Último poema

 

Era apenas uma lágrima. Gota quente que brotou dos olhos

Na fria madrugada ao receber a mensagem do já esperado adeus.

Esperado, não desejado, não provocado, mas sinalizado.

E a lágrima, lentamente desceu pela face, esfriando e a marcando.

Outras vieram em seguida. Quentes, misturavam-se, e ao final

Todas estavam frias, como era fria aquela triste madrugada.

Geladas, chegaram ao coração. Que até então batia aquecido

Na paixão ardente que o embalava nos últimos anos.

O coração gelou e congelou o sangue. A aurora, mais fria ainda

Aproximou-se e entrou de mansinho, tentando dar um consolo

Àquela alma que se contorcia na dor da perda inexplicada.

A doçura e a mansidão dessa alma a mantiveram em silêncio.

O dia amanheceu, radiante e ensolarado, secando as últimas

Lágrimas que insistiam em cair. E aquela intensa dor da alma

Se transformou em dor física. E tomou conta de todo o corpo.

Anoitecera e adormecera no calor de uma paixão tão linda

Mas amanheceu na solidão silenciosa e dolorida do abandono,

Que cortava como faca afiada. O sol avisou que a vida continuava.

Devastada, aos pedaços, mas não viva, pois algo morrera por dentro,

Levantou-se e enfrentou o dia, já inundada de uma saudade que

Sabe jamais saciada, e se pergunta agora como seguir em frente

Com todos seus sonhos pisoteados, quando nada mais tem a esperar…

Meu encanto

Foi um vendaval – um forte e quente vento de verão

Que se aproveitou de uma janela esquecida aberta

E subitamente adentrou neste velho coração

E trouxe dúvidas para a essa vida que estava certa

 

Não consegui contê-lo, e assim também não me contive

E se anoiteci na rotina de tantas tristezas antigas

Amanheci renovada, na paixão incontida

Reavivada no calor dessas lembranças amigas

 

Tsunami, temporal, sensações passadas

Desejo, saudade, palavras esquecidas

Torvelinho fatal do que estava resolvido

 

Fecho hoje com cuidado as janelas – agora já cerradas

E as cinzas, que esvoaçaram doidas, voltam, entristecidas

A cobrir de novo as brasas de um coração adormecido.

Amor 37 anos depois

Ganho de brinde uma revista – “TODOS”, em uma farmácia.

Leio tudo que tem letra – leio até sopa se o macarrão for de letrinhas. Então começo a ler a revista. Interessante. Vários depoimentos, superação, histórias de pessoas tipo “gente como a gente”.

Aí vem a reportagem da capa “A emoção do reencontro”.

É a história de Rosângela e Hugo. Foram namorados, noivos e, sem explicação, ela terminou tudo. Sofreram separados. E assim permaneceram.

Cada um seguiu sua vida, tiveram seus casamentos, suas separações.

Um dia, já sozinho, Hugo liga para ela e pede para conversarem. Quando se encontram, a antiga paixão explode. Eles voltaram a sentir o mesmo da juventude. E finalmente, 37 – trinta e sete – anos depois, eles se casaram.

Penso a respeito disso que li. A historia se repete, com variações, como um tema musical.

Vejo que algumas vezes, mesmo devastados, com o coração em farrapos, temos de seguir adiante, deixando o amor/paixão para trás. E, aos trancos, voltamos a viver.

Chegamos ao ponto de ignorar completamente nosso passado, negar o amor que sentimos e simular novo amor, nova paixão, ter outros relacionamentos.

Mas, no íntimo, sabemos que deixamos – bem lá atrás – uma porta aberta. Deixamos de propósito ou por um lapso da paixão.

E essa paixão não vivida nos assombrará nas madrugadas frias e nos momentos de solidão. Mesmo assim a negaremos.

Feliz quem um dia volta a olhar nos olhos de quem tanto amou a vida toda. Como nesse caso de Rosângela e Hugo, que voltaram a se encontrar 37 anos depois da separação.

E se deram uma segunda chance e são felizes.

Que surpresas a vida guarda para cada um de nós?

Para se pensar

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. (Fernando Pessoa)

Ontem ouvi o relato do suicídio de uma garota – estava com depressão e a família não conseguiu ajuda-la. Os pais, obviamente, estão devastados. 

Além do choque para as pessoas que convivem com o suicida e ficam estarrecidos com aquela morte, fica o invencível e inevitável sentimento de ter falhado.

Falhado porque não percebeu o desespero daquela alma, falhado por não ter tirado a cortina negra que escurecia os pensamentos do suicida, falhado por não ter evitado o gesto.

Mas ninguém poderia evitar o suicídio em si.

Depois que a decisão de morrer é tomada, dificilmente alguém poderá evitar esse ato.

Convivi com alguns suicidas, chorei suas mortes e sei que ninguém tem culpa do ocorrido. Mas é difícil, muito difícil, conviver com a sensação que poderíamos ter feito alguma coisa e nada fizemos. Inevitável sentirmo-nos assim.

E o que é o suicídio? Um gesto de coragem ou covardia? Um gesto de desespero ou esperança em algo melhor?

Alguns casos podem-se entender, pessoas que estão acometidas de moléstias terríveis, sem qualquer chance ou esperança de cura, sofrendo no corpo as dificuldades da doença e na alma a falta de motivo para continuar vivo… até se entende, embora a religião nos ensine que a morte pertence ao Pai e somente ele poderá tirar-nos a vida.

Mas outros casos, a jovem que perdeu o ano na faculdade, a mulher madura e centrada que se aposentou e não mais se sentiu viva, o amigo que se viu envolvido em um processo judicial quase kafkaniano…

E assim eles foram ficando pelo caminho, enquanto outros enfrentaram as mesmas situações – doenças, velhice, processos, divórcios, perdas de filhos e continuaram vivos dando testemunho de uma fé inabalável na vida e no sentimento que não há caminho predeterminado, que fazemos nosso caminho ao caminhar.

Quando penso nesses assuntos lembro-me de  palavras do Padre José Mário Ribeiro: “Deus deu a vida – e não a morte – ao homem. Então devemos cuidar da nossa vida com muito carinho e desvelo, porque teremos que prestar contas deste dom ao Criador. Mas Deus guardou para si a morte, não a deu ao homem. Por isso devemos viver sem pensar na morte, sabendo que é inevitável e virá para todos, mas não é problema nosso. Na hora certa Deus cuidará de tudo. Não devemos ignorar que a morte existe, mas não devemos buscá-la nem desejá-la.”

E assim Padre Zé Mário me deu uma lição para toda a vida, mas que torna difícil entender a razão dos suicidas.

Há uma estatística que a cada 40 segundos uma pessoa se suicida – isso é um número altíssimo. Já temos notícias de crianças suicidas.

O que está acontecendo com a humanidade? Estamos perdendo o instinto de sobrevivência?

Dia de Poesia – Antonio Carlos Augusto Gama

Lindo poema de meu amigo Antonio Carlos Augusto Gama, ou Gama, ou Gaminha:

 

Algum dia serei pedra
e entre tantas
ela me escolherá
para carregar no dedo

Nalguma primavera serei flor
quiçá amarela
que ela colherá
para entremear nos cabelos

Um dia serei areia
numa praia deserta
e em mim ela deixará
a marca etérea do seu caminho

Nalgum verão serei linho
e ela me vestirá
para sentir na pele nua
o abraço tênue do meu carinho

Alguma vez serei água
e ela me beberá
para matar a sede
que é apenas minha

Enfim já não serei eu
mas ela saberá
que fui somente seu