Para quem tem paixão

 

ESTRELA DA TARDE

(José Carlos Ary dos Santos)

 

 

“Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor, minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor, eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor, eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!”

 

Brumadinho – 01 ano -homenagem da poetisa Márcia Etelli Coelho

Hoje seria dia de fazer, aqui, uma homenagem a São Paulo. Cidade em que nasci. Minha terra natal. Lugar que amo acima de todos os outros em que já morei ou já estive. Meu velho porto seguro. Onde me sinto em casa.

Mas, recordando que há exato um ano a tragédia do inferno dantesco se abateu sobre Brumadinho-MG, mudei de ideia. E, nesta tarde, li a tocante poesia de minha amiga e poetisa Marcia. Então trago uma homenagem às vítimas e aos sobreviventes do horror que, quase sem acreditar em nossos olhos, vimos ao vivo e em cores. Cena terrível.

Brumadinho, nome que deriva de brumado, vem de bruma – névoa, enevoado. Mas nunca de lama nem de enlameado.

Mais que uma tragédia, um crime. Contra os funcionários da barragem e os moradores. Contra o meio ambiente. Contra o Estado de Minas Gerais e o Brasil. Aviltante. Dispor-se dessa forma de vidas humanas em vista do lucro é abjeto.

 

 

BRUMADINHO

Repouse seu corpo em meus braços e ouça

o rio de lama a correr sem aviso,

rompendo barragens, furor displicente,

abrindo o chão, arrastando abrigos,

rejeitando o futuro, abolindo o presente.

Ouça o rude trincar de mil casas,

ceifando as sementes de todo jardim.

Ouça o choro dos anjos sem asas

que nem perceberam que ali era o fim.

Ouça os últimos suspiros de vida,

tão dentro da terra, tão longe dos seus.

Ouça os gritos soltos de quem alucina.

Sequer houve tempo de orar pro seu Deus.

Ouça o lamento do céu que previa

a dor de quem perde e não encontra mais.

Ouça a tristeza das almas perdidas,

voando e deixando seus sonhos pra trás.

(Márcia Etelli Coelho)

Dia de Vinicius de Moraes – A rosa desfolhada

 

Tento compor o nosso amor
Dentro da tua ausência
Toda a loucura, todo o martírio
De uma paixão imensa

Teu toca-discos, nosso retrato
Um tempo descuidado
Tudo pisado, tudo partido
Tudo no chão, jogado

E em cada canto
Teu desencanto, tua melancolia
Teu triste vulto desesperado
Ante o que eu te dizia

E logo o espanto e logo o insulto
O amor dilacerado
E logo o pranto ante a agonia
Do fato consumado

Silenciosa ficou a rosa
No chão despetalada
Que eu com meus dedos, tentei a medo
Reconstruir do nada

O teu perfume, teus doces pelos
A tua pele amada
Tudo desfeito, tudo perdido
A rosa desfolhada

para ouvir e conferir:

 

Vídeo – Menina dos olhos tristes – José Afonso

Em razão da tensão política internacional, lembrei-me dessa triste canção, então inovo aqui postando um vídeo. No final, depoimento da mãe de “um soldadinho”. Abaixo, a letra da canção:

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
Olhe o cachimbo a apagar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
Porque a fatiga o tear
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
Uma carta o fez chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

A lua que é viajante
É que nos pode informar
O soldadinho já volta
Do outro lado do mar

O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar
Vem numa caixa de pinho
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar