Qu’il faut mourir un jour…

Todas as coisas daqui de baixo são um punhado de cinza. Pensa nos milhões de pessoas – já defuntas – “importantes” e “recentes”, de quem ninguém se lembra. (Josemaria Escrivá)

 

 

Quando a morte, quase sempre sorrateira, vem como um vendaval inesperado e vira nossa vida do avesso, somos surpreendidos por sua força, e temos a exata dimensão de nossa insignificância.

A morte é implacável. Sua lista de chamada não respeita qualquer ordem lógica. Seus meios de agir nem sempre se mostram de acordo com nossas humanas noções religiosas.

Ao longo da vida os felizardos que por aqui ficam, vão deixando pelo caminho tantos familiares, tantos amigos, tantos conhecidos pessoais ou de fama, e mesmo assim jamais a humanidade consegue se familiarizar com a morte e aceitá-la totalmente.

Muitas vezes usa forma chocante para nos tirar alguém. Outras vezes, formas cruéis… Algumas pessoas são poupadas – não há critério lógico nem justo, ao menos a nossos olhos – e morrem com suavidade. Mas – nisso reside a democracia  da grande ceifeira – todos são iguais perante a morte.

Fico a pensar nos que já se foram, sejam da família –bisavós Carlo, Zéqui, Vitória; avós Amélia, Lourival e Alice; tios Luís, Nelson, Myriam, José Augusto e Ary; primo Alexandre, sejam outros dos demais círculos da família. Sejam ainda dentre os amigos, os mais chegados – Walter, Libano, Rita, Lory, Francis, Rachel… e tantos, tantos que deixei em algum lugar, em algum momento da vida…

Disse um dia Benjamin Franklin que o homem fraco teme a morte, o desgraçado chama-a, o valente procura-a e só o sensato a espera.

 

 

Sei que um dia terei de encarar Dona Ceifeira, somente nós duas, cara-a-cara, sem máscaras, sem disfarces. E como será essa hora? Tremerei de medo pela primeira vez em minha vida? ou irei altiva e orgulhosa, com essa coragem que sempre esteve comigo? Enfrentarei com nobreza ou clamarei aos céus por minha vida?

Não há como saber.

 Só quero estar preparada, como no dizer do grande Manuel Bandeira,

“Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo. 

Talvez sorria, ou diga: 

Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.) 

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, 

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.”   

Mas de uma coisa eu sei: seja como for, violenta, natural, suicídio,seja de qualquer forma,não importa o que virá na frente para trazer essa velha com a foice até mim: seja doença, bisturi, faca, tiro, veneno ou caminhão, com toda certeza será o momento mais solitário de minha vida.

Paz e Pace

Há pouco mais de um ano resolvi aceitar um convite da Oficina do Livro e publicar um conto na coletânea bilíngue Incontro Letterario a Milano. Era sobre a imigração italiana.

Com pouco tempo para escrever, escolhi o menor formato. E ali nasceu a pequena Antonella, brava italianinha que imigrou sozinha.

Com espanto e emoção eu soube que haviam submetido os trabalhos a um concurso e eu fora classificada em primeiro lugar. E eu nem sabia que estava concorrendo…

Está aqui, na estante de meu escritório, o troféu do Premio Eccellenza Letteraria 2018. Claro que fiquei orgulhosa. Afinal, é reconhecimento a um trabalho que faço por puro amor.

Hoje, final da madrugada, acordo com as mensagens de que fui novamente classificada em primeiro lugar, agora pela participação na antologia Paz e Pace, também bilíngue, também publicado na Italia – A.C.I.M.A. 

Fiquei – literalmente – sem palavras. Embora soubesse que nessa obra haveria a classificação, não esperava ser classificada. E sê-lo – em primeiro lugar – inflou meu ego.

Meu texto – A Paz é Possível – me trouxe essa maravilhosa notícia logo ao amanhecer.

Só tenho a agradecer aos que escolheram esse texto. E continuar a escrever.

Da inveja (Da= de + a)

Cobiça é querer o que não se tem;

Ambição é querer ter mais do que se tem;

Ganância é querer ter tudo o que se pode ter;

Inveja é querer que o outro não tenha.

