Turbilhão

A vida nada mais é que uma sucessão de emoções – sonhos, desejos, satisfações, frustrações, tristezas, alegrias, esperança e desesperança. Às vezes quando estamos realmente felizes, freamos nosso sentir, por medo da tristeza que virá em seguida para cobrar o preço da felicidade. Como se não tivéssemos o direito de ser felizes.

E todas essas emoções se sucedem – por vezes se atropelam – em nossa alma e nos deixam sem norte.

Hoje você vai dormir feliz, satisfeitas, cheia de esperanças de realizar um sonho. A madrugada, com suas mãos frias e invisíveis, revira tudo e de manhã você desperta imersa em tristeza, frustração, desesperança e sem nenhuma alegria.

O que houve, se você apenas adormeceu? Adormeceu em um mundo e despertou em outro? Que magia é essa que transformou sua vida enquanto você não velava pelo seu destino, pelo seu amor? Ingenuidade, excesso de confiança? Sua certeza de ter as rédeas da vida em suas mãos, e que, portanto, só haverá mudança de acordo com seu querer?

Mas o destino é traiçoeiro, prepara mil armadilhas. E quando você relaxa, acreditando que finalmente atingiu seu nirvana, cruel turbilhão surge arrasando tudo e você percebe que, na verdade, nunca deteve as rédeas da vida, e que suas mãos sempre estiveram – agora estão mais ainda – completamente vazias.

Nada

Nuvens sem fim, escuridão

O céu desaparece e o nada é imensidão

Luz sem vida de estrelas mortas

No âmago da inconstância

Indefinidas formas se encontram

A vida, finita por natureza

Não pode conter infinitos

Amores também nascem para morrer

Tudo o que floresce, fenece

Das correntes nos libertamos

Para nos atirarmos dos rochedos

E morrer no mar

Nada permanece, nada é eterno

Cada minuto diminui sessenta segundos de vida

Só insensatos não entendem essa realidade

A sede de viver é proporcional à consciência da morte

Certeza absoluta nesse oceano de incertezas

Quando chega um momento certo

Verdes e azuis se tornam marrons e cinzas

E até a natureza parece soçobrar

De tudo aquilo que fomos, vimos e amamos

Então nada restará

 

 

Escrever

Poeta não é somente o que escreve. É aquele que sente a poesia, se extasia sensível ao achado de uma rima à autenticidade de um verso. (Cora Coralina)

 

Escrever… escrever

Para escrever é preciso pensar. Pensar muito. Pensar concreto no papel através de conjuntos de letras.

Tentar, por escrito, a comunicação com os outros que não consegue pessoalmente.

Poeta ou prosador, despertar emoção latente em outras almas, mesmo que desconhecidas.  

Por que escrever? Por vaidade, por necessidade, para perpetuar a memória desse momento histórico em que vivemos. Através da escrita (e antes, ainda, através dos desenhos encontrados em cavernas) o homem vem deixando o testemunho de sua passagem pela Terra, possibilitando que se consiga entender as questões filosóficas mais básicas – o que somos, de onde viemos, para onde caminhamos…

E poesia, por que escrever poesias?

Para por sal na vida. Sem emoção a vida é muito insossa. A poesia traz amor, paixão, desejo, tristeza, separação, mas sempre dentro de um contexto de muita emoção. Também é um testemunho de um tempo, dinâmica, mostra o relacionamento do homem com suas próprias emoções.

Recordando Francisco Otaviano, “Quem passou pela vida em branca nuvem / E em plácido repouso adormeceu, / Quem não sentiu o frio da desgraça, / Quem passou pela vida e não sofreu, / Foi espectro de homem, e não homem, / Só passou pela vida, não viveu”

E emoção de quem escreve deve ser capaz de despertar a emoção de quem lê. Frutos de origens distintas, outras raízes, outras experiências, escritor e leitor, mas unidos na mesma emoção.

Por isso escrevo, por isso sou poeta. Por isso leio outros escritores e outros poetas.

E você, caro leitor, por que lê?

Dia de poesia – Mia Couto – A demora

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto, in ” idades cidades divindades”

A caixinha de música

 

Abaixou-se, pegou a delicada caixinha no chão. Quando se levantou, lágrimas corriam de seus olhos. “Por que você fez isso?” perguntou. A caixinha entortara, a cabeça e um braço da bailarina quebraram e estavam no chão. Recolhidos com cuidado, foram carinhosamente guardados no interior de veludo vermelho.

Havia uma grande dor em seus olhos, uma tristeza que mostrava intensa mágoa.

Ele pegou a caixinha de suas mãos, saiu do quarto e fechou a porta.

Ela voltou a se deitar. E chorou. Chorou sozinha, chorou abafado, até as lágrimas secarem e adormecer ainda soluçando. Ela estava dormindo, por que ele viera na madrugada perturbar seu sono e quebrar sua caixinha de música?

Lembrou-se, então, de quando a teve nas mãos pela primeira vez, há pouco mais de dois anos atrás. Algo que sempre desejara, sempre esperara, enfim, estava ali, a seu alcance.

Quantas noites, já no escuro, dava corda e ficava ouvindo a suave melodia até adormecer. Quantas noites não conseguira mais dormir sem ouvir a musiquinha, como se a caixinha tivesse se tornado um vício? Era seu calmante, seu sonífero, seu ansiolítico mais eficazes…

Aquela caixinha embalara seu sono e amparara seus sonhos todas as noites. Agora ele a quebrara. Sem nenhum motivo. Era um egoísta, não se importava com ela.

Dias depois, encontrou a caixinha sobre a cama. Ele a refizera. Tirou os riscos do verniz externo. Remontara com perfeição a bailarina. Não podia negar o quanto ele era habilidoso quando queria ser.

Sentindo um sopro quente de alegria no coração, deitou-se e deu corda. A música não tocou. A bailarina não dançou. A pancada danificara irremediavelmente o mecanismo.

Ainda que à primeira vista a caixinha estivesse perfeita por fora, seu coração fora para sempre danificado por aquela atitude estúpida, nunca mais seria a mesma, e ela sabia que noites insones a fariam ter saudade dessa caixinha. Mesmo que ele trouxesse outra para substituí-la, não seria igual, porque os sonhos que sonhara com aquela música nunca mais viriam.

Lágrimas lhe vieram aos olhos, porque, uma vez trincada, essa emoção não voltaria mais, mostrando que a saudade já chegara…

Texto atribuído a Mario Quintana

“… Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela…

Um dia nós percebemos que as mulheres têm instinto “caçador” e fazem qualquer homem sofrer …

Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável…

Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples…

Um dia percebemos que o comum não nos atrai…

Um dia saberemos que ser classificado como “bonzinho” não é bom…

Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você…

Um dia saberemos a importância da frase: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas…” Um dia percebemos que somos muito importante para alguém, mas não damos valor a isso…

Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais…

Enfim…

Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século, esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer o que tem de ser dito…

O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras…

Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

Cada um que passa em nossa vida passa só, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só. Leva um pouco de nós, deixa um pouco de si. Há os que levaram muito, mas não há os que não deixaram nada. Esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova de que duas almas não se encontram por acaso.

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.

Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem ou a mulher da sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você.”