Dia de poesia – Vinicius de Moraes – Sacrifício da Aurora

Um dia a aurora chegou-se
Ao meu quarto de marfim
E com seu riso mais doce
Deitou-se junto de mim
Beijei-lhe a boca orvalhada
E a carne tímida e exangue
A carne não tinha sangue
A boca sabia a nada.

Apaixonei-me da Aurora
No meu quarto de marfim
Todo o dia à mesma hora
Amava-a só para mim
Palavras que me dizia
Transfiguravam-se em neve
Era-lhe o peso tão leve
Era-lhe a mão tão macia.

Às vezes me adormecia
No meu quarto de marfim
Para acordar, outro dia
Com a Aurora longe de mim
Meu desespero covarde
Levava-me dia afora
Andando em busca da Aurora
Sem ver Manhã, sem ver Tarde.

Hoje, ai de mim, de cansado
Há dias que até da vida
Durmo com a Noite, ausentado
Da minha Aurora esquecida…
É que apesar de sombria
Prefiro essa grande louca
À Aurora, que além de pouca
É fria, meu Deus, é fria!

Venha de braços abertos

Quando você vier

Venha de braços abertos

Para um abraço sonhado e desejado

Que não aguenta mais esperar

Mas venha também com o sorriso aberto

Os olhos brilhando de alegria

Venha alegrar esses outros olhos

Que não querem mais chorar

E venha ainda com coração aberto

Ao encontro deste outro coração

Que se abriu, que amou, que sangrou

E mesmo assim não desistiu de amar

Porque quem esperou por tanto tempo

Sofreu toda a tristeza da separação

Não desistiu em tantas dificuldades

E está aqui firme, esperando sua volta

Está com os braços abertos,

O sorriso, e o coração abertos, transbordando

De saudade, cheios de tanta ausência e

Carentes desse abraço tão sonhado

Da alegria que só esse sorriso poderá trazer

E do calor que virá do seu coração.

Por isso, o mais cedo que puder, venha.

Venha, e já chegue com os braços abertos

Caminhos pisados

Passo em ruas passadas, conhecidas, tão já vistas e caminhadas. Periodicamente tudo muda. Lojas adoráveis se fecham. Nunca mais abre nada no lugar, fica aquele vazio feio, todo pichado, no meio dos outros. Outras, feias e sem graça, se fecham e ali se abre um nova loja linda, atraente, que alegra o local.

Muitas são imprescindíveis, e um dia suas portas permanecem cerradas. Ela se foi. O que vem no lugar não traz a mesma utilidade. Ou o contrário.

A verdade é que tudo muda. O que foi já não é, se tinha, já não tem… e temos de continuar vivendo e tocando nossa vida da mesma forma, como se nada fizesse parte dela.

Sempre esperando que tudo melhore, que venham boas pessoas, ótimas lojas, excelentes prestadores de serviço. Mas nem sempre é assim.

Isso nas ruas pelas quais caminhamos.

E na vida, os caminhos do coração? Acontece a mesma coisa…

Passamos sempre os mesmos atalhos já pisados, e pessoas que ali estavam já se foram. Outras – piores ou melhores – vieram para ocupar esses lugares.

Algumas pessoas são tão especiais, tão insubstituíveis, que o lugar que deixam dentro de nós ficará vazio para sempre.

Outras nós temos de tirar à força dali pelo mal que nos está causando e ficar na esperança que seu lugar seja preenchido por alguém que mereça estar em nosso coração.

Mas o mais triste são as pessoas que julgamos maravilhosas e insubstituíveis, que, simplesmente, num de repente qualquer da vida, saem de nosso coração e desaparecem.

Dia de Poesia – João M C Gomes

É nas minhas madrugadas
que mais sinto a tua ausência
depois de mais uma noite
em que a solidão
dormiu na minha cama.
Na minha mão,
não sinto a tua mão,
no meu peito,
não sinto o teu braço,
e o calor da perna
que traçavas sobre a minha
é agora ausente
e parte de um sonho amordaçado.
O tempo do amor
diluiu-se nos dias de tristeza incontida,
e as luzes que nos iluminavam
deixaram morrer as flores
que trazíamos sedentas
dentro de nós.
As sombras desceram sobre a nossa paixão,
cobrindo de espanto e de dúvidas,
os dias de amor, antes fácil,
destruindo as searas que lavrávamos,
nos nossos corpos e na nossa alma.
Mas é nas madrugadas,
que te revejo e ainda te sinto presente,
sem encontrar solução
para a dor que trago no peito,
e o arrependimento de te deixar partir
deste corpo e desta mente
carente e amordaçada,
como um castelo desmoronado,
por um simples sopro de uma mulher,
que me amarrou,
nas linhas do seu cabelo,
e me deixou exausto de sede e de fome,
na solidão de um amor inacabado.

Livros e mais livros

Olho à minha volta e vejo livros. 

Livros no escritório, livros na sala, livros na mesinha de  cabeceira no quarto…(e na cozinha alguns livros de culinária). Moro em mais de uma casa, e, ao todo, são milhares de livros. Que sempre fazem falta na casa em que não estão. 

Além de ler preciso TER os livros. Preciso de sua forma, seu cheiro, seu toque, sou altamente viciada em livros. Por vezes leio um livro, fico em êxtase, volto à livraria para comprar mais cinco e seis para dar de presente. 

E, com alguma apreensão, volta e meio tenho notícia a tentativa da limpeza étnica que pretendem fazer com relação aos livros, substituindo-os pelos – atualmente – e.books – já houve outros nomes, em tentativas que não deram certo. 

Ainda menina nova assisti a um filme aterrador: Fahrenheit 451. Esse é o grau de destruição na escala Fahrenheit, e era sobre uma sociedade totalitária onde a leitura era proibida e os livros queimados. Saí do cinema em estado de choque, só de pensar que um dia poderia vir a ser verdade (quantos filmes de ficção hoje são pura realidade?), e havia no filme a terra dos homens-livros, que decoravam os livros e pretendiam republicá-los quando não mais fosse crime. 

Nunca me dediquei a decorar um livro (não decoro nada – de tanto ler algumas poesias ficaram gravadas em minha mente, como seres vivos que ali se alojaram, mas não por esforço de decorar) – porque decorar um livro não me satisfaria – preciso do livro de papel para segurar, para sentir. 

Quando estou terminando um livro que tenha particularmente me agradado, de preferência grosso, começo a sentir uma nostalgia do livro que se finda, da saudade que terei dos personagens que ficarão dentro daqueles papéis depois que o fechar e o devolver à estante.

Por isso sofro só de pensar em uma sociedade onde não mais teremos livros de papel, mas maquininhas de leitura. 

Não sobreviverei. Tenho certeza.