 

 

Que triste realidade é a existência do invejoso.

Não passa de um nada, para sempre será um nada, e vive tentando evitar que outros sejam e que outros tenham.

Conviver com um invejoso é um suplício, porque é difícil o relacionamento com uma mente pequena, rasteira.

E, geralmente, a língua do invejoso é bastante grande e leve.

Fala da vida dos outros com muita facilidade. Toca no nome de terceiros com muita leviandade.

Acredito que cobiçar quase todo mundo cobiça alguma coisa – material ou imaterial.

O ganancioso é inconveniente, acaba perdendo o senso de comunidade, de sociedade, não se importa em fazer do ombro que o outro lhe estende num momento difícil um degrau para obter algo que está mais alto.

Ao passo que o ambicioso é o motor do mundo, aquele que faz acontecer porque sabe onde quer chegar e vai buscar, o invejoso é a verdadeira marcha-a-ré da humanidade.

Desde que o outro não tenha ele fica feliz. Desde que o outro não seja ele exulta.

Ele próprio não quer nada para si, não luta por nada. Basta-lhe ver que o objeto de sua inveja não foi, não é, não conseguiu, não tem…

E nada lhe custa por-se a grasnar inverdades e aleivosias para diminuir quem cresce ante seus olhos.

A cada dia que passa mais concordo com Molière, quando disse que La vertu dans le monde est toujours poursuivie. Les envieux mourront, mais non jamais l’envie…

Tempo… ah, o tempo

L’homme n’a point de port, le temps n’a point de rive; il coule, et nous passons! (Alphonse de Lamartine)

 

Há um entediante repetir do tempo.

Sempre.

Depois do sábado, o domingo. Em seguida, a segunda-feira, e assim os dias se sucedem, sem se importar com as necessidades e vontades de cada habitante do planeta.

Por melhor que esteja o dia, por mais que muitos queiram que ele se prolongue, na hora prevista o sol se põe. Encerra o expediente e vai descansar do outro lado do mundo. E a noite chega.

Por mais que você deseje que essa noite se eternize, infalivelmente, amanhecerá.

Não se pergunta ao humano se ele quer mais umas horas no dia ou mais tempo na noite. Tudo ocorre fora de sua previsão.

Amanhece. Anoitece. Amanhece. Anoitece.

                                             

Sol e lua se sucedem indefinidamente. No momento em que o sol se retira, surge a lua, imponente, no alto do céu.

Às vezes se confundem, e há um brevíssimo encontro nos eclipses, mas logo retomam suas posições originais.

Cada um que se programe, se adapte e se conforme. Porque o tempo não é nosso.

E, se prestarmos muita atenção, veremos que todos os amanheceres são exatamente iguais. O sol não escurece, não desbota, não muda de posição do ponto de seu nascer e poente, não se adianta e não se atrasa. E assim também a noite. Tudo se repete de forma tão idêntica, que já nem se nota. Apenas se segue vivendo na sucessão de dias e noites.

E o tempo,  implacável, a transformar os humanos em monstros, sempre impessoal e alheio.

Então vejo que na verdade, são os homens que passam – nascem, vivem, envelhecem e morrem. Na arrogante ilusão de que quem passa é o tempo…

Mourir d’aimer

Tandis que le monde me juge / Je ne vois pour moi qu’un refuge /

Toutes issues m’étant condamnées / Mourir d’aimer

03/06/2011

Professora nos EUA é condenada a 3 anos de prisão por sexo com aluno

Lindsay Massaro, de 26 anos, dava aulas para a 8ª série em Nova Jersey.
Ela teria assumido relações consensuais com adolescente de 15 anos.

Uma professora do condado de Sussex, no estado americano de Nova Jersey, foi condenada nesta sexta-feira (3) a três anos de prisão por ter feito sexo com um aluno, segundo informações da promotoria do condado. A história foi noticiada pelo site de notícias local “NJ.com”.

Lindsay Massaro, de 26 anos, dava aulas para a 8ª série na Escola Elementar de Frankford, foi considerada culpada pelas acusações de ter feito relações sexuais com um garoto de 15 anos, tanto no carro quanto na casa dela.

