Do que é feita a saudade?

A saudade é feita de pequenos retalhos

De momentos felizes já passados e vividos

De beijos antigos ainda tão lembrados

De mãos que não nos tocaram, mas desejamos.

 

A saudade é feita de variados cacos

De recordações de olhos que nos viram

De tantas vozes que já não mais ouvimos

De muitos carinhos que agora já não temos

 

A saudade é feita de tantas lembranças

De pessoas que não ficaram em nossa vida

De algumas paixões ardentes que já esfriaram

 

A saudade é feita de todos esses pedaços 

De nossa alma que ficaram pelos caminhos

E agora, recolhidos, estão guardados no coração.

Gotas de mar

Trazia em si o encanto da imensidão

Nos olhos inundados de mar

Se movia no ritmo de ondas

Como se vivesse em um barco

 

Trazia na alma uma imensa paixão

Alimentava-se de amor, luz e alegria

Amava a espuma frágil da vida

Como se fosse personagem de romance

 

Trazia uma esperança de felicidade imbatível

Acreditava que o amor venceria tudo e todos

Até o momento em que viu seu mundo cair e

Sentiu a tristeza do abandono e solidão

 

E quando de seus olhos brotaram

As gotas do mar que trazia em si

Pela face tristemente correram,

Lágrimas salgadas como água do mar

Segue a vida

Segue a vida sua linha contínua

nada a detém nem desvia

Não

  foi

       porque

                  nos

                      separamos

Que eu deixei de te amar

Mas

     você

            deixou

                        de

                           me

                               querer

E o mundo não acabou

O                                 Os

sol                               pássaros

ainda                          continuam

brilha                         a cantar

Assim é a vida

(de Pena e Poesia, 2016)

Noite de paz

Queria conhecer a noite eterna

E nela adentrar

Deitar, adormecer na calma da escuridão

Do silêncio da ausência de vida

Calmamente, imergir no nada

E ali ficar

Sem a ansiedade de um novo amanhecer

Sem a angústias das dores da madrugada

Sem a nova manhã – que vai chegar

Sem um dia a mais – que vai chegar

Sem ter de sentir a dores – que vão chegar

Sem nenhuma decepção – que vai chegar

Sem ter de enfrentar problemas – que vão chegar

Apenas docemente adormecer sem pensar

Ouvindo minha interna música de acalanto

Sentindo o calor aconchegante de estar em paz

E assim morrer

E não amanhecer

 

Sonho

Lobo que surge na noite

Que traz consigo o encanto

Lobo que some na noite

Deixa um rastro de paixão

Seu chamado é irresistível

Ecoa dentro da alma

 

Todo anoitecer ponho-me à espera

Ansiosa, sem saber se esse Lobo virá

Ele me sabe mais do que eu o sei

Porém eu o sinto mais que ele me sente

Sua força é irresistível

Faz de mim um seu brinquedo

 

Quando esse Lobo surge a meu lado

E me conta coisas de outros mundos

Dos caminhos que trilhou

Mostra amores que desconheço

Sua promessa é irresistível

E me chama para que eu o siga

 

Sempre tento em vão não escutar

O que me fala esse Lobo

Sei que ainda o seguirei.

Não, Lobo, não torne a chamar

Seu chamado é irresistível

Um dia irei com você…

Assim sou eu

 

Não olhe assim para mim

Sou apenas uma mulher

Do século vinte e um.

Eu que faço acontecer,

Que passeio em rua coberta,

Que cozinho em micro-ondas,

Sou apenas uma mulher,

Que trabalho, luto e vivo

Plenamente em minha época.

Faço poesia no computador,

Ando na corda bamba da vida,

Mas preciso de você comigo.

Você é meu solo, minha luz, minha água.

Não tenha receios de mim:

Se abandone a meu lado – sem medo,

Tal como se fosse uma orquídea,

Não sou parasita – sou epífita.

Último poema

 

Era apenas uma lágrima. Gota quente que brotou dos olhos

Na fria madrugada ao receber a mensagem do já esperado adeus.

Esperado, não desejado, não provocado, mas sinalizado.

E a lágrima, lentamente desceu pela face, esfriando e a marcando.

Outras vieram em seguida. Quentes, misturavam-se, e ao final

Todas estavam frias, como era fria aquela triste madrugada.

Geladas, chegaram ao coração. Que até então batia aquecido

Na paixão ardente que o embalava nos últimos anos.

O coração gelou e congelou o sangue. A aurora, mais fria ainda

Aproximou-se e entrou de mansinho, tentando dar um consolo

Àquela alma que se contorcia na dor da perda inexplicada.

A doçura e a mansidão dessa alma a mantiveram em silêncio.

O dia amanheceu, radiante e ensolarado, secando as últimas

Lágrimas que insistiam em cair. E aquela intensa dor da alma

Se transformou em dor física. E tomou conta de todo o corpo.

Anoitecera e adormecera no calor de uma paixão tão linda

Mas amanheceu na solidão silenciosa e dolorida do abandono,

Que cortava como faca afiada. O sol avisou que a vida continuava.

Devastada, aos pedaços, mas não viva, pois algo morrera por dentro,

Levantou-se e enfrentou o dia, já inundada de uma saudade que

Sabe jamais saciada, e se pergunta agora como seguir em frente

Com todos seus sonhos pisoteados, quando nada mais tem a esperar…