Onde está o meu amor

Olhando o suave movimento das folhas

perguntei-lhes: Onde está o meu amor?

Será que está por perto? Balançando ao vento,

elas assim me disseram: Não! Não! Não!

 

Vi os pássaros brincando, num voo sem

pressa e sem rumo. Disse-lhes: Vocês, aí do alto,

veem mais longe, respondam: Podem ver o meu amor?

Em círculos, se foram gritando: Não! Não! Não!

 

Sentindo o vento passar, gritei-lhe: Escute-me,

você passou tantos lugares, me diga:

Meu amor está chegando? Rindo e sibilando,

passando rápido, avisou: Não! Não! Não!

 

Procurei por todo lado, busquei na terra e no mar.

Onde estará o meu amor? Mas nunca o encontrei.

Voltei triste para meu canto, chorando de dor e de pena,

ali você me esperava, e, abrindo os braços, sorriu…

Cirandando

Eu quero entrar numa ciranda

Uma ciranda só de amor

Se você me ama dá-me um beijo

E um abraço e vá-se embora

Que eu continuo rodando

Procurando onde parar

Outros beijos vou ganhar

Outros abraços eu darei

E depois dizer adeus

E a ciranda continuar

Em minha roda vou rodando

Minha ciranda cirandando

E de tanto cirandar

Você vou reencontrar

E você vai cirandando

Outros beijos vai beijando

Outros abraços abraçando

Até que um dia na ciranda

De tanto que cirandou

Também vai me encontrar

E então juntos nesta vida

Para sempre cirandar

Em nome da Pátria

Aqueles que tombam pela Pátria não morrem, mas se fundem a ela eternamente. (General Osório)

                                     

Olho a imagem – tristíssima – dos soldados trazendo o corpo do companheiro morto em batalha. Vejo em outra foto de hoje a imagem do presidente norte-americano diante do cortejo do retorno de outros soldados mortos nessa guerra insana. E penso porque o presidente dos EUA acaba de ganhar o Prêmio Nobel da Paz mesmo estando em guerra com dois países.

Não entendo se o prêmio foi desmoralizado ou se é a própria guerra que está desmoralizada.

Matar está tão banal, declarar guerra é tão comum, que não impede o Nobel da Paz ao presidente de uma nação em guerra…

Recordo o filme O Retorno de um Herói.

O drama do oficial que resolve aplacar a culpa de não ter ido para a frente da batalha no ato de acompanhar o corpo de um soldado que morreu na longíqua guerra, do momento em que for entregue ao exército até ser finalmente entregue à própria família para o enterro.

Filme de rara poesia, impossível não se envolver e sofrer também.

O respeito com que o corpo é tratado pelos encarregados de prepará-lo. A forma como é carregado para os veículos, as cerimônias de passagem – tudo tocante, emocionante.

E finalmente a dor da família ao receber morto o filho que emprestaram – vivo – à pátria. Para que? Para ir lutar numa guerra que não era dele, talvez nem soubesse direito para onde e para que estava indo. E não voltou. Ou melhor, voltou, mas seus olhos nada viram.

Não viu o carinho com que seu corpo foi manipulado, a emoção que tomou conta de todos os compatriotas que em algum momento estiveram junto na sua última viagem, o drama do oficial que o acompanhou nem os olhos vazios de sua mãe ao receber o caixão.

Vem como um presente – um filho – o corpo de um filho – em uma grande caixa, com bandeira nacional, toque de silêncio, cortejo militar. Mas é um presente às avessas, porque, na verdade, nada está  sendo dado – nem mesmo estão devolvendo o filho emprestado, mas sim enterrando o sonho de uma vida.

Até quando, me pergunto, até quando os homens continuarão a declarar guerra para mandar os filhos alheios morrerem. O homem não evoluiu tanto quanto pensa. Apenas mudou as armas: não joga mais pedras, não usa mais clavas, mas poderosas e mortíferas armas desenvolvidas por cientistas. E hoje a guerra é mostrada via TV ao mundo ao vivo e em cores.

