Saudade encantada

É preferível a dor da saudade encantada à tristeza de uma presença encarcerada

 

Mudamos quando lemos Rubem Alves. E para melhor.

Suas idéias, suas crônicas, seus livros, seus ensinamentos. E também suas Estórias para pequenos e grandes.

Eu usava essa frase da abertura de hoje no meu MSN – e a curiosidade era incontida: quem era a saudade encantada, quem era a presença encarcerada? Não sei, eu respondia, não é comigo, essa frase não é minha.

É apenas uma frase – lindíssima – de A Volta do Pássaro Encantado. Que tanto me encantou.

Talvez por tê-lo lido em um dos momentos mais delicados que passei na vida, inclusive foi lido na sala de espera de um consultório médico.

E fui atrás, comprei e o trago comigo para lê-lo sempre.

Ninguém é a saudade encantada. Ninguém é a presença encarcerada. Ao mesmo tempo somos – todos – saudades encantadas e presenças encarceradas.

Atire a primeira pedra quem nunca teve vontade de cortar as amarras e voar. Mas não o fez porque alguém – companheiros, filhos, pais – não sobreviveriam Ainda bem que essa vontade passa logo, dura pouquinho, só o suficiente para abrirmos os olhos da alma para sonharmos acordados.

E quem nunca foi presença encarcerada – em casa, no trabalho, na escola. Apenas por obrigação. E a alma nublada da tristeza de querer estar muito longe dali.

E se pensarmos em todas as pessoas que passaram pela nossa vida e já não mais estão aqui – mudanças, separações, mortes, quantas saudades encantadas trazemos dentro de nós que nos dão alento para continuarmos lutando. Todas essas saudades encantadas, que nasceram do não-mais-ver, da separação imposta, mas que enchem de encanto o mundo das lembranças.

E não podemos, então, deixar de pensar nas pessoas que estão hoje do nosso lado, mas são apenas presenças encarceradas… Cujas gaiolas, por covardia, comodismo e insegurança nos recusamos a abrir, porque não sabemos se resistiremos à saudade encantada de sua liberdade.

Vocês se lembram? Já contei a estória do Pássaro Encantado de muitas cores, que amava a Menina… Mas sempre chegava a hora em que ele dizia:

“É preciso partir, ficar longe por muito tempo, para que a saudade cresça, e dentro dela o encanto!”

E ele voava…

A Menina ficava, e chorava. Até que não mais agüentou a dor da saudade e prendeu o Pássaro numa gaiola de prata, para que nunca mais a deixasse.

Ele ficou, mas murchou. Seus olhos se entristeceram e suas cores se apagaram. Acabou também a saudade, e o encanto se foi. A Menina entendeu então, que é preferível a dor da saudade encantada à tristeza de uma presença encarcerada. E abriu a porta da gaiola. O Pássaro voou para muito longe até que a saudade voltasse a crescer. (Rubem Alves, A volta do pássaro encantado)

(27/09/08) 

Bonito ou feio

Por que prender a vida em conceitos e normas?  O Belo e o Feio… O Bom e o Mau… Dor e Prazer…
Tudo, afinal, são formas E não degraus do Ser!

(Mario Quintana)

 

 

Será que a beleza existe sozinha, em termos absolutos, ou está nos olhos de quem a vê?

 

Uma pessoa, ou um lugar, é bonito porque é bonito mesmo, ou depende de quem olha essa pessoa ou esse lugar?

 

Talvez seja uma grande verdade a frase Quem ama o feio, bonito lhe parece.

 

Algumas pessoas se acham lindas, e acabam passando essa imagem e todos a acham bonita também, e a olham com olhos de enxergar beleza.

 

E o que é ser bonito? Preencher alguns requisitos básicos, ter traços regulares, altura razoável… ou apenas não ser terrível, ter traços medonhos…

 

Ao longo dos tempos o conceito de beleza vem mudando, os termos de comparação sofrem modificações, já foi bonito ser gordo (sinal de prosperidade, de ausência de fome), hoje o modelo é extrema magreza, aparência anoréxica, de quem efetivamente passa fome.

