É nas minhas madrugadas
que mais sinto a tua ausência
depois de mais uma noite
em que a solidão
dormiu na minha cama.
Na minha mão,
não sinto a tua mão,
no meu peito,
não sinto o teu braço,
e o calor da perna
que traçavas sobre a minha
é agora ausente
e parte de um sonho amordaçado.
O tempo do amor
diluiu-se nos dias de tristeza incontida,
e as luzes que nos iluminavam
deixaram morrer as flores
que trazíamos sedentas
dentro de nós.
As sombras desceram sobre a nossa paixão,
cobrindo de espanto e de dúvidas,
os dias de amor, antes fácil,
destruindo as searas que lavrávamos,
nos nossos corpos e na nossa alma.
Mas é nas madrugadas,
que te revejo e ainda te sinto presente,
sem encontrar solução
para a dor que trago no peito,
e o arrependimento de te deixar partir
deste corpo e desta mente
carente e amordaçada,
como um castelo desmoronado,
por um simples sopro de uma mulher,
que me amarrou,
nas linhas do seu cabelo,
e me deixou exausto de sede e de fome,
na solidão de um amor inacabado.
Livros e mais livros
Olho à minha volta e vejo livros.
Livros no escritório, livros na sala, livros na mesinha de cabeceira no quarto…(e na cozinha alguns livros de culinária). Moro em mais de uma casa, e, ao todo, são milhares de livros. Que sempre fazem falta na casa em que não estão.
Além de ler preciso TER os livros. Preciso de sua forma, seu cheiro, seu toque, sou altamente viciada em livros. Por vezes leio um livro, fico em êxtase, volto à livraria para comprar mais cinco e seis para dar de presente.
E, com alguma apreensão, volta e meio tenho notícia a tentativa da limpeza étnica que pretendem fazer com relação aos livros, substituindo-os pelos – atualmente – e.books – já houve outros nomes, em tentativas que não deram certo.
Ainda menina nova assisti a um filme aterrador: Fahrenheit 451. Esse é o grau de destruição na escala Fahrenheit, e era sobre uma sociedade totalitária onde a leitura era proibida e os livros queimados. Saí do cinema em estado de choque, só de pensar que um dia poderia vir a ser verdade (quantos filmes de ficção hoje são pura realidade?), e havia no filme a terra dos homens-livros, que decoravam os livros e pretendiam republicá-los quando não mais fosse crime.
Nunca me dediquei a decorar um livro (não decoro nada – de tanto ler algumas poesias ficaram gravadas em minha mente, como seres vivos que ali se alojaram, mas não por esforço de decorar) – porque decorar um livro não me satisfaria – preciso do livro de papel para segurar, para sentir.
Quando estou terminando um livro que tenha particularmente me agradado, de preferência grosso, começo a sentir uma nostalgia do livro que se finda, da saudade que terei dos personagens que ficarão dentro daqueles papéis depois que o fechar e o devolver à estante.
Por isso sofro só de pensar em uma sociedade onde não mais teremos livros de papel, mas maquininhas de leitura.
Não sobreviverei. Tenho certeza.
Dia de poesia – Tito Ferreira – Rumo (Um Pequeno Ditirambo)
Vez em quando,
ao escrever um poema,
sob o efeito de álcool e de fumo,
eu tropeço num ou noutro verso
e logo perco o rumo.
Embrenho por outros caminhos,
ora cascalhos,
ora espinhos,
mas ainda assim sigo em frente,
teimoso,
persistente,
tratando a minha velha caneta
como se ela fosse gente.
Personal killer – escrito em 20.06.2012

– Faz mais uma vez…
– Só mais três…
– Só mais dois…
– Aguenta mais um pouquinho, só trinta segundinhos (como se existissem segundões, segundos e segundinhos)…
E assim Fabrício – o personal killer – vai me alongando…
Acho que depois de cada sessão de ginástica fico um pouquinho mais alta…
É um tal de puxa daqui, segura dali, respira fundo, solta o ar devagar, contrai musculatura de um lado, sente puxar musculatura do outro…
E vamos mais uma vez, começa tudo de novo.
– Agora equilíbrio…
Pensam que é fácil se exercitar sobre uma perna, trabalhar a outra perna no ar, quase flutuar, pensar que conseguirá voar um dia???
– Sentiu a perna? então inverte, agora com a outra…
E agachamento… sentar sem cadeira…
– Vamos lá, vamos fazer vinte repetições hoje. Segura mais tempo na última, respira fundo.
– Ótimo! (que delícia ouvir esse Ótimo! – significa que aquela parte do matadouro foi superada).
– Trabalhando o adutor, força no adutor.
Êita músculo difícil de ser alongado…
– Só mais um segundinho, vamos lá…
– Sentiu puxar?
E assim eu sigo, semana após semana, alternando a ginástica com as diárias caminhadas, que é a parte aeróbica e que eu mais gosto.
Mas além de brasileira sou corinthiana, por isso não desisto nunca.
E, depois de um bom banho relaxante, a sensação é que, além de crescer um pouco, alguns gramas me abandonaram, fico mais leve.
Só não consigo entender pessoas que dizem detestar ginástica. Não sabem o que perdem…
É primavera!
Exatamente hoje, às 4h50, iniciou-se a primavera. A mais romântica estação do ano.
Por que hoje? Por que às 4h50? Quem marca esses dados? Algum instituto, onu, nasa, ongs? Não. O início da primavera é marcado pelo famoso desconhecido equinócio – definido como “momento em que o Sol, em seu movimento anual aparente, corta o equador celeste, fazendo com que o dia e a noite tenham igual duração.”
Ou seja, põe fim às longas noites do inverno.
Precisamos do inverno. A terra repousa, a temperatura cai, a natureza se recolhe. O sol – especialmente no hemisfério norte – já não é tão frequente. Mas, por mais que se aprecie o tempo do inverno, sem dúvida alguma também necessitamos que ele acabe e o calor volte, a terra renasça e a natureza se torne exuberante.
Esse o equilíbrio do clima. Esse é desenrolar natural da vida.
E então entramos na primavera. Com muitas promessas no ar – novas chuvas, novas safras, novas paixões. A vida renascendo em todos os sentidos.
E a poesia das flores e dos pássaros a enfeitar a natureza.
Ela não dura para sempre. Chega a seu fim, inexoravelmente, em 22 de dezembro, para dar lugar ao verão.
E quando acabará a doce primavera? No domingo, 22 de dezembro, à 1h19. Quando ocorrerá o solstício – “na astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do equador.”
Mas o mais romântico da primavera, na minha opinião, são os fenômenos que a delimitam: a primavera se inicia no equinócio da primavera e vai ate o solstício de verão.
Sua efêmera duração é de um equinócio até um solstício. Isso, por si só, é poesia.
No silêncio
Quando a ausência é a presença possível
A solidão se torna a única companhia
E a distância voltou a se instalar entre nós
A saudade tudo cobriu com seu manto de
Tantas lembranças e tristeza
Percebi, então, nessa hora que
Foi no seu silêncio que mais ouvi sua voz.
E que foi então quando me calei que
mais eu disse o que sentia.