Dia de poesia – Carlos Nejar – Aqui ficam as coisas

Nossa sabedoria é a dos rios.

Não temos outra.

Persistir. Ir com os rios,

Onda a onda.

 

Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.

Intactos passaremos sob a correnteza

feita por nós e o nosso desespero.

Passaremos límpidos.

 

E nos moveremos,

rio dentro do rio,

corpo dentro do corpo,

como antigos veleiros.

 

Aqui ficam as coisas.

 

Amar é a mais alta constelação.

 

Os sapatos sem dono

tripulando

na correnteza-espaço

em que deitamos.

 

Os corpos

circulando

na varanda dos braços.

 

É a mais alta constelação.

Arrastando a quarentena

Cada dia, um novo dia.

Não para quem cumpre isolamento social.

Todos os dias são iguais. Todos. Não se contam mais os dias por seus nomes, porque segunda-feira, domingo, quarta-feira, sábado, tudo ficou exatamente igual. Nem mais o chopp de sábado ou a missa de domingo para diferenciá-los.

Chegamos a um ponto de absurdo que noites e dias também se igualaram. A pessoa simplesmente não se levanta da cama ao amanhecer porque não terá absolutamente nada para fazer.

E quando não aguenta mais ficar deitada, levanta-se e passa praticamente a noite acordada, vendo TV, comendo, andando feito zumbi dentro de casa.

Será que a intenção do governador, um neo Dr. Simão Bacamarte  é enlouquecer os cidadãos? Aí interná-los todos em alguma Casa Verde, ou transformar parte do Brasil em imensa Casa Verde?

Precisamos trabalhar. Ainda que o sonho de muitos brasileiros tenha sido sempre viver sem trabalhar, a grande maioria trabalha para se manter e à família.

Não vivemos de esmolas oficiais. Temos dignidade.

E até isso está sendo destruído pela política torta de isolamento horizontal. Tiraram do brasileiro até a dignidade de sustentar os próprios filhos.

Isso tudo por falta de humildade desse Dr. Simão Bacamarte moderno, que nunca trabalhou, nunca precisou ganhar durante o dia para comer à noite.

Só quem trabalhou desde sempre entende o que é trabalhar para viver.

E mais: a alegria de ter um trabalho, a alegria de se sustentar. Contrariamente ao que pensam os esquerdistas de iPhone, as pessoas têm, sim, prazer em trabalhar, em produzir. O único problema é que o governo do Brasil, desde 1.986, sempre jogou contra o trabalhador, contra o empreendedor e protegeu a vagabundagem.

Agora que temos um governo federal que preza o trabalho, o trabalhador, o empreendedor, o empresário, vêm esses porqueiras de governadores estaduais e jogam tudo no lixo.

Realmente, o Brasil não é para principiantes, como disse Tom Jobin, e eu acrescento: nem para amadores.

De um passado

Quando pele contra pele em perfeita concha adormecemos,

Almas felizes, paixão satisfeita, tudo mais que perfeito;

A Terra girava em seu exato eixo, o mundo se acalmou,

A mansa chuva lavava os céus, o ar, nossas almas sedentas,

Tudo, todos e cada um ocuparam seu devido lugar,

A felicidade se fez e inundou a noite com sua paz.

O tempo, passou, cruel, separando quem se queria junto,

A vida, implacável, seguiu seu curso de angústias e dores

Como um rio cujas águas não podem ser contidas nem represadas,

E consigo tudo arrasta, separa, esparrama e desfaz…

Pouco a pouco apenas recordações se fazem presente

Nessa vida de repente tão sem brilho, tão vazia de você,

Meus braços, agora, só encontram o vazio para enlaçar.

Somente as lembranças hoje se deitam a meu lado

E tenho, por única companhia, apenas a sua ausência.

Por aí

Antologia - A voz da esperança

Quero a beleza do amanhecer na floresta, com o ruído das folhas ao vento

Misturados à algazarra animada dos pássaros e às cores do dia que surge.

