Solidão

“La solitude est à l’esprit ce que la diète est au corps, mortelle lorsqu’elle est trop longue, quoique nécessaire”.

 (Marquis de Vauvenargues, Réflexions et Maximes)

 

 Você viaja e eu fico aqui sozinha novamente. Parece que uma lâmpada se apaga nesta casa. Resta claridade suficiente para seguir adiante, mas há um escuro vindo de algum lugar.

Vejo então o quanto você preenche minha vida e meu tempo.

Aceito com serenidade sua ausência, entendo a razão do afastamento.

Mas nem por isso gosto dessa solidão silenciosa em que permaneço.

Sua falta me atinge de todas as maneiras.

Às vezes como uma quieta faca que penetra na carne e faz sangrar.

Às vezes como um grito contido na garganta  que derrama adrenalina pelo chão.

Sei que não durará muito tempo. Você voltará. E juntos seguiremos nessa cumplicidade gostosa que nos une há mais de vinte anos.

Já nos incorporamos. Somos parte um do outro.

Há – porque é imperativo – vida sem você. Mas é incompleta.

Sinto-me como a ave que perdeu uma asa – sabe voar, tem natureza para voar, mas não voa. E descubro que minha outra asa é você. E são necessárias duas asas para voar.

Esses períodos solitários se tornam propícios para o recolhimento e a meditação.

E os aproveito para isso mesmo.

Livros que esperam para ser lidos, filmes que pacientemente aguardam sua vez de serem vistos.

Nessas horas fica fácil estar sozinha.

De certa forma alguns períodos de solidão são bem vindos, frutíferos, mas jamais agradáveis e desejados.

São circunstanciais, necessários em vista do ritmo da vida moderna, onde os interesses não são maleáveis para que sejam adaptados às possibilidades dos dois – cada um cuida de seus interesses e suas necessidades, porque é impossível que tudo seja feita em conjunto.

Tentamos sempre coordenar o tempo para estarmos juntos, mas atualmente não há chance de você ficar sempre aqui ou só viajar em alguns fins de semana por dois ou três dias quando eu tenho minhas folgas.

Então você vai sozinho. E eu fico aqui também sozinha. São duas solidões inconciliáveis.

E que só se aplacam quando nos juntamos novamente.

E eu, particularmente, me sinto bem sozinha, não sou de multidões, gosto de ficar em casa sossegada, mesmo sozinha.

Mas na grande parte do tempo, não posso negar, que sinto imensamente sua falta.

Vou guardando notícias, mensagens e sensações para quando você chegar.

E preparando a casa, e preparando o vinho, porque sua volta é sempre uma festa.

                                                                                                             (Guarujá, 15.05.2009)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s