Segundo os registros, ela teria confessado os atos, mas disse que foi consensual.

Durante o julgamento, Massaro também foi condenada a ser registrada como agressora sexual, e terá que passar por supervisão de liberdade condicional depois dos três anos na prisão.

 

Volta-me à memória um filme de 1971, MOURIR D’AIMER, dirigido por André Cayatte, estrelado por Annie Girardot, que faleceu em fevereiro deste ano. 

O filme conta a história da professora francesa Gabrielle Russier, que nos idos de 1968 se apaixonou por um aluno menor de idade, com quem teve um romance. 

Quando os pais do garoto descobriram o affaire, denunciaram a professora. 

Condenada à prisão a vida de ambos – Gabrielle e seu amante – foi transformada num inferno.

 Vencida pelo desespero, Gabrielle suicidou-se. 

O filme foi um impacto. 

Deixou claro que havia paixão entre a professora e o jovem aluno. E esse foi o crime de Gabrielle: apaixonar-se. Amar e morrer de tanto amar.  

Agora o fato se repete, no Estados Unidos. Mas os tempos são outros, está na moda mulheres envolvidas com garotos mais novos, e ainda fica a pergunta: será que o menino de 15 anos era tão criança assim, tão inocente??? 

E se fosse um professor com uma menina de 15 anos, seria tanto escândalo? Ou aí pode. Afinal, professores sempre molestaram alunas, sempre seduziram meninas… Isso nunca foi escandaloso nem gerou processos e condenações no âmbito criminal… 

Quem não conhece professores que se envolveram com alunas, que chegaram mesmo a deixar suas esposas, suas famílias, em razão de se apaixonarem por alunas? 

Desde o começo do estudo sistematizado em escolas tem-se notícia de professores namorando alunas. Deixou de ser escândalo há décadas.

 O maior romance da história da humanidade – Abelardo e Heloísa – nada mais é que o envolvimento professor-aluna.

 Vemos que a vida se repete infinitamente…

 No caso do filme Mourir d’Aimer, notável, além da magistral interpretação de Annie Girardot, a música interpretada com forte carga de emoção (quando o filme foi feito o caso era recente) por Charles Aznavour.

Sozinha

No interior da casa, / em meio a paredes quebradas / e chão empoeirado, / ainda paira a tua presença. (Miguel Carlos Vitaliano)

 

Insone, aproveitei a madrugada para colocar o trabalho em dia.

Em seguida, pela calma do amanhecer, fui dar uma volta pelos caminhos dos blogs dos amigos, aproveitando os momentos de folga.

Triste surpresa – com exceção do blog do Emidio, todos os outros blogs se encontram abandonados.

Portões trancados de uns, não pude nem entrar. Plaquinha de mudou-se para endereço desconhecido em outros. E, em quase todos, só encontrei muito mato, muito abandono, muita desolação, e a concreta ausência de quem desistiu.

Sensação de fim de linha. Solidão.

Que triste.

Há uns tempos atrás os blogs fervilhavam de novidades.

Acho que encontrei a palavra-chave: novidade.

O ser humano contemporâneo é movido a novidade. E por isso abandona tudo aquilo que deixa de ser novidade e sai atrás de novo trio elétrico que o atrai a cada dia.

Só o novo, o instantâneo, a cópia, o que já vem pronto interessa.

Não consegue mais ser fiel a suas origens, suas raízes, sua família e seus amigos de sempre.

Agora tudo é descartável.

E os blogs foram sendo abandonados, em uma imagem que me faz lembrar as colônias das propriedades rurais, fieiras de casas abandonadas à própria sorte, o mato invadindo os quintais, traduzindo uma tristeza em quem passa pelas estradas, ou, pior ainda, sendo demolidas para dar lugar – ao menos no Estado de São Paulo – à cana. Canaviais, sinal de riqueza e desolação.

E assim, graças às redes sociais, vemos o abandono dos blogs, pois neles não há o instantâneo, mas a perpetuidade do pensamento, atividade isolada que já está fora de moda.

(julho, 2012)