Não posso ficar indiferente a tanta beleza, a tanta alegria da natureza

Que nesse altar se revigora todas as manhãs, e renova a vida, o céu e a terra.

Mas também quero o silêncio longo do anoitecer no lago da montanha

Com suas cores exóticas, brisa amiga, longos pios ao longe dentre as árvores

E a água se vestindo de ouro, de azul, de prata, de cinzas vários até enegrecer

E a noite, cálida e amiga, despertando os corações para novas paixões.

E não quero viver longe da cidade grande, com seu caos organizado, sua vida

Pulsante que nos provoca sempre – sobreviver é a proposta, viver é o desafio

Onde tudo é difícil, mas maravilhoso, tudo longe, mas compensador e vibrante

E ali, na madrugada que se esvai, então dormir com a certeza de um novo dia.

Mas preciso do mar, meu amado mar, de tantas vestes diferentes e humor variado

Nas horas sem fim, que passo a mirar as águas, as ondas vadias que me chamam

Ouvir seu canto infinito, sua eterna canção de me ninar nas noites insones

Apenas estar. Sentir. Não pensar, não sofrer, voltar às origens da vida sem dor.

Tudo isso eu quero, ver a vida de tantas e diferentes janelas, nunca ficar parada

Saber que em algum lugar alguém me espera com ansiedade, sabendo que irei

Porque nunca estou, sou vento, sou chuva – apenas passo e não me detenho.

Voltarei pelo seu amor: não posso parar, sou ave de arribação, espere por mim.

Dia de poesia – Paulo Mendes Campos – Três coisas

Não consigo entender

O tempo

A morte

Teu olhar

 

O tempo é muito comprido

A morte não tem sentido

Teu olhar me põe perdido

 

Não consigo medir

O tempo

A morte

Teu olhar

 

O tempo, quando é que cessa?

A morte, quando começa?

Teu olhar, quando se expressa?

 

Muito medo tenho

Do tempo

Da morte

Do teu olhar

 

O tempo levanta o muro.

A morte será o escuro?

Em teu olhar me procuro.

No terror

Várias viaturas fecharam a rua. Homens de farda desceram correndo e começaram a entrar nas casas. Correu para dentro, fechando portas e janelas. Mas isso não bastou.

Em poucos segundos a porta lateral veio ao chão. Armados, encapuzados, eles entravam e berraram. Não conseguia entender nada. Levou uma pancada na altura da costela. Sentiu uma dor aguda.

O pavor lhe paralisava as pernas e tampava os ouvidos. Não conseguia sair do lugar. Escutava vozes mas não entendia as palavras.

Eles gritavam. Via o movimento. Não sabia o que acontecia.

Levou outra pancada. Agora na cabeça. E eles gritavam.

Sentiu medo. Muito medo. Como nunca sentira em toda a vida. A náusea começava a dominar o corpo. Vertigens.

Um deles tirou a máscara e berrou “Onde estão os outros?”

Tentou replicar “Que outros?” mas a voz não saiu.

Eram muitos. Tentou contar quantos. Eles não paravam, iam de um lado para o outro, entravam em um cômodo, saíam de outro. Era impossível contar quantos.

“Vocês estão em quarentena” gritou o mesmo que estava sem máscara. “Quem autorizou abrir a janela e olhar lá fora?”

Era a própria face do terror. Abrira um pouco a janela para respirar, para ver a árvore que havia ali, tinha saudade do verde, do ar… tinha saudade da liberdade.

Recebeu outra pancada. Tudo ficou escuro e silencioso.

Acordou do pesadelo, olhou em volta, a casa calma, todos dormindo. Foi em busca de um copo de água, para acalmar o coração. Não teve coragem de olhar pela janela da cozinha. Tempos de isolamento social tiram o chão e perturbam a paz… não tinha dúvidas.