Dia de Poesia – Pablo Neruda – Soneto LXVI

Não te quero senão porque te quero

e de querer-te a não querer-te chego

e de esperar-te quando não te espero

passa meu coração do frio ao fogo.

 

Quero-te apenas porque a ti eu quero,

a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,

e a medida do meu amor viajante

é não ver-te e amar-te como um cego.

 

Consumirá talvez a luz de Janeiro,

o seu raio cruel, meu coração inteiro,

roubando-me a chave do sossego

 

Nesta história apenas eu morro

e morrerei de amor porque te quero,

porque te quero, amor, a sangue e fogo.

 

E por falar em corona

Os alarmistas de plantão se babam de alegria ao verem os índices atualizados de propagação do novo corona vírus.

Poucos tinham o hábito da internet nas anteriores formas de disseminações de “tão terrível” vírus. E não liam jornais. E televisão só servia para ver novela. Portanto, não sabem que o corona pertence a uma grande família viral, conhecida desde meados de 1960. E não se lembram do SARS e do MERS, respectivamente em 2002 e em 2012.

Para a grande maioria, corona era marca de ducha, não passava de “um banho de alegria num mundo de água quente”.

Ou se esqueceram ou não escutaram o estrondo do trovão e agora se assustam com um simples traque.

E não percebem que não morreram em duas epidemias causadas por vírus da mesma família, da qual esse “novo corona” é o que tem menos gravidade. Sua ação se equipara a um resfriado comum e leve. Exceto para o grupo de risco – idosos e pessoas com problemas que causam baixa imunidade.

E não há necessidade de correr para o hospital para exames preventivos. Nem andar de máscara.

Talvez um pouco de bom senso. Há instruções do Ministério da Saúde? Siga-as.

Tem dúvidas? Converse com seu médico de confiança.

Está apavorado? Olhe para dentro de você e veja o que, na verdade, está causando o pavor. Porque não é um vírus que causa menos que uma gripe que vai matar toda a população do mundo.

O povo anda meio carente de tragédias, grandes desastres e epidemias tipo gripe espanhola. Não tem heróis no presente nem perspectivas de futuro. Então busca no passado uma desgraça para justificar pânico no presente e pavor do futuro.

Quando essa situação acabar, vamos comparar, no mesmo período, o número de mortos pelo novo coronavirus aqui no Brasil, com as vítimas do sarampo, da dengue, da violência urbana e dos acidentes de trânsito…

Aos pares

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Pássaros livres, voando aos pares

Que assim escolheram viver, a dois.

A paixão que os liga e mantém juntos

Vive o agora, não pensa no depois

 

Fiéis um ao outro e a si mesmos

Voam leves e fugazes no infinito

Brincam com a vida, sempre felizes

 

Nada os preocupa nem tolhe

Suas asas lhe garantem o viver

Até que os separa a cruel pontaria

 

E vê cair, indefesa, de inopino

A companheira, no voo abatida,

Pela pedra do moleque do destino

O tempo, o vento e o riacho

Na vida somos tempo, vento e riacho.

Porque há diferença no nosso agir, de acordo com as circunstâncias e as pessoas com as quais nos relacionamos. Com mais ou menos sentimentos, com mais ou menos intensidade, tudo depende do momento vivido.

Quando apenas passamos, indiferentes, somos tempo. Nada nem ninguém pode nos conter e poucos se dão conta de nossa passagem. Depois que já estamos longe, perplexos, perguntam-se por que nos fomos tão rápido, não nos detivemos um segundo sequer a mais diante do belo, do agradável, do que dá prazer. Mas somos o tempo – não podemos parar e seguimos rumo à eternidade.

Também somos vento.

Vento porque passamos tirando muita coisa do lugar, mostrando cantos que estavam perdidos no meio do pó acumulado de vidas desperdiçadas, passamos varrendo as folhas mortas, limpando os caminhos, bagunçando o cabelo das meninas e as saias das mulheres. Esvoaçamos em todas as direções, sem leme nem bússola. Levamos os papéis que estavam esquecido sobre as mesas. Sujamos de terra e areia as roupas estendidas nos varais, batemos portas e janelas com estrondo. Todos percebem nossa passagem, quando se dão conta que nada mais é como era antes de passarmos; mas nada nem ninguém pode nos conter. O vento nunca se detém nem para, apenas venta e segue seu destino.