 

Os cabelos já foram naturais, encaracolados, e hoje o bonito é cabelo escorrido, esticado nem que seja a ferro e formol.

 

Bonito hoje é ser eternamente jovem, não mostrar idade.

 

Isso sem falar no desespero das cirurgias plásticas feitas em qualquer lugar, por profissionais que nem sempre dominam a técnica e os resultados são desastrosos.

 

Hoje engordar é feio, envelhecer é feio…

 

Não há dúvida que o tempo é uma verdadeira fábrica de monstros, porque a decadência física do ser humano no avançar da idade é deprimente.

 

Mas faz parte da vida – ou vive pouco e morre jovem ou envelhece.

 

E mesmo a velhice pode ter sua beleza, seu encanto, se for aceita com naturalidade.

 

Também bonito hoje é não ter educação. Grosseria, estupidez, nada é feio.

 

E falta de cultura também é bonito. Ignorância é bonito.

 

Só que eu não estou gostando muito disso tudo, continuo achando feio o que é feio, independente do politicamente correto.

 

 

 

 

Natal

É dezembro…

É Natal…

Depois o Réveillon…


Tudo tão previsível, tão sempre igual… 


Há dez anos eu publicava minhas impressões sobre isso no Alinhavando. Repito, novamente, porque nada mudou dentro de mim, apenas acrescento o tempo e estou dez anos mais velha…

06/12/08 

Natal

BATE O SINO PEQUENINO / SINO DE BELÉM /

JÁ NASCEU O DEUS MENINO / PARA O NOSSO BEM

Vejo a cidade se vestindo para o Natal. Acho lindo.

Adoro ver as luzes, os enfeites, o verde-e-vermelho que domina tudo, embora para nós não tenha tanta simbologia quanto para o povo de onde se originou.

Mas, por outro lado, não gosto dessa época.

Queria ir dormir dia 14 ou 15 de dezembro e só acordar lá pelo dia 06 de janeiro. Ou ser anestesiada ou ser abduzida nesse período.

Só não queria enfrentar essa época todo ano, obrigatoriamente.

Não sei o porquê, mas não gosto de Natal nem de Ano Novo.

Vejo todo mundo sorridente, enfeitado, comendo, bebendo, brindando e me pergunto: tirando, é claro, as crianças, tem alguém feliz aqui? Por que todo mundo ficaria feliz, só porque é Natal? E o que o Natal tem a ver com alegria ou tristeza? É uma alegria compulsória, forçada, fingida.

Eu sinto uma angústia indescritível, crescente, não vejo a hora de ir para o meu quarto, fechar a porta, apagar a luz e ficar só, e em silêncio, e sozinha comigo mesma, sem-ter-que-ser-feliz-porque-é-Natal.

Há muito, muito tempo, um menino nasceu nesse dia (será que foi em 25 de dezembro mesmo? ou inventaram essa data? se inventaram, porque a puseram tão perto do reveillon? que falta de imaginação!) e com trinta e três anos foi condenado à morte e morreu na cruz, a morte mais indigna para a época. E isso mudou a história do mundo e dos homens, dividiu o tempo eterno em antes de depois de seu nascimento, e os homens nunca mais foram os mesmos.

Nisso eu acredito. Ele andou entre nós, pisou o chão de Jerusalém (que emoção quando caminhei naquelas pedras que meu Deus pisou!) e outros solos da região, falou do amor, da paz, da misericórdia e caridade.

E idéias tão simples, tão básicas, em seus lábios, por sua voz, se tornaram leis. E tudo o que Ele queria era que os homens se entendessem, que romanos – os poderosos da época – não humilhassem o restante do mundo e dos homens, que os pequeninos fossem respeitados, que as mulheres fossem amadas.

Não dividiu os homens em raças nem credos. Tentou mostrar que todos são igualmente humanos, apesar de suas diferenças.

Não tentou igualar os homens, mas quis que as diferenças naturais entre todos fossem respeitadas e não os dividissem.

Que a alegria era possível e permanente, dependendo das escolhas de cada um.

Até hoje poucas pessoas entenderam o que Cristo disse. E menos ainda seguem suas palavras.

Mas só porque é Natal, todos saem com cara-de-feliz, abraçando, comendo, bebendo e brindando. Numa alegria tão falsa, mas tão falsa, que dura somente uma noite por ano, se durar tanto.

Em lugar de cara-de-natal, gostaria que cada um, neste Natal, fizesse uma prece sincera, agradecendo os dons recebidos, os bens de que dispõe, e se propondo, com sinceridade, tentar ser um pouco melhor, para chegar mais perto do Deus nascido homem.

Mirar em Cristo um exemplo a ser seguido, em suas palavras o guia para uma vida mais simples, mais sincera e mais dedicada aos irmãos.

Aproveitar o Natal para orações, para gestos de gentileza e caridade – principalmente com os idosos – a começar os idosos da própria família – tantas vezes emocional e afetivamente abandonados, por falta de tempo e de vontade de manter um vínculo de amor com eles.

E se quiser dar presentes, dê para seu Deus – custa tão barato o que O agrada: amor ao próximo, misericórdia e caridade, um coração humilde e uma vida dedicada ao bem. Nada mais.

Mas, a você que perde tempo em ler este blog, de coração eu desejo um Feliz e Santo Natal, e que possa – não só neste ano, mas em todos os anos – em seu coração nascer e renascer o Deus Menino, com sua mensagem de paz, fraternidade e, principalmente de humanidade.

Torna a Sorrento

‘Vide ‘o mare de Surriento, / che tesoro tene nfunno:  / chi ha girato tutto ‘o munno / nun l’ha visto comm’a ccà.

Guarda attuorno sti Sserene, / ca te guardano ‘ncantate,  / e te vonno tantu bene… / Te vulessero vasà.

E tu dice: “I’ parto, addio!” / T’alluntane da stu core / Da sta terra de l’ammore / Tiene ‘o core ‘e nun turnà?

Deixei, há algum tempo, escrito no livro do hotel que eu voltaria. E nesses anos sonhei todos os dias com a volta. Finalmente consegui acertar todos os ponteiros e fui de novo para Sorrento.

Que continua linda, cheirosa, perfumada com os inúmeros limoeiros pelas praças, ruas e quintais, colorida, maravilhosa Sorrento.

Cheguei com os limoeiros tombando ao peso dos limões maduros e o perfume inconfundível no ar. E o limoncello servido no ponto e temperaturas exatos…

A indescritível península sorrentina, com o Vesúvio imperando do outro lado do golfo… lindo durante o dia, deslumbrante à noite.

Fica entre Nápolis – que adoro – e a Costa Amalfitana, que é a mostra mais concreta do amor do Criador pelos homens. Ou não teria feito nada tão lindo neste mundo…

As ruas, ruelas e becos de Sorrento, a praça Tasso, as lojinhas, o penhasco sobre o mar…

Todas as praças e seus inúmeros bancos que nos convidam a permanecer num eterno não-fazer-nada, apenas respirando e vivendo…

Não é possível não se apaixonar perdidamente por e em Sorrento…

Eu sei que voltei incompleta, porque deixei lá meu coração, o qual um dia voltarei para buscar.

E, à noite, sentar na varanda com um copo de vinho, e ficar olhando o céu, o mar, e o Vesúvio…

Porque quem foi uma vez, para sempre sonha com “torna a Sorrento” 

(08/05/18)

Na mesa da sala de jantar… uma família

“Que a família comece e termine sabendo onde vai / E que o homem carregue nos ombros a graça de um pai

Que a mulher seja um céu de ternura, aconchego e calor / E que os filhos conheçam a força que brota do amor!”

