Resistir para viver

Ainda que pareça impossível de superar.

Ainda que isso pareça te esmagar todo dia.

Ainda que o desespero tente te fazer parar, aguente mais um pouco.

Não desista de você por nada, por ninguém.

A dor é a onda que passa. Você é o mar que fica.

(A menina e o violão)

 

Ah, palavrinha mágica essa tal de “superar”.

Quase ninguém se dá conta, mas se olhar de relance para trás, perceberá que ainda vive graças – exclusivamente – à própria capacidade de superação.

Desde quando se foi concebido já aconteceu uma superação. Dos milhares de óvulos e milhões de espermatozoides, a concepção se deu pelo encontro de um único óvulo e um só espermatozoide, que superaram todos os outros.

O nascimento requer uma incrível capacidade de superação. De um ambiente aconchegante, úmido, quente, silencioso e escuro, repentinamente a criança é exposta à luz, barulho, frio, secura e desconforto de um centro cirúrgico. Um choque. Mas superamos e sobrevivemos.

E assim pela vida afora – a separação traumática em relação à mãe nos primeiros dias de escola. As frustrações, o inevitável bullying para a maioria. Provas difíceis, notas baixas, quebras de expectativas. E superamos e sobrevivemos.

A confusa adolescência, as primeiras paixões, sem as quais pensávamos morrer. Tudo passou e nós não morremos.

Vida afora, nos estudos, nos empregos, nos amores, fomos lutando e nos superando para continuar existindo.

Tantos problemas a resolver. Tantos boletos a pagar. Tantos risos seguidos de tantas lágrimas. Tantas perdas pela via.

E resistimos. E superamos. E sobrevivemos.

Em nenhum momento a vida ficou mais leve nem mais fácil, mas nossa incrível capacidade de superação sempre nos fez cada vez mais fortes e com mais condições de seguir adiante. E se reinventar quantas vezes for preciso. Vencer todas as batalhas possíveis. Triunfar.

Por isso resistimos e insistimos. E, do alto – onde estamos graças a nós mesmos – olhamos em volta e dizemos: “eu venci”.

Isso é viver.

Maldição

 

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Quando meus olhos nada mais puderem ver

E meu sangue, congelado, deixar de correr,

Não chore por mim em nenhum momento

Nem me procure em outras mulheres

Porque fui única em tua vida

E como ninguém mais eu te amei

Se um dia o caminho se desfez em pó

E as pegadas então se apagaram

Perdemos o rumo um do outro

E conhecemos a solidão dos amantes separados

Em cada horizonte visualizei teu perfil

Busquei tua presença e me fiz ausência

Lua e sol se alternavam impassíveis

Poeiras de estrelas alegravam meus atalhos

E te busquei, te busquei em cada novo amanhecer

E te esperei a cada noite que chegava fria

Mas a vida, vazia de carinho, se esvaiu

E a vontade de viver desapareceu

Por isso eu parti – na hora devida

Nem antes nem depois, mas no momento exato

Sem gritos, sem ritos, sem alarde

No silêncio de uma alma enlutada

Só tenha a certeza que não fui feliz

E preferi ir embora desse viver em vão

Mas não precisa chorar por mim nenhuma vez

Porque te deixo a minha ausência concreta

E que terei morrido de tanto amar

E de quem morreu te amando jamais te esquecerás

Vamos tomar um café?

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Quantas milhares de vezes eu disse a frase “Um café, por favor”. Em português, italiano, francês, inglês, espanhol… E mais: quantas centenas de milhares de xícaras de café eu já tomei nessa minha vida…

É quase automático. É natural.

E dizer – ou ouvir “vamos tomar um café.”?

Confesso – sou viciada em café. Cresci em uma família onde o café tem lugar de destaque. Sem hora para ser servido. Porque sempre teve café à disposição o dia todo. Além de tomar muito café, minha mãe nos incentivava a beber também. Desde pequenos, ainda no colo, já podíamos tomar café.

E assim fomos criados. E a geração depois de nós conheceu o café ainda bebês. Sempre despejando no pires, para esfriar.

E hoje minha mãe vê bisnetos bebendo café. Você chega na casa da minha mãe, e logo ela vai “passar” um café.

Isso em casa.

Sempre trabalhei fora. Então tive de engolir muito café horrível. Aqueles de fóruns pela vida afora, que eram feitos pela manhã e mantidos em grandes bules na água fervendo. Horrível.

Eu sempre gostei de café feito na hora. Por mim não precisaria nem existir a horrorosa garrafa térmica.

E, na cidade de São Paulo, com todos os cafés por todos os lados, como viver sem tomar café?

Expresso, curto, duplo, pingado, média, macchiato, cappuccino… Das padarias para as modernas e sofisticadas cafeterias, migramos e apuramos nosso gosto em saborear uma xícara de café.

Há cidades nas quais, assim como em São Paulo, encontramos cafés em todas as esquinas, com suas mesinhas para quem tem tempo sobrando ou quer ler um jornal, e balcão para quem não vai se demorar.

Em compensação, já estive em cidades onde simplesmente não existe uma cafeteria, e, no máximo uma máquina antiquada em alguma padaria, usando café de segunda. Mas não tenho opção, se não tomar café, não sobrevivo.

Meu dia começa com um expresso duplo, puro. Antes do meu café prefiro que nem falem comigo. Que respeitem – estou de pé mas não necessariamente acordada.

Minha máquina de expresso sempre pronta, quando passo pela cozinha ela me diz “Oi!”. E o baleiro ao lado, oferecendo todo tipo de café.

Irresistível.

Café, tal como amor, para ser bom tem de ser quente e forte. E acontecer a qualquer momento, não é preciso planejar nem combinar…

E o café com a irmã/amiga, no meio da tarde? Existe coisa melhor nessa vida?

Às vezes, na impossibilidade de um encontro real, tomamos, cada uma, isoladamente seu café em casa, mas virtualmente reunidas pela internet, numa confraternização.

Dificilmente encontramos pessoas que não apreciam o café.

Uma bebida democrática, abrasileirada, cheirosa, agradável, faz um bem danado ao corpo e à mente. Mantém as amizades. Acende as paixões. E pacifica as famílias.

E aí, aceita um café?

Dia de Poesia – Álvaro de Campos – O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser…

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço…

Dia de Poesia – Florbela Espanca – Os meus versos

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Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada dum momento.
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasga os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…