Votos de Ano Novo

Todo dia 31 de dezembro há uma intensa troca de votos alvissareiros através das redes sociais. Tenho a maior preguiça do mundo em participar disso.

Entretanto, em nome da boa convivência, para que ninguém se sinta excluído do meu carinho, transcrevo um poema de Drummond, com os desejos mais simples, mas que reflete exatamente o que desejo a vocês, leitores desse blog:

Desejos
Desejo a vocês…
“Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu”

 

Dia de Poesia – Afonso Lopes Vieira – Saudades não as quero

Bateram fui abrir era a saudade

vinha para falar-me a teu respeito

entrou com um sorriso de maldade

depois sentou-se à beira do meu leito

e quis que eu lhe contasse só a metade

das dores que trago dentro do meu peito

Não mandes mais esta saudade

ouve os meus ais por caridade

ou eu então deixo esfriar esta paixão

amor podes mandar se for sincero

saudades isso não pois não as quero

Bateram novamente era o ciúme

e eu mal me apercebi de que batera

trazia o mesmo ódio do costume

e todas as intrigas que lhe deram

e vinha sem um pranto ou um queixume

saber o que as saudades me fizeram

Não mandes mais esta saudade,

ouve os meus ais por caridade,

ou eu então deixo esfriar esta paixão,

amor podes mandar se for sincero,

saudades isso não pois não as quero.

(in ‘Antologia Poética’)

O rio e a vida

Ao nascer, um pequeno olho d’água, não sabe o que o destino lhe reserva. Pode ficar ali, contido, secando ao sol do dia, pequena e insignificante nascente, esquecida da sorte.

Outros, entretanto, correm para longe, formando cursos d’água, córregos e rios. Pequenos e grandes, ignorados ou importantes.

Alguns enfrentam vários obstáculos – pedras pequenas e grandes, montanhas, rochas. Mas não desistem. Cobrem algumas, contornam outras, desviam ou cavam, mas seguem adiante.

Nada detém seu desejo de crescer e chegar até o mar, destino final de todos.

Mais cedo ou mais tarde, irá encontrar o oceano. Sem ter ideia do que se trata, de sua dimensão.

E, nesse encontro, sentirá pavor de sua imensidão. Mas é tarde demais, não tem volta.

Então, o rio se entrega ao mar, suas águas se fundem e se tornam apenas um.

A cada fonte, seu destino.

Assim é nossa vida – todos nascem iguais. Nem todos sobrevivem. Os mais fortes são aqueles que enfrentaram os maiores desafios. E, no momento derradeiro, encaramos a morte. Que nos leva, nos funde, apaga nossa existência nesse mundo.

Só amor

Malgrado todas as dificuldades,

tantas lágrimas e tanta angústia,

a cada dia mais doce e mais forte

esse amor resiste.

 

Sempre que fraquejamos diante da vida,

e encontramos uma força insuspeita dentro de nós,

então temos a certeza que só seguimos adiante pois

esse amor existe

 

Às dores que suporta a cada dia,

ao peso que a vida sempre impõe,

sem vacilar, nem fender, sem se ausentar,

esse amor assiste.

 

Nossos sentimentos são feitos de quase nada

e se trincam, e se partem, e se confundem

mas é na firmeza – e não em desespero, no que

esse amor consiste.

 

Quando a tristeza chega e se instala

e pensamos que já não teremos saída, vemos

adiante a luz que que nos aguarda , pois com ela

esse amor coexiste

 

Os anos passando tão rapidamente

deixam um rastro de lembranças,

e a certeza de que vale lutar, porque

esse amor insiste.

 

E no longo caminhar rumo ao destino final,

vamos com alegria e determinação, sem medo,

avançando no suceder dos dias, com a certeza que

esse amor persiste

 

E quando se acaba o dourado outono,

e se aproxima o cinza inverno da vida,

podemos seguir confiantes no futuro porque

esse amor nunca desiste.

 

 

Dia de poesia – Machado de Assis – Soneto de Natal

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Um homem, – era aquela noite amiga,

Noite cristão, berço do Nazareno, –  

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lépida cantiga,

 

Quis transportar ao verso doce e ameno

As sensações de sua idade antiga,

Naquela mesma velha noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno.

 

Escolheu o soneto… A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas frouxa e manca.

A pena não acode ao gesto seu.

 

E, em vão lutando contra o metro adverso,

Só lhe saiu este pequeno verso:

“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

O traste da paixão

Não te espero, só porque te quero.

Te quero, como sei que eu nunca quis alguém assim. 

Não te espero, só porque te quero.

É porque te quero só pra mim…

Te quero na minha vida, na minha paixão.

Te espero, em todos os momentos e não só na solidão.

(Celi Luzzi)

 

Ah, a paixão… a velha e boa paixão…

Chega de repente, nem se sonhava que estava a caminho. Pega de surpresa e se espalha. A paixão toma todo o corpo, ocupa todos os espaços. Torna-se obsessão, ideia fixa. Já não se sente mais necessidade de comer, de dormir, de conviver. Basta a existência, a atenção e a companhia do ser que despertou toda essa torrente de emoções.

