a mula usada para subir a serra de Santos a São Paulo virou um fogoso cavalo no quadro de Pedro Américo que imortalizou o momento histórico. Portanto, se transformaram a mula em cavalo, pode ter sido diferente o que, de fato, ocorreu lá na beira d’água, onde pararam por conta do piriri do príncipe que comeu alguma coisa estragada na sua estadia em Santos (vem de longe esse problema…)
Talvez a carta fosse de seu primo, que avisava da morte de um amigo comum, a quem crescera um enorme calombo na cabeça. Assustado com a notícia, d. Pedro ficou desesperado, e quando lhe perguntaram do que se tratava, gritou: “Excrescência ao Norte!”…
Ou a carta era de seu alfaiate. Contando que o ajudante, por pura incompetência, estragara o fraque que o príncipe encomendara e usaria logo mais à noite, na ópera. Nervoso, o grito, na verdade foi: “Incompetência é Forte!”.
Também pode ter sido a carta de seu procurador, avisando que o principal credor do príncipe, na época bastante endividado, sustentando várias mulheres e muitos filhos, havia morrido. E que ele, procurador, conseguira de um magistrado a declaração de que os títulos usados para as cobranças eram inconsistentes. Portanto, o príncipe nada devia a ninguém. Feliz, saltitando por ter conseguido se safar das dívidas, o príncipe gritou: “Inconsistência ou Sorte?”
Mas, – e esta dizem as más línguas da época – a carta era de uma amante do príncipe, afirmando que foram contar a seu marido que mantinha um romance secreto com o príncipe, o que poderia ser constatado todas as vezes em que, durante as viagens do marido, a mula do príncipe, guardada por quarenta pajens, passava dias e noites a fio pastando no jardim do casal. Ela jurara ao marido que eram fofocas dos vizinhos invejosos porque o príncipe muito honrava a casa com suas visitas, sempre a procura do marido para trocar umas ideias, ainda que nunca o encontrasse. Vendo que o povo falava demais, o príncipe se irritou com o fato e gritou: “Maledicência é esporte!”
Para outras más-línguas a carta era de outra amante do príncipe, que estava preocupada com a ameaça da cozinheira, que falou que não mais obedeceria as ordens da madame, e que faria o que quisesse na casa e ninguém mandaria mais nela senão iria contar para a princesa, futura imperatriz, o que acontecia naquele endereço. Era preciso cortar essa escrava da criadagem da casa, pois o escândalo seria terrível e ela não sabia como obrigar a cozinheira a obedecer. Então, danado de raiva, o príncipe gritou: “Obediência ou corte!”
Há ainda uma outra versão, que a carta era do chefe de polícia, afirmando que havia muitos malfeitores pelo reino, que um grupo começava a se organizar para protestar contra o reino e contra o príncipe, e que os parlamentares da época pretendiam proibir todos os súditos de portarem armas, para evitar um ataque aos nobres. Mas o chefe de polícia temia que, sem armas, todos se tornassem presas fáceis dos assaltantes e saqueadores, que a violência iria se espalhar de uma forma nunca vista, e o povo morreria nas ruas nas mãos de bandoleiros, que o príncipe não podia concordar com o desarmamento dos súditos. Então, preocupado com esse estado das coisas, de que já ouvira comentários no Rio de Janeiro, d. Pedro gritou: “Violência ou porte!”
O Cronista da época, compadre de José Bonifácio, imortalizou a frase “Independência ou Morte”, não porque tenha sido esta a que foi gritada, mas sim porque se o compadre se tornasse o Patriarca da Independência quem sabe sobraria também para ele – o cronista – um lugarzinho na História do país…
Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já… Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida… Saudade é sentir que existe o que não existe mais… Saudade é o inferno dos que perderam, é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam… Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou. E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver. O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
A tragédia da velhice não está em se ser velho, mas sim em se ter sido jovem. (Oscar Wilde)
A tela continua branca, depois de uns dez minutos que aqui estou. Se escrevesse à moda antiga diria que a folha continua branca. Os pensamentos voam, não necessariamente junto com o tempo.
