Quando Brecht é salvação

Sem vontade de escrever. Sem inspiração. Sem motivação. Não pelo isolamento social, porque isso é até bom. Mas por motivos outros, de outra ordem de problemas pessoais. Às vezes fica difícil escrever. Para tentar voltar o pensamento ao normal, despertar a criatividade, “colocar a cabeça no lugar”, preciso ler.

Porque ler distrai a mente, tira o foco do problema. Imersa em um livro, deixo de pensar por mim e então eu me transformo no que leio.

Hoje resolvi voltar em Bertolt Brecht. Quando há muitas nuvens, muito peso no meu céu, o cérebro se recusa a repousar, leio Brecht. A força de sua poesia acaba provocando o temporal que fará o céu da mente desaguar completamente, clarear, voltar o sol e voltar a lua em seus ciclos de emoção e criação.

A cada releitura de seus poemas, renovação emotiva. Vejo as mesmas frases como se fossem outras. Vejo suas dúvidas como se fossem minhas. Sua indignação como se fosse hoje.

Vou transcrever aqui dois pequenos poemas, que fazem pensar e hoje os vi como se não os conhecesse. São pequenos em extensão, mas não em intensidade:

  • O cordão partido

 

O cordão partido por ser novamente atado

Ele segura novamente, mas

Está roto.

 

Talvez nos encontremos de novo, mas

Ali onde você me deixou

Não me achará novamente.

 

 

  • Sobre a esterilidade

 

A árvore que não dá frutos

É xingada de estéril. Quem

Examina o solo?

 

O galho que quebra

É xingado de podre, mas

Não havia neve sobre ele?

 

Vamos ler e meditar. Interiorizar. E deixar o pensamento se desenvolver, chegar ao fundo do pensamento desse fabuloso poeta.

Um dia trarei seus poemas de guerra, mostrando a crueza da vida, a maldade dos homens…

 

Recordações

Já dizia a canção que “recordar é viver”… 

Com toda razão.

Remexendo antigos papéis, encontro um caderno de poesias feito pela minha amiga Raquel. Comecei a reler poesia por poesia.

Dentre elas, uma que sempre “me inspirou”, da qual não sei o título e desconheço a autoria. Mas trouxe-me de volta à memória o tempo de colégio, quando – Raquel e eu – líamos todos os livros que conseguíamos (e não eram poucos, líamos vorazmente), líamos poesias, copiávamos aquelas que mais nos agradavam. E com toda essa recordação veio a saudade.

Saudade de um tempo que jamais voltará, da amiga hoje distanciada, da leveza dos tempos de adolescentes. A nostalgia por ver que tudo passou, ficou no tempo… Mas o amor pela leitura e em especial pela poesia não acabou. Esse a tudo resiste.

Deixo, aqui, esse texto para dividir com vocês:

 

“Dos restos de um amor igual ao nosso

Não pode uma amizade florescer,

É justo que tu o queixes, não o posso

Depois de tanto amar-te, apenas te querer

 

Embora terminássemos sem briga,

Sem um gesto ou palavra de rancor

Como posso chamar-te meu amigo,

Se já te chamei de meu amor?

 

Como posso apertar indiferente,

Sem sentir uma forte emoção

As mãos que apertei apaixonadamente,

As mãos que esmaguei em minhas mãos?”

Votos de Ano Novo

Todo dia 31 de dezembro há uma intensa troca de votos alvissareiros através das redes sociais. Tenho a maior preguiça do mundo em participar disso.

Entretanto, em nome da boa convivência, para que ninguém se sinta excluído do meu carinho, transcrevo um poema de Drummond, com os desejos mais simples, mas que reflete exatamente o que desejo a vocês, leitores desse blog:

Desejos
Desejo a vocês…
“Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu”