A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo, e ando pelas ruas sem comer, calado, não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta, busco no dia o som líquido dos teus pés.
Estou faminto do teu riso saltitante, das tuas mãos cor de furioso celeiro, tenho fome da pálida pedra das tuas unhas, quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado na tua formosura, o nariz soberano do rosto altivo, quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo à tua procura, procurando o teu coração ardente como um puma na solidão de Quitratue.
Fotos. Que antes eram fotografias. E, antes ainda, retratos.
Em músicas, filmes, romances, sempre há o recurso da foto para voltar ao passado. Seja de forma figurada ou literal dentro da ficção. E, na vida real, fotos são lembranças vivas, fazem o passado sempre presente.
Conseguimos nos desfazer de muitas coisas ao longo da vida, mas não temos coragem de rasgar fotos e jogar no lixo. A não ser algumas, que foram rasgadas com raiva e molhadas de lágrimas.
Assim, vamos acumulando fotos e mais fotos. Álbuns e mais álbuns. E, nos dias de hoje, com a facilidade da foto digital, as temos aos milhares.
Vejo antigas fotos (não as chamo velhas – ou seria eu também velha por as possuir…).
Elas me trazem de volta meus vinte anos. No milênio passado. Não poderei nunca mais ter vinte anos, mas me posso ver nessa idade. E outras pessoas com quem convivi naquela época.
Fico a lembrar de tantos acontecimentos, tanta leveza, uma vida livre e despreocupada.
Meus pais ainda jovens, fortes, nossa casa tão cheia de amigos, nossa vida tão cheia de festas e encontros.
Tudo se perdeu. Tudo ficou nessa caminhada árdua que a vida se tornou de repente.
A memória é algo fabuloso. Deus a deu aos homens para tornar mais leve a realidade. Basta fecharmos os olhos e relembrarmos o que já foi, deixar fluir o pensamento. Reviver os melhores momentos. E, para isso, as fotos são magníficas. Porque não mostram nossa decadência física. Elas nos guardam naquele momento, em que a juventude brilhava em nossos olhos e tonificava nosso corpo.
E Deus foi tão bom com os homens, que, para aqueles que a memória machuca no final da vida, ela se perde na bruma da velhice.
Olho para mim mesma em uma antiga foto. E confiro no espelho com a imagem que me tornei.
E entendo, sim, o que pensava Wilde com seu Dorian Gray…
Por serem tão desatinados, talvez Deus perdoe os poetas. (Walter Duarte)
Com essa e outras frases, as quais serão comentadas em outras ocasiões, meu amigo poeta Walter Duarte encanta meu pensamento com sua preciosidade “Cotidiano” (Editora Oficina do Livro). Desafia o meu pensar.
Desatinados – o que é desatinado? Aquele que comete desatinos? Aquele que não tem tino? O que é tino e qual motivo os não poetas o têm?
Para o dicionário, tino é discernimento. Juízo. Portanto, desatinado é aquele que perdeu o tino – sem juízo, sem discernimento.
Tudo que Deus faz é perfeito – conforme se diz comumente. Então, meu caro amigo Walter, não se trata de Deus perdoar os poetas por serem desatinados. Na verdade, Deus os fez desatinados para que pudessem ser poetas.
Imagine o verso quadradinho, a poesia engessadinha, de um poeta com tino. Não, Deus sabe o que faz e faz com perfeição – já nos fez, a nós, poetas, desatinados, para que déssemos vazão à poesia.
A poesia nasce da paixão. Da intensidade dos sentimentos. Apaixonar-se é o salto no escuro – tem de ter muita coragem e pouco juízo. Quem tem tino não se apaixona.
Deus não nos perdoa, a nós, poetas. Ele nos aceita e nos ama. Entende nossa loucura. Ele nos fez assim.
Somos poetas porque somos desatinados, apaixonados, insensatos, sofredores e intensos…
Qual o preço da verdade? Por que nunca admitimos nossos erros e nos recusamos a assumir a responsabilidade e pagar esse preço?
