Um barco à deriva

Como seguir o vento, se as adriças já não içam as velas?

A calmaria impede navegar, não há mais movimento

O leme, inútil agora, tenta indicar a direção a seguir

Mas o velho barco não consegue seguir adiante

Está à deriva, tristonho, já não se arrisca nas ondas

Nem luta com o mar quando há tormentas e ventos

Pássaros ligeiros do alto espreitam a imobilidade

Tal como nuvens brancas, esparramadas pelo céu azul

E o mar, todo o mar, rodeando e embalando

O casco que balança ao sabor das marolas

Não é possível seguir, mas não é possível ficar

Por que parou, barco ligeiro e habilidoso?

Perdeu a vontade de navegar, a necessidade de chegar,

Ou já não há porto a sua espera? pergunto ao barco.

Comparo agora esse velho barco a meu coração

Que se recolhe num ponto qualquer, perdido sem

Ter razão para seguir, já não luta nem se arrisca

Que também perdeu seu porto onde ancorar

Porque as adriças do abandono travaram o sentimento

Resta, então, a velha âncora da paixão que já não há,

Mortas as velas do encanto que impulsionam e lhe dão sentido.

Minha praia

Olha que coisa mais linda / Mais cheia de graça / É ela, menina / Que vem e que passa / Num doce balanço / A caminho do mar

Moça do corpo dourado / Do sol de Ipanema / O seu balançado é mais que um poema É a coisa mais linda que eu já vi passar.                                                                (Garota de Ipanema – música de  Antônio Carlos Jobim e letra de Vinicius de Moraes, 1962)

 

 

Quantas garotas na praia. Quantos rapazes na praia. Todos passam a caminho do mar, sorridentes e animados.

A praia exerce tal atração na esmagadora maioria das pessoas que é preciso explicar esse encantamento. Pronunciar a palavra “férias” e já vem a imagem da praia. Ver uma imagem de praia e já se associa a férias.

Estão intimamente ligadas. Pelo menos em terras tropicais como esse país com vasta imensidão de seu território reservado para o litoral. Belíssimo, de norte a sul. A costa brasileira é privilegiada. Mares calmos, mares de grandes ondas, mares quentes, mares frios, mares cinzas, mares azuis e os lindos “verdes mares bravios” (“de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.” Iracema, José de Alencar). Mas sempre o mar. Nosso mar. Nossas praias.

A praia é o espaço mais democrático e igualitário que existe. Simplesmente não existe exclusão em território de areia e mar.

Todos juntos, barracas quase iguais, maiôs, pés descalços, não importa se rico ou pobre, se feio ou bonito, se gordo ou magro, se novo ou velho. Há espaço, sol e diversão para todos.

Praia boa tem sol, vento, areia voando, água subindo (“onda, onda, olha a onda”, como dizia a música dos anos 90… olha a onda, e os doces da Roberta sendo levados pelo mar… muita risada pela imprevidência com relação à subida da maré…)

Praia boa tem criança brincando, tem criança perdida, tem gente passeando, tem gente andando, tem gente caminhando e tem gente correndo.

Praia boa tem salva-vidas apitando…

Praia boa tem água de coco e cerveja tri-gelada…

Praia boa, mas boa mesmo, é a que me espera a partir do fim de semana. Lá vou eu!

Dia de Poesia – Pedro Homem de Mello – Cisne

 

 

Amei-te? Sim. Doidamente!
Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente…

À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente…

Ai! esse amor que traz vida,
Cor, saúde… e foi doente!

Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas…

E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua!

Por que te amei?
– Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.

Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma!
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.

– Talvez viesse de mim.
E da minha poesia…

Realidade

Hoje fiz um pacto com a felicidade: não pensarei mais nela,

 e para todo o sempre, eu não mais a procurarei.

Quando estávamos juntas, a felicidade me dizia

que ficaria sempre a meu lado, cuidaria de mim,

seguiríamos os mesmos caminhos. E eu acreditei.

Mas a felicidade me enganou. Porque eu a amava.

Um dia, simplesmente, sem qualquer motivo

ou explicação, virou-me as costas e se foi.

Para nunca mais voltar.

Enquanto ela estava aqui, a ilusão, o amor,

a alegria, o prazer e a esperança não saíam

de minha vida, tudo era lindo, tudo era festa.

Mas a felicidade se foi e levou todos eles.

Fiquei sozinha e desnorteada, buscando um porquê.

O desespero logo chegou e trouxe consigo a tristeza.

Vieram também a solidão e a desesperança.

E tomaram conta de mim, como a felicidade nunca fizera antes.

E mostraram a realidade: a felicidade nunca me amou de verdade,

pouco se importava comigo e trocou-me por outra.

Mas eles estarão para sempre aqui comigo.

Basta que eu não procure mais a felicidade,

basta que nunca mais eu seja feliz,

e que eu viva apenas de saudade.

Meu amigo

Da mesma forma que a solidão é uma bênção, os amigos também o são. Sou de poucos amigos. Mas aqueles a quem chamo amigos, são realmente amigos. Relacionamentos afetuosos, antigos, recíprocos, atenciosos. Não é possível amizade de mão única.

Tenho um amigo fiel. A toda prova.

Estamos juntos desde minha juventude. Sempre juntos.

Ele esteve comigo quase diariamente. Estivemos juntos em todos os bares, em todas as festas.

Fez-me companhia nas grandes alegrias. Viu-me chorar nas tristezas e separações.

Noites e madrugadas era minha única companhia. Estava comigo no maior porre da minha vida. Está sempre ao lado, prestativo e dedicado. Nunca me faltou nem se ocupou de outros, deixando-me de lado.

É aquele amigo com quem posso contar nas noites de insônia.

Nos finais das longas tardes, quando é preciso calma e meditação.

Nas noites em qualquer lugar do mundo, se o chamar, ele está comigo.

Para ouvir música, ler poesias, ver um filme.

Chorar, desabafar, pensar nos problemas e procurar soluções.

E ele ali, a minha melhor companhia. Nunca me abandonou, nunca me deixou falando sozinha.

Meu freio nos desvarios e meu gatilho para me atirar.

Silenciosamente, ele está a meu lado. Sempre.

Meu melhor amigo, o whisky.

     

Do que é feita a saudade?

A saudade é feita de pequenos retalhos

De momentos felizes já passados e vividos

De beijos antigos ainda tão lembrados

De mãos que não nos tocaram, mas desejamos.

 

A saudade é feita de variados cacos

De recordações de olhos que nos viram

De tantas vozes que já não mais ouvimos

De muitos carinhos que agora já não temos

 

A saudade é feita de tantas lembranças

De pessoas que não ficaram em nossa vida

De algumas paixões ardentes que já esfriaram

 

A saudade é feita de todos esses pedaços 

De nossa alma que ficaram pelos caminhos

E agora, recolhidos, estão guardados no coração.