Perceber e saber

“Envelhecer é passar da paixão à compaixão”. (Albert Camus)

Você percebe que está envelhecendo quando olha para cima na sua família e cada vez tem menos membros ali, e quando olha para baixo vê a multiplicação geométrica de filhos, sobrinhos, netos …

Você sabe que já envelheceu quando é o membro do ponto mais alto da família.

Você percebe que está envelhecendo quando começa a gostar do risoto de frango que considerava comida de doente.

Você sabe que já envelheceu quando começa a dispensar o frango e come só o arroz, bem pastoso.

Você percebe que está envelhecendo quando passa a usar um par de óculos para ver de perto e outro para enxergar longe.

Você sabe que já envelheceu quando passa a usar óculos.

Você percebe que está envelhecendo quando nota que já não tem aquele pique de chegar correndo, tomar um banho, deitar para uma descansadinha e sair com todo prazer novinho para a noite.

Você sabe que já envelheceu quando seu maior prazer é chegar, tomar um banho e deitar.

Você percebe que está envelhecendo quando começa a achar longe a praia, para onde viajava todo fim de semana, a fazenda para onde ia uma vez por mês.

Você sabe que já envelheceu quando o supermercado e a farmácia da esquina ficam insuportavelmente distantes.

Você percebe que está envelhecendo quando sair com a moto aos domingos virou obrigação e já não é mais uma prazer.

Você sabe que envelheceu quando vende a moto.

Você percebe que está envelhecendo quando passa a ter o maior cuidado ao pentear os cabelos para disfarçar falhas e entradas

Você sabe que já envelheceu quando já não tem mais cabelos para pentear.

Você percebe que está envelhecendo quando sente que suas costas doem ao levantar; suas costas doem depois da caminhada matinal; suas costas doem durante o trabalho no computador à tarde, suas costas doem quando assiste televisão à noite.

Você sabe que já envelheceu quando suas costas doem.

Solidão

“La solitude est à l’esprit ce que la diète est au corps, mortelle lorsqu’elle est trop longue, quoique nécessaire”.

 (Marquis de Vauvenargues, Réflexions et Maximes)

 

 Você viaja e eu fico aqui sozinha novamente. Parece que uma lâmpada se apaga nesta casa. Resta claridade suficiente para seguir adiante, mas há um escuro vindo de algum lugar.

Vejo então o quanto você preenche minha vida e meu tempo.

Aceito com serenidade sua ausência, entendo a razão do afastamento.

Mas nem por isso gosto dessa solidão silenciosa em que permaneço.

Sua falta me atinge de todas as maneiras.

Às vezes como uma quieta faca que penetra na carne e faz sangrar.

Às vezes como um grito contido na garganta  que derrama adrenalina pelo chão.

Sei que não durará muito tempo. Você voltará. E juntos seguiremos nessa cumplicidade gostosa que nos une há mais de vinte anos.

Já nos incorporamos. Somos parte um do outro.

Há – porque é imperativo – vida sem você. Mas é incompleta.

Sinto-me como a ave que perdeu uma asa – sabe voar, tem natureza para voar, mas não voa. E descubro que minha outra asa é você. E são necessárias duas asas para voar.

Esses períodos solitários se tornam propícios para o recolhimento e a meditação.

E os aproveito para isso mesmo.

Livros que esperam para ser lidos, filmes que pacientemente aguardam sua vez de serem vistos.

Nessas horas fica fácil estar sozinha.

De certa forma alguns períodos de solidão são bem vindos, frutíferos, mas jamais agradáveis e desejados.

São circunstanciais, necessários em vista do ritmo da vida moderna, onde os interesses não são maleáveis para que sejam adaptados às possibilidades dos dois – cada um cuida de seus interesses e suas necessidades, porque é impossível que tudo seja feita em conjunto.

Tentamos sempre coordenar o tempo para estarmos juntos, mas atualmente não há chance de você ficar sempre aqui ou só viajar em alguns fins de semana por dois ou três dias quando eu tenho minhas folgas.

Então você vai sozinho. E eu fico aqui também sozinha. São duas solidões inconciliáveis.

E que só se aplacam quando nos juntamos novamente.

E eu, particularmente, me sinto bem sozinha, não sou de multidões, gosto de ficar em casa sossegada, mesmo sozinha.

Mas na grande parte do tempo, não posso negar, que sinto imensamente sua falta.

Vou guardando notícias, mensagens e sensações para quando você chegar.

E preparando a casa, e preparando o vinho, porque sua volta é sempre uma festa.

                                                                                                             (Guarujá, 15.05.2009)

Mudanças de hábitos

Conforme o tempo passa nossas vontades, nossos gostos vão se alterando. Coisas importantes, cuja falta seria fatal, já não importam.

Pessoas sem as quais não viveríamos se desfazem na fumaça do esquecimento.

Outras prioridades vêm e tomam conta do pensamento, do desejo e da necessidade.

Acho que isso é amadurecimento – ou envelhecer mesmo.

Por exemplo, coca-cola. Fazia parte da dieta, da rotina, de tudo. Agora passo meses sem um copo de coca-cola e descobri que não morri por isso, embora imaginasse, antigamente, que não sobreviveria sem ela.

Outra coisa é viajar.

Sempre adorei viajar.

Sempre estive pronta para pegar a mala (malinha, que não gosto de carregar a casa quando saio) e ir. Ia para todo lado. Sozinha, acompanhada, com todo mundo, com alguém… Mas ia.

Pegava o carro e cortava estrada para qualquer lado que me atraísse. Era um prazer dirigir, viajar sozinha. Hoje pago para não chegar perto de um volante (confesso que metade do problema são esses indecentes motoqueiros – cabriteiros, porque aquelas maquininhas estão mais para cabritas do que para motos). Se posso vou de táxi em todo lugar só para não tirar o carro da garagem.

Dirigir hoje, para mim, é castigo.

Também avião.

Avião era sapato, usava para me deslocar sem qualquer problema.

Agora estou acomodada – ou preguiçosa…

Só de pensar em aeroporto me dá arrepio.

Tenho uma vontade etérea de ir a Paris. Um desejo constante de estar lá.

Mas não tenho a menor vontade de ir até Paris. Não consigo mais me imaginar dando plantão no aeroporto, enfrentando a falta de educação da maioria das pessoas no interior do avião. A neura dos policiais aeroportuários, a esteira da bagagem.

Iria, feliz, se pudesse ser teletransportada.

Será que isso é envelhecer?

Voltando

Um dia, em um de repente da vida, eu me vi blogueira.


Tudo muito novo, nova forma de comunicação, mas envolvia letras. As letras com quem convivo desde sempre.


Da mesma forma que um dia os adultos perceberam que aquela menininha não “brincava” com livrinhos velhos e jornais, mas ela os lia. Nunca foi ensinada. Soube desde sempre.


E, de tanto ler, comecei a escrever. O blog virou livro, com publicação de parte de suas crônicas.


E depois os escritos se tornaram poesias e veio novo livro – de musa a poetisa…


Recomeço agora, neste espaço, o meu blog Alinhavando letras. E continuarei aqui a alinhavá-las com cuidado e carinho, sempre os inúmeros afazeres que consomem quase todo meu tempo assim permitirem.


Espero vocês aqui. Deixem sua mensagem, não passem em branco!

Poesia da casa – Taquicardia

Coração, por favor, s’assossegue!


Assim você incomoda – bata mais devagar,


dentro de um só compasso, sem pressa,


não tente bater tudo de uma vez,


que você ainda não vai descansar:


a sua vez de parar vai demorar acontecer;


então se poupe, meu lindo,


e me deixe, ao menos, respirar!