Segue-se como encantado, com o sonho invencível de consumar a paixão, a necessidade de saber onde o outro está, o que faz, o que pensa…

De vez em quando a paixão é recíproca – aí é a pura maravilha, porque quando correspondida, a vida se torna colorida, sinos tocam sem cessar, anjos cantam dia e noite, tudo é encantamento.

Geralmente, no entanto, a paixão não é via de duas mãos – enquanto um está intensamente apaixonado, o outro só está passando o tempo, esperando que alguém mais conveniente apareça. E finge paixão.

E promete, e faz sonhar, deixa o apaixonado nas nuvens. Até o dia em que aparece o que esperava – mesmo que seja um traste imprestável – e deixa o apaixonado falando sozinho, até este perceber que a paixão era via de uma só mão.

E, pelo traste pelo qual foi substituído, o apaixonado acaba se dando conta do traste imprestável pelo qual se apaixonara…

Natal

 

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É dezembro…

É Natal…

Depois o Réveillon…


Tudo tão previsível, tão sempre igual… 


Há onze anos eu publicava minhas impressões sobre isso no Alinhavando. Repito, novamente, porque nada mudou dentro de mim, apenas acrescento o tempo e estou onze anos mais velha…

06/12/08 

Natal

BATE O SINO PEQUENINO / SINO DE BELÉM /

JÁ NASCEU O DEUS MENINO / PARA O NOSSO BEM

Vejo a cidade se vestindo para o Natal. Acho lindo.

Adoro ver as luzes, os enfeites, o verde-e-vermelho que domina tudo, embora para nós não tenha tanta simbologia quanto para o povo de onde se originou.

Mas, por outro lado, não gosto dessa época.

Queria ir dormir dia 14 ou 15 de dezembro e só acordar lá pelo dia 06 de janeiro. Ou ser anestesiada ou ser abduzida nesse período.

Só não queria enfrentar essa época todo ano, obrigatoriamente.

Não sei o porquê, mas não gosto de Natal nem de Ano Novo.

Vejo todo mundo sorridente, enfeitado, comendo, bebendo, brindando e me pergunto: tirando, é claro, as crianças, tem alguém feliz aqui? Por que todo mundo ficaria feliz, só porque é Natal? E o que o Natal tem a ver com alegria ou tristeza? É uma alegria compulsória, forçada, fingida.

Eu sinto uma angústia indescritível, crescente, não vejo a hora de ir para o meu quarto, fechar a porta, apagar a luz e ficar só, e em silêncio, e sozinha comigo mesma, sem-ter-que-ser-feliz-porque-é-Natal.

Há muito, muito tempo, um menino nasceu nesse dia (será que foi em 25 de dezembro mesmo? ou inventaram essa data? se inventaram, porque a puseram tão perto do réveillon? que falta de imaginação!) e com trinta e três anos foi condenado à morte e morreu na cruz, a morte mais indigna para a época. E isso mudou a história do mundo e dos homens, dividiu o tempo eterno em antes de depois de seu nascimento, e os homens nunca mais foram os mesmos.

Nisso eu acredito. Ele andou entre nós, pisou o chão de Jerusalém (que emoção quando caminhei naquelas pedras que meu Deus pisou!) e outros solos da região, falou do amor, da paz, da misericórdia e caridade.

E idéias tão simples, tão básicas, em seus lábios, por sua voz, se tornaram leis. E tudo o que Ele queria era que os homens se entendessem, que romanos – os poderosos da época – não humilhassem o restante do mundo e dos homens, que os pequeninos fossem respeitados, que as mulheres fossem amadas.

Não dividiu os homens em raças nem credos. Tentou mostrar que todos são igualmente humanos, apesar de suas diferenças.

Não tentou igualar os homens, mas quis que as diferenças naturais entre todos fossem respeitadas e não os dividissem.

Que a alegria era possível e permanente, dependendo das escolhas de cada um.

Até hoje poucas pessoas entenderam o que Cristo disse. E menos ainda seguem suas palavras.

Mas só porque é Natal, todos saem com cara-de-feliz, abraçando, comendo, bebendo e brindando. Numa alegria tão falsa, mas tão falsa, que dura somente uma noite por ano, se durar tanto.

Em lugar de cara-de-natal, gostaria que cada um, neste Natal, fizesse uma prece sincera, agradecendo os dons recebidos, os bens de que dispõe, e se propondo, com sinceridade, tentar ser um pouco melhor, para chegar mais perto do Deus nascido homem.

Mirar em Cristo um exemplo a ser seguido, em suas palavras o guia para uma vida mais simples, mais sincera e mais dedicada aos irmãos.

Aproveitar o Natal para orações, para gestos de gentileza e caridade – principalmente com os idosos – a começar os idosos da própria família – tantas vezes emocional e afetivamente abandonados, por falta de tempo e de vontade de manter um vínculo de amor com eles.

E se quiser dar presentes, dê para seu Deus – custa tão barato o que O agrada: amor ao próximo, misericórdia e caridade, um coração humilde e uma vida dedicada ao bem. Nada mais.

Mas, a você que perde tempo em ler este blog, de coração eu desejo um Feliz e Santo Natal, e que possa – não só neste ano, mas em todos os anos – em seu coração nascer e renascer o Deus Menino, com sua mensagem de paz, fraternidade e, principalmente de humanidade.