Mágoas

Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoas, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água… (Chico Buarque)

 

 

Mágoas e mais mágoas… quantas mágoas trazemos na alma, de tantas desatenções, de tantas decepções…

Com quantas mágoas se faz uma tristeza?

Difícil fazer de conta que não magoa, fazer de conta que não sente nada… o pote vai enchendo e a qualquer momento transbordará. Por mais delicado que alguém seja, nada impede que outro o magoe profundamente, por egoísmo, por vaidade, para se mostrar superior, em razão de complexo de inferioridade.

E o coração corta e sangra a cada mágoa. E vai ficando cheio de cicatrizes. Alguns são tão magoados que se protegem por uma couraça. Mas estouram da mesma forma, através de terríveis somatizações, porque é impossível não transbordar.

E se temos medicamentos à vontade para as dores do corpo, nenhuma existe para a dor da alma – a mágoa.

Algumas pessoas colecionam cristais, outras, soldadinhos de chumbo. Eu coleciono mágoas. Tenho de todos os tipos, cores e tamanhos. Causadas por tantas e tão diferentes pessoas e ações.

Vivo me policiando para não magoar quem convive comigo. Engulo alguns desaforos, enfrento decepções, mas procuro não magoar. O inverso não ocorre. Às vezes tenho a impressão que as pessoas se dedicam a me magoar. Pouco se importam com minha dor. Não conhecem minha alma.

Mas meu coração, tal como o pote da canção, está à beira de transbordar…

Dia de poesia – Mia Couto – Ser que nunca fui

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

(In “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”, 1999)

Meu coração silenciou

Meu coração silenciou.

Como num vácuo do tempo e dos sentimentos.

Foi-se a ansiedade, foi-se a angústia.

Tomou-se de uma profunda calma e então serenou.

Bate agora tranquilo dentro de um compasso confortável.

Não sangra nem grita. Não dispara nem ameaça parar.

Cumpre sua nobre função. Apenas isso.

Já não há mais emoção.

Nada o atinge nem perturba.

Sinto falta de sua desordem, seus sobressaltos.

Falta daquela adrenalina continuamente ativa.

Porém já não encontro nada disso.

Meu coração silenciou.

Simplesmente a paixão se acabou.

Dia de Poesia – Clarice Lispector – Eu te deixo ser

Escuta: Eu te deixo ser, deixa-me ser então…

Me deixa ser aquela que chega em silêncio,

mas que quando passa deixa seu rastro.

Me deixa ser aquela dúvida infinita,

ou quem sabe todas as respostas imediatas.

Me deixa ser aquela menina desprotegida

ou aquela mulher segura de si.

Me deixa ser aquela que faz seu coração bater mais forte,

ou talvez sua maior decepção.

Me deixa ser a conselheira amiga

ou poderei ser a sua destruição.

Te deixo ser você…

te deixo pensar com sua própria mente

andar com suas próprias pernas

Ter seus amigos e amigas,

seus anseios e suas dúvidas

Te deixo ser livre

mas nunca em hipótese alguma,

me deixe de canto, ou faça algo que necessite do meu perdão.

Não pense que por eu ter dois opostos, dois lados…que eu tenha duas caras…

Não, isso não!

Sou o que você imaginar…

Mas vou além da sua imaginação, portanto

Me deixa ser sua razão, que eu te deixo ser a minha… 

Conversa com meu avô – nº 09

Eita, vô, se nem para nós, aqui embaixo, está fácil de entender, imagino aí de cima, sem seguir passo a passo os acontecimentos políticos… mas, vamos lá, vou tentar explicar:

Eu não sei porque a manifestação dessa vez foi no sábado e não no domingo, mas era, sim, o mesmo pessoal – os brasileiros honestos e trabalhadores, abrigados sob a bandeira verde-e-amarela. A diferença é que agora a luta é mais difícil, mais complicada: é preciso dar um jeito nos ministros do supremo.

Claro que tem mais lixo na política, mas acontece que seis desses sinistros se uniram para acabar com o país, com o governo, com a democracia. Estão a favor da quadrilha que roubou o país. Estão fazendo o diabo para a esquerda voltar ao poder.

