A fita

“Menina bonita com laço de fita / o que você faz pra ser tão bonita

Menina bonita, se você quiser / quando crescer será minha mulher…”

Quando ele começava com essa brincadeira ela se encolhia, se pudesse daria um jeito de sumir no ar, como uma bolha de sabão estourada.

Era um primo bem mais velho de seu pai, eles eram muito amigos, motivo pelo qual era muito querido da casa e sempre vinha almoçar aos domingos e jantar alguns dias da semana.

Ela era criança, obediente, tinha de estar à mesa e aguentar o versinho que a envergonhava. Depois os irmãos ficavam fazendo brincadeiras com isso até ela chorar. A mãe ralhava, mas ria, porque não havia maldade nem no velho primo nem nos irmãos.

Em certa época pediu à mãe que nunca mais colocasse laços de fitas em seus vestidos nem em seus cabelos. Passou a odiar quando se via com alguma fita prendendo seus longos cabelos escuros.

O tempo passou. Ela cresceu. E ficou uma bonita moça. Mas se sentia incomodada quando alguém dizia que era bonita. Dentro de sua cabeça ressoava aquela voz com a estrofe, embora o velho primo já tivesse morrido há muitos anos.

Muito tempo se passou. Ela já não era mais menina nem moça. Quando se olhava no espelho via a decadência física, mas tinha de se conformar.

Às vezes, quando queria se sentir um pouco bonita outra vez, prendia os ralos cabelos com um vistoso laço de fita…