E, outras vezes, somos riacho. Encontramos nossos semelhantes, com os quais cruzamos e por vezes caminhamos juntos alguns trechos e depois cada qual segue seu destino. Uns se perdem e secam pelo caminho. Outros aproveitam todas as chuvas e nascentes e se fortalecem. Seguem em correnteza volumosa, levando consigo tudo que conseguem alcançar, extrapolam seus limites, tornam-se rios. Por vezes se deixam até mesmo navegar. Mas não param. Nada pode contê-los – no máximo, represá-los temporaria e parcialmente, mas as comportas têm de ser abertas – seja pela partida em busca de outras oportunidades, seja pela separação, seja pela vontade de seguir seu próprio destino sem cordas nem anilhas. E seguem, com suas margens alargadas, cumprindo sua sina, que é morrer no mar.

Somos tudo isso. Simultaneamente. Destinos marcados e solitários. Por isso a inutilidade das preocupações e da ansiedade – seremos, apenas e sempre, – o deslocamento no caminho que nos leva do nascimento à morte.

Dia de poesia – Miguel Carlos Vitaliano – Esperança

Quando o primeiro frio se aproximava

    ela me deu um cobertor e disse

          que viria me aquecer.

          Eu fiquei esperando,

    mas o primeiro frio chegou

              e ela não veio.

 

          E estava por vir o segundo frio

quando ela ligou pedindo para esperá-la.

                Botei lenha na lareira

                 e aqueci chocolate,

mas o cheiro bom da saudade que pairava no ar

       me fez entender que ela não viria.

 

            No frio daquele ano,

                  o terceiro,

        eu pedi que ela viesse.

          Prometeu que sim.

       Comprei vinho do bom

             e discos de jazz,

           mas, mais uma vez,

            ela se fez ausente.

 

Quando o inverno do quarto ano chegou

                    não nos falamos.

              Uma réstia de esperança

             botou-me frente à janela

               espiando o horizonte

          pensando que, talvez, ela

       pudesse me fazer uma surpresa.

               Mas nada aconteceu.

 

    Agora, o quinto frio se prenuncia.

   Vez em quando olho pro cobertor

                 que ela me deu e,

         com uma certa apreensão,

espio a esperança pela fresta da janela.

 

 

 

 

Beatriz

Noite adiantada, encerrando expediente de repente escuto a música. Corro procurá-la no YouTube. Fecho os olhos e volto no tempo mais de trinta anos. E percebo que algumas vezes fui feliz. Muito feliz.

Só compensa voltar ao passado se for para lembrarmos as horas felizes, gratificantes, as pessoas maravilhosas que estiveram conosco, ainda que tenham ficado, por qualquer motivo, na névoa do que passou. Lembranças esmaecidas mas que trazem prazer quando ressurgem.

E, uma das formas que mais me trazem o passado que gosto de ter por perto, é exatamente ouvindo músicas. Minha vida tem sua própria trilha sonora. As pessoas que amei se transformaram em músicas. Os acontecimentos que me marcaram se tornaram sons.

E, de repente, ouço Beatriz. Da trilha sonora da peça Circo Místico, letra do Chico Buarque e música de Edu Lobo.

Lembranças tão vívidas de quem já partiu. Sons que sopraram cinzas da memória e trouxeram recordações de tempos felizes.

Viver é isso: esquecer o que machucou e, de vez em quando, recordar o que nos alegrou um dia.

Porque na nossa vida tudo passa. O tempo, que leva tudo de ruim embora, também leva o bom…

E fica a saudade, e ficam as lembranças, despertadas subitamente por um som, uma canção, um toque, uma voz, um cheiro…

Por isso a vida vale a pena – somos capazes de experimentar a felicidade e depois viver das migalhas de suas lembranças…