Porque o tempo voa de forma ordenada, com a lógica cronológica.. Os pensamentos, pelo contrario, voam desordenadamente, vão, voltam, somem, outros surgem, como papéis soltos em uma ventania.
É exatamente isso: uma ventania.
Acho que mais que uma ventania minha mente enfrenta um tornado, um furacão.
E assim fica difícil agarrar um único pensamento, laçá-lo como se fosse um cavalo selvagem, domá-lo para finalmente o expor.
Nenhuma ideia passa perto o suficiente para ser então apreendida.
São sensações dos novos tempos, da vida moderna.
Recebemos simultaneamente milhares de informações, não temos tempo hábil para processá-las. Nossa memória superficial não recebe a faxina necessária para separar o que não precisa ser guardado e se livrar disso e enviar para a memória profunda tudo o que precisa ser arquivado.
Usamos melhor nosso computador do que nosso cérebro, ignorando que o computador é burro, sem nosso cérebro ele nada vale.
Enquanto estou aqui escrevendo minha mente vagueia por preocupações, serviços por fazer, tarefas não cumpridas, montando mirabolantes agendas inexequíveis, indagando se acharam o avião que sumiu no mar, se vai fazer frio no final de semana, preciso ir ao supermercado, quero acabar um colete de tricô para usar ainda neste inverno…
Para viver de acordo com este tempo tão curto levantamos cada dia mais cedo, vamos dormir mais tarde, e nem por isso o tempo rende mais.
E nesse roldão envelhecemos sem perceber. Por vezes um acontecimento extra nos tira dessa confusão e nos damos conta de quanto tempo passou desde a última vez que saímos para dançar; visitamos uma querida prima idosa; fomos caminhar lentamente sábado à tarde à beira-mar tomando um sorvete de casquinha, ou simplesmente saímos para dirigir pelo puro prazer de dirigir, ou de moto só para pilotar, indo a lugares próximos, pitorescos, para encontrar um grupo de amigos também em passeio sem nenhum propósito que não seja passear, numa demonstração explícita e assumida de deixar o tempo passar. São singelos prazeres que já não nos permitimos, porque não podemos perder tempo.
O tempo não nos pertence, não está em nossa posse, por isso não podemos perdê-lo.
O tempo pertence ao tempo, e não passa, apenas gira. Nós é que passamos.
E com toda nossa pressa, com toda nossa eficiência, passaremos, e o tempo, brincalhão e gozador, continuará girando indefinidamente em redor dos homens que tentam inutilmente segurá-lo.
Toda manhã na África uma gazela acorda. Ela sabe que terá que correr mais que o leão ou será alcançada e devorada por ele.
Todo amanhecer, na África, um leão acorda. Ele sabe que terá que ser mais rápido do que a gazela para alcançá-la ou morrerá de fome.
Não importa se se é leão ou gazela. Quando o sol nascer, é melhor começar a correr.
Há certos momentos na vida que recomendam o mais completo recolhimento: de alma, de palavra, de imagem…
Momentos em que devemos meditar, calar e ficar reclusos em casa, sem nos expormos em nenhum sentido.
São momentos em que sentimos todas as portas fechadas, todas as pessoas hostis, todas as conjunturas dos astros contra nós.
Esses momentos são inevitáveis, passamos por eles incontáveis vezes na caminhada por esta vida. Seja quando o amor acaba, o casamento desaba, o emprego desaparece, a promoção vai para o colega, a amizade se desvanece no ar.
Pensamos morrer, temos certeza que desta vez não sobreviveremos. Porém, do fundo do ser, de algum lugar invisível e intocável, surge a força, e enxergamos a corda que nos tirará do poço, e ao olharmos para cima, há a luz.
A divina luz da esperança, pequena, do tamanho da boca do poço enquanto estamos no fundo, mas que crescerá à medida que conseguirmos subir para sair de lá. De algum modo conseguiremos forças e sairemos. Sairemos pelo nosso próprio esforço, porque não existe nenhuma mola no fundo do poço que nos jogará para cima. Mas também o fundo do poço não é túmulo e não teremos de ficar lá por toda a eternidade se não quisermos.
E, de repente, já aqui fora, estamos fortes, lutando de novo, caindo, levantando, e isso é que, na verdade, é viver.