Último poema

 

Era apenas uma lágrima. Gota quente que brotou dos olhos

Na fria madrugada ao receber a mensagem do já esperado adeus.

Esperado, não desejado, não provocado, mas sinalizado.

E a lágrima, lentamente desceu pela face, esfriando e a marcando.

Outras vieram em seguida. Quentes, misturavam-se, e ao final

Todas estavam frias, como era fria aquela triste madrugada.

Geladas, chegaram ao coração. Que até então batia aquecido

Na paixão ardente que o embalava nos últimos anos.

O coração gelou e congelou o sangue. A aurora, mais fria ainda

Aproximou-se e entrou de mansinho, tentando dar um consolo

Àquela alma que se contorcia na dor da perda inexplicada.

A doçura e a mansidão dessa alma a mantiveram em silêncio.

O dia amanheceu, radiante e ensolarado, secando as últimas

Lágrimas que insistiam em cair. E aquela intensa dor da alma

Se transformou em dor física. E tomou conta de todo o corpo.

Anoitecera e adormecera no calor de uma paixão tão linda

Mas amanheceu na solidão silenciosa e dolorida do abandono,

Que cortava como faca afiada. O sol avisou que a vida continuava.

Devastada, aos pedaços, mas não viva, pois algo morrera por dentro,

Levantou-se e enfrentou o dia, já inundada de uma saudade que

Sabe jamais saciada, e se pergunta agora como seguir em frente

Com todos seus sonhos pisoteados, quando nada mais tem a esperar…

Meu encanto

Foi um vendaval – um forte e quente vento de verão

Que se aproveitou de uma janela esquecida aberta

E subitamente adentrou neste velho coração

E trouxe dúvidas para a essa vida que estava certa

 

Não consegui contê-lo, e assim também não me contive

E se anoiteci na rotina de tantas tristezas antigas

Amanheci renovada, na paixão incontida

Reavivada no calor dessas lembranças amigas

 

Tsunami, temporal, sensações passadas

Desejo, saudade, palavras esquecidas

Torvelinho fatal do que estava resolvido

 

Fecho hoje com cuidado as janelas – agora já cerradas

E as cinzas, que esvoaçaram doidas, voltam, entristecidas

A cobrir de novo as brasas de um coração adormecido.

Onde está o meu amor

Olhando o suave movimento das folhas

perguntei-lhes: Onde está o meu amor?

Será que está por perto? Balançando ao vento,

elas assim me disseram: Não! Não! Não!

 

Vi os pássaros brincando, num voo sem

pressa e sem rumo. Disse-lhes: Vocês, aí do alto,

veem mais longe, respondam: Podem ver o meu amor?

Em círculos, se foram gritando: Não! Não! Não!

 

Sentindo o vento passar, gritei-lhe: Escute-me,

você passou tantos lugares, me diga:

Meu amor está chegando? Rindo e sibilando,

passando rápido, avisou: Não! Não! Não!

 

Procurei por todo lado, busquei na terra e no mar.

Onde estará o meu amor? Mas nunca o encontrei.

Voltei triste para meu canto, chorando de dor e de pena,

ali você me esperava, e, abrindo os braços, sorriu…

Cirandando

Eu quero entrar numa ciranda

Uma ciranda só de amor

Se você me ama dá-me um beijo

E um abraço e vá-se embora

Que eu continuo rodando

Procurando onde parar

Outros beijos vou ganhar

Outros abraços eu darei

E depois dizer adeus

E a ciranda continuar

Em minha roda vou rodando

Minha ciranda cirandando

E de tanto cirandar

Você vou reencontrar

E você vai cirandando

Outros beijos vai beijando

Outros abraços abraçando

Até que um dia na ciranda

De tanto que cirandou

Também vai me encontrar

E então juntos nesta vida

Para sempre cirandar

Venha de braços abertos

Quando você vier

Venha de braços abertos

Para um abraço sonhado e desejado

Que não aguenta mais esperar

Mas venha também com o sorriso aberto

Os olhos brilhando de alegria

Venha alegrar esses outros olhos

Que não querem mais chorar

E venha ainda com coração aberto

Ao encontro deste outro coração

Que se abriu, que amou, que sangrou

E mesmo assim não desistiu de amar

Porque quem esperou por tanto tempo

Sofreu toda a tristeza da separação

Não desistiu em tantas dificuldades

E está aqui firme, esperando sua volta

Está com os braços abertos,

O sorriso, e o coração abertos, transbordando

De saudade, cheios de tanta ausência e

Carentes desse abraço tão sonhado

Da alegria que só esse sorriso poderá trazer

E do calor que virá do seu coração.

Por isso, o mais cedo que puder, venha.

Venha, e já chegue com os braços abertos

Brincadeiras

Vamos conjugar o verbo amar

Eu te digo – eu te amo!

Você me responde – eu te amo!

Mas só no presente do indicativo

Não quero as falsas promessas do futuro

Nem as lágrimas do pretérito sempre imperfeito

 

Depois vamos brincar de abraçar

Eu abro meus braços e vou até você

Você abre seus braços e vem até mim

E nos encontramos no meio do caminho

Assim nos abraçamos fortemente

Em um abraço que não tem mais fim

 

Depois faremos o ritual de separar

Você me diz “eu te odeio” e então

Eu olho para você com olhos de desprezo

Não precisaremos inventar desculpas

Eu seguirei meu caminho solitário

E no sentido oposto você  partirá.

Não me chame outra vez!

 

Não me chame mais uma vez

Pode ser que eu não resista

A saudade dos teus braços

Poderá me arrastar até você

A falta do seu olhar apagou a luz dos meus olhos

A ausência dos seus beijos amargou a minha boca

E não mais tendo seu ombro para recostar

Eu não encontrei mais descanso

A vida é exatamente o que dela fazemos

Mas, às vezes, caímos em armadilhas

E nos distanciamos tanto assim

E o longe se instala em nossa vida

Sempre é hora de retomarmos as rédeas

E darmos novo rumo ao tempo

Antes que seja tarde demais

Por isso, não me chame mais uma vez

Não me diga de novo “venha…”

Pode ser que eu não resista…