Pe. Zezinho

 

Um cronista de A Tribuna, no sábado, escreveu sobre A mesa da sala de jantar.

Ao mesmo tempo em que se recorda da grande mesa da casa onde viveu sua família, na espaçosa sala de jantar, que ocupava toda a largura da casa, compara com o tempo presente, em que os modernos imóveis já nem dispõem desse cômodo e muitos já nem destinam espaço a uma singela mesa de refeições.

Seja porque já quase não se cozinha em casa, seja porque cada membro da família faz o próprio prato e vai comer em algum canto – sala de tv, quarto etc.

Com tristeza concordo com Alcindo Gonçalves, o cronista.

Mil pensamentos surgem dessa leitura.

Onde estão as famílias de hoje, que não se reúnem?

Ou, caso o façam, onde se reúnem?

Diante da TV, todos em silêncio, sem convivência, mirandio uma telinha que mostra um mundo virtual, desmoralizado, violento, desregrado?

Ou segurando joysticks – manetes, em português?

Ou nem ficam juntos, cada qual fica confinado em  um quarto, onde dispõe da própria tv, e do próprio computador, e assim nem precisa olhar para o rosto dos demais ocupantes da mesma casa? Porque isso não é uma família.

Mantenho – mesmo morando atualmente em um apartamento – três mesas para refeições – uma mesinha fixa, mais informal, na cozinha, para café da manhã e lanches, quando estamos sozinhos, somente os dois, o que ocorre na maioria do tempo.

Uma sala de jantar (partilhando ambiente com a sala de estar – em apartamentos não há o luxo de um ambiente solene para a sala de jantar isolada) e ainda uma mesa na sacada – ali já almoçamos e jantamos com visitas, ali sirvo a refeição nas noites sem chuva do verão, e muitos cafés da manhã, diante do esplendor do mar e da praia em manhãs ensolaradas.

Não saberia viver sem uma mesa em redor da qual a família pudesse se reunir.

Na casa de meus pais há uma grande mesa – daquelas que ainda fica maior, a chamada mesa elástica – que mesmo assim já não comporta toda a família, que cresce a cada dia – mas em torno da qual ainda nos sentamos para as refeições – meu pai na cabeceira, patriarca que é, minha mãe a sua direita…

Lembro-me da mesa da casa de minha avó paterna – Alice também, de quem herdei mais que o nome, o prazer de reunir a família em torno de uma mesa bem farta – mesa esta que hoje guarnece a residência de minha prima Teresa, na distante Floripa.

Quanto frango, quanta polenta, quanto macarrão comemos sentados ao redor da mesa da casa da vó Alice, avós, filhos, noras e genros, netos e mesmo os primeiros bisnetos.

As refeições dominicais – variedade de saladas, massas e carnes, tudo preparado pelas hábeis e prendadas mãos de minha avó, coroadas com doces caseiros – que se estendiam por horas, entre conversas, lembranças, risadas, e muito, muito amor.

Minha a minha avó se foi, logo depois de meu avô e sua casa se acabou (embora, como Manuel Bandeira, nunca pensei que um dia se acabasse).

Tempos depois meu padrinho se foi.

Continuamos a nos reunir principalmente na casa de minha mãe e na casa de tia Adorama.

Chegou nossa geração, embora muitos em cidades distantes, consegui reunir parte da família em minha casa, quando ainda morava no interior, e Yara, minha prima, ainda o faz – e muito bem – em sua casa em Ribeirão Preto.

Agora tio Ary se foi.

Lugares se abrem ao redor da mesa.

Mas vejo que o Pai nos permite preenchê-los com nossas crianças que vêm para completar a família.

Somos, portanto, uma família que se reúne em volta da mesa, herança de Cristo, que nos ensinou a partilha do pão e do amor.

O que será dessa humanidade, quando não mais tiver sequer uma mesa para se reunir em casa? Não será mais um lar, mas, simplesmente, uma casa ou um mero abrigo…

(22.06.2010)