Para conseguirem o intento, começaram a legislar, e inventar umas regras excêntricas, o que levou à libertação do nove dedos. Que nunca foi preso de verdade. Estava numas dependências cinco estrelas da superintendência da polícia federal em Curitiba, com geladeira, telefone, esteira ergométrica, namorada… tudo pago por nós.

O maior problema agora é que ele continua inelegível, por força de condenação em âmbito criminal. Por esse motivo aqueles seis respeitáveis senhores, estão tramando um golpe final na justiça do país e na operação lavajato – a maior operação do mundo contra a corrupção – e pretendem simplesmente anular os processos do larápio-mor.

Por isso as manifestações. Ou acabamos com o supremo ou o supremo acaba com o Brasil.

Como? O atual Presidente da República? Ah, vô, com esse estamos tranquilos. Está, aos trancos e barrancos, tirando o país do atoleiro em que a esquerdalha nos deixou. Contra ele temos o congresso – câmara e senado, em sua maioria composto por traíras e bandidos, e o supremo. Pois é, ainda assim o cara está conseguindo ótimos resultados, que dão esperança de melhorarmos um pouco.

Nos países vizinhos o que aconteceu foi que na Venezuela continua aquele horror de violência e fome, na ditadura esquerdista à la castro, conforme já conversamos. Exatamente, vô, parece que não tem saída. Pobre povo venezuelano, está num sofrimento danado.

No outro país vizinho, o índio cocaleiro fraudou de novo as eleições bolivianas e foi de novo eleito. Mas dessa vez o povo não aceitou o resultado da eleição e foi para a rua protestar. No começo houve violência, mas a polícia lá se lembrou do ídolo Simon Bolivar – “Maldito sea el soldado que apunta su arma contra su pueblo”, e simplesmente o índio perdeu o apoio e renunciou.

Enquanto isso, no Chile, onde o governo é de direita, a canalhada está provocando caos, violência, desabastecimento, todas as dificuldades, para tentar derrubar o presidente. Estão incendiando universidades e igrejas católicas. Uma profanação atrás da outra.

Na Argentina, los hermanos se lembraram de suas origens e elegeram novamente a Kirchner. Vão afundar em mais miséria ainda.

É isso, vô, o quadro atual da América do Sul, “pegando fogo” na luta entre os parasitas de esquerdas e os trabalhadores de direita.

Há, sim, muita esperança para o país. Se o supremo e o congresso pararem de atrapalhar, ainda voltaremos a ser uma potência.

Mas, se Deus quiser – e vai querer – sairemos vencedores. Vamos voltar à ordem, ao crescimento, dar um fim a esse desemprego cruel que está destruindo famílias.

Deu para entender, vô?

Por que “um pouco”?

Ah, é isso mesmo – há uma parcela de vagabundos no Brasil lutando contra o país, e eles têm mais voz, fazem mais barulho. Mas é minoria. Serão aniquilados, pode esperar.

Então, vô, qualquer coisa me chama que tento explicar. Até…

Segue a vida

Segue a vida sua linha contínua

nada a detém nem desvia

Não

  foi

       porque

                  nos

                      separamos

Que eu deixei de te amar

Mas

     você

            deixou

                        de

                           me

                               querer

E o mundo não acabou

O                                 Os

sol                               pássaros

ainda                          continuam

brilha                         a cantar

Assim é a vida

(de Pena e Poesia, 2016)

Dia de Poesia – A Camões – Manuel Bandeira

Quando n’alma pesar de tua raça

A névoa da apagada e vil tristeza,

Busque ela sempre a glória que não passa,

Em teu poema de heroísmo e de beleza.

 

Gênio purificado na desgraça,

Te resumiste em ti toda a grandeza:

Poeta e soldado… Em ti brilhou sem jaça

O amor da grande pátria portuguesa.

 

E enquanto o fero canto ecoar na mente

Da estirpe  que em perigos sublimados

Plantou a cruz em cada continente,

 

Não morrerá, sem poetas nem soldados,

A língua que cantaste rudemente

As armas e os barões assinalados.