Por mais escura que seja a noite, haverá um amanhecer luminoso. E tudo será exposto, tudo será visto, a verdade conhecida e restabelecida.
Não adianta tentar se esconder, como a lua por trás das nuvens, porque o vento a desnudará.
Guardamos dentro de nós comportamentos infantis, como acreditar que se cobrirmos nossos olhos com as mãos, estaremos invisíveis. Mas, nunca estivemos nem estaremos. Há pessoas que mal enxergam o que está à frente dos próprios olhos. Há outras que nem precisam dos olhos para enxergar. Simplesmente sabem o que está acontecendo, captando no ar o que lhe tentam esconder.
Fugir nunca foi solução. Porque sempre se pode fugir. Mas nunca haverá um lugar para permanecer escondido.
E disfarçar a culpa é ainda pior. Porque a cara da criança que quebrou o pote mostra claramente o que aconteceu. Ainda que se tenha tentado esconder os cacos.
Diz-se – com muita propriedade – que se pode enganar alguns por muito tempo, e muitos por algum tempo. Mas não se pode enganar todos o tempo inteiro. É verdade. E, se alguém é enganado, isso não aconteceu porque o outro é mais esperto. Mas porque o enganado acreditou, confiou ou amou demais.
Enganar é apenas se aproveitar da confiança e da boa-fé do outro, e não significa ser mais esperto nem mais inteligente.
Acredito que para ser considerado adulto, o primeiro passo é assumir os erros. Ainda que o preço da verdade seja alto e implique até mesmo em rompimentos sofridos. Mas seria uma forma de se demonstrar um mínimo de dignidade.
Depois de mais de sete meses ausente, aguardando a reabertura da vida, ontem consegui ir à praia. Encerrei meu involuntário isolamento. Saí na estrada. E ninguém mais vai me segurar.
Cheguei na praia, fiz minha saudação ao mar, amor maior na minha vida. E perguntei: sentiu minha falta? O que você tem para mim? E ele me mandou o primeiro presente.
A praia sem a fedentina dos fritadores de pastel e camarão estava bem mais agradável. Continua proibida a permanência com cadeiras, barracas, guarda-sol… então as pessoas caminham, algumas se sentam na areia, mas há uma outra dinâmica. E a limpeza da água é algo que faz pensar que, de certa forma, essa peste ajudou em alguma coisa.
Não há mais montanhas de lixo na areia no final do domingo. Infelizmente, porém, alguns abestalhados não entenderam e levam seus fedidos cães para a praia, para o mar. E vemos cocô de cachorro na areia.
Esse povo precisa de fiscalização e penalização. Não basta a regra. Só o chicote funciona.
Fiz uma longa caminhada.
Sem usar máscara. Coloquei essa indecência para descer no elevador e atravessar a rua. Chegando na praia, tirei. RESPIREI! Vi pessoas caminhando de máscara. Nada tenho contra. Tem bobo para tudo na vida. Mas minha rinite alérgica praticamente desapareceu em dois dias.
Arrastei cinco quilômetros esse mar, até sentir a musculatura reagir. Aí caminhei o restante pela areia. Em seguida, para encerrar, tomei um longo banho de mar – que, curiosamente, mesmo sendo inverno, não está gélido, mas agradável. Em alguns pontos até quentinho.
Renasci.
Hoje, voltei à praia, o sol mais forte, bem menos pessoas, tudo mais bonito.
E o mar, feliz de me ver, trouxe vários presentes:
Faltam dois, com os quais presenteei duas garotinhas – um de cerca de um ano e meio que abriu um lindo sorriso quando passei perto dela. E outro, dei para Giovana, uma morena que mais parecia uma boneca se mexendo, por volta de três anos de idade que encontrei perdida e a ajudei a encontrar a mãe.
Depois fui para o mar.
E lá fiquei até cansar.
A areia me acolheu, o mar me aquietou, o sol me aqueceu e Deus me abençoou. Porque aqui, nesta praia, é o único lugar do mundo onde me sinto realmente abençoada. Onde meu corpo e minha alma ficam em paz.
Um dia eu voltarei a morar aqui. O mar sabe disso. E vai me esperar.