Mas, no íntimo, no funcionamento do cérebro, realmente o homem ainda está na idade da pedra.

(31.10.2009)

Dia de poesia – Vinicius de Moraes – Sacrifício da Aurora

Um dia a aurora chegou-se
Ao meu quarto de marfim
E com seu riso mais doce
Deitou-se junto de mim
Beijei-lhe a boca orvalhada
E a carne tímida e exangue
A carne não tinha sangue
A boca sabia a nada.

Apaixonei-me da Aurora
No meu quarto de marfim
Todo o dia à mesma hora
Amava-a só para mim
Palavras que me dizia
Transfiguravam-se em neve
Era-lhe o peso tão leve
Era-lhe a mão tão macia.

Às vezes me adormecia
No meu quarto de marfim
Para acordar, outro dia
Com a Aurora longe de mim
Meu desespero covarde
Levava-me dia afora
Andando em busca da Aurora
Sem ver Manhã, sem ver Tarde.

Hoje, ai de mim, de cansado
Há dias que até da vida
Durmo com a Noite, ausentado
Da minha Aurora esquecida…
É que apesar de sombria
Prefiro essa grande louca
À Aurora, que além de pouca
É fria, meu Deus, é fria!

Venha de braços abertos

Quando você vier

Venha de braços abertos

Para um abraço sonhado e desejado

Que não aguenta mais esperar

Mas venha também com o sorriso aberto

Os olhos brilhando de alegria

Venha alegrar esses outros olhos

Que não querem mais chorar

E venha ainda com coração aberto

Ao encontro deste outro coração

Que se abriu, que amou, que sangrou

E mesmo assim não desistiu de amar

Porque quem esperou por tanto tempo

Sofreu toda a tristeza da separação

Não desistiu em tantas dificuldades

E está aqui firme, esperando sua volta

Está com os braços abertos,

O sorriso, e o coração abertos, transbordando

De saudade, cheios de tanta ausência e

Carentes desse abraço tão sonhado

Da alegria que só esse sorriso poderá trazer

E do calor que virá do seu coração.

Por isso, o mais cedo que puder, venha.

Venha, e já chegue com os braços abertos

Caminhos pisados

Passo em ruas passadas, conhecidas, tão já vistas e caminhadas. Periodicamente tudo muda. Lojas adoráveis se fecham. Nunca mais abre nada no lugar, fica aquele vazio feio, todo pichado, no meio dos outros. Outras, feias e sem graça, se fecham e ali se abre um nova loja linda, atraente, que alegra o local.

Muitas são imprescindíveis, e um dia suas portas permanecem cerradas. Ela se foi. O que vem no lugar não traz a mesma utilidade. Ou o contrário.

A verdade é que tudo muda. O que foi já não é, se tinha, já não tem… e temos de continuar vivendo e tocando nossa vida da mesma forma, como se nada fizesse parte dela.

Sempre esperando que tudo melhore, que venham boas pessoas, ótimas lojas, excelentes prestadores de serviço. Mas nem sempre é assim.

Isso nas ruas pelas quais caminhamos.

E na vida, os caminhos do coração? Acontece a mesma coisa…

Passamos sempre os mesmos atalhos já pisados, e pessoas que ali estavam já se foram. Outras – piores ou melhores – vieram para ocupar esses lugares.

Algumas pessoas são tão especiais, tão insubstituíveis, que o lugar que deixam dentro de nós ficará vazio para sempre.

Outras nós temos de tirar à força dali pelo mal que nos está causando e ficar na esperança que seu lugar seja preenchido por alguém que mereça estar em nosso coração.

Mas o mais triste são as pessoas que julgamos maravilhosas e insubstituíveis, que, simplesmente, num de repente qualquer da vida, saem de nosso coração e desaparecem.