A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
É verdade, houve um tempo em que éramos livres. Eu quase já me esqueci como era isso…
Viajávamos à vontade, carro, ônibus, avião, cruzeiros de navios… Podíamos nos hospedar em hotéis em qualquer lugar do mundo. Íamos livremente às lojas, havia dinheiro girando pelo mundo, bastava trabalhar e já se ganhava o suficiente para viver e, muitas vezes, o bastante para esbanjar.
Esse tempo era tão bom…
Havia doenças, claro. Doenças dos mais variados graus. Desde simples resfriados e gripezinhas, até pneumonias duplas, tuberculose, pancreatite, vários tipos de câncer. E se morria, sim, de doenças, de reações adversas a medicamentos, de complicações em cirurgias.
Os hospitais estavam sempre superlotados. Principalmente hospitais públicos. Faltavam leitos em UTIs, cirurgias eram marcadas a longo prazo, muitas vezes a doença matava o paciente antes dos exames ou da cirurgia. Era um caos. Mas éramos livres.
Podíamos até mesmo optar entre a saúde e a doença.
E, se nos sentíamos saudáveis, podíamos ir à missa, ao culto, ao cinema, ao restaurante, ao parque, à praia.
Os amigos se encontravam, as famílias se reuniam, bares e restaurantes viviam lotados, conversas, risadas, cantorias, muita alegria. Podíamos sair à noite livremente.
Ah, como esse tempo era bom. Éramos livres. Éramos saudáveis. Éramos felizes.
Um dia inventaram que todos deveriam ficar doentes.
E todos deveriam empobrecer. Morrer de doença ou de fome. Montaram um grande circo.
E começaram a tocar pânico nas pessoas. Através de notícias dadas por repórteres histéricos.
Os mesmos que, a princípio, negaram a existência da doença e insistiram em fazer um carnaval mega-enorme, logo depois passaram a acusar o povo de espalhar a doença por ter participado do carnaval.
E aproveitaram a ocasião para cassar a liberdade de todos.
E vieram o isolamento compulsório, o toque de recolher e outras medidas restritivas do direito à liberdade.
O povo, acuado, e com medo, foi se acovardando.
Até isso acontecer, vivíamos um tempo bom.
Éramos livres. Éramos felizes. Éramos saudáveis. Não éramos covardes.
E, dia após dia, mês após mês, ano após ano, foram nos limitando. Destruíram os empregos, as empresas, as famílias, os afetos.
E o povo, com medo de morrer, se deixava matar.
Verdade, você agora me fez lembrar, houve um tempo em que éramos livres. Eu quase já me esqueci como era isso…
– É impertinente que se fala. Incômodo, aborrecido, ou como vocês dizem, chato.
– Desculpa, não quis incomodar. O senhor sabe que lugar é esse?
– Não. Parece ser uma sala de espera. Veja, aquele portão grande ali, fechado. Acho que alguém vira abrir e nos explicar como viemos aqui. Só lembro de estar dormindo e acordar aqui.
– Eu também! Fui deitar, estava com dores e cansado e acordei aqui. Já não sinto mais nada. Será que é um hospital? Tudo tão branco, tão limpo… mas o senhor faz o que?
– Eu sou um Príncipe.
– Nossa, eu nunca vi um de verdade. Só nos livros. Meu pai diz que eu sou um príncipe também, mas não de verdade né?
– Sim. O que teu pai diz é verdade! Toda criança é um príncipe ou princesa para seu pai. Então você é o príncipe dele.
– Mas não do meu padrasto. Ele diz que não gosta de mim, ele me bate e diz que se eu falar pra minha mãe ela também não vai gostar de mim.
– Seu pai não te protege?
– Ele não pode, ele e minha mãe são separados. Ele me abraça quando estamos juntos, mas não é sempre. O senhor abraça teus filhos?
– Muito menos do que gostaria. Príncipes tem protocolos, obrigações…
– Deve ser chato né? Mas aqui só estamos nós dois. O Senhor poderia me abraçar? Tenho medo…
– Claro! Venha aqui. Como você se chama?
– Henry.
– Henry? Bonito nome. Tenho um neto com esse nome! Um pouco rebelde, mas um bom homem…
– E o senhor? Como se chama?
– Felipe. Pode me chamar de tio se quiser.
– Olha tio! O portão abriu! Tem uma luz bonita lá dentro! Vamos?
– Vamos menino, vamos lá até a Luz…
Gosto de imaginar que possa ter sido assim, num Reino muito, muito distante; em uma dimensão longe daqui…
Fala comigo! Me acalenta. Me permite cometer erros gramaticais, seja em nome da licença poética ou do meu amor por você. Me permite chorar alto, te chamar Me permite te perdoar Me permite te permitir ser minha. Por não ter entrado na sua vida antes, te peço perdão. Me perdoa por não me perdoar. (desconheço a autoria)
Por todas as vidas em que estivemos separados
Todos os dias, todas as noites, todas as horas
Nos quais inutilmente tanto nos quisemos
E a distância impediu o nosso encontro, eu amei
Não sei os atalhos por onde você foi, quais seus caminhos
Nunca soube onde procurar você, por isso aqui fiquei
Como cega, seguia meu caminho, sem sonho nem luz
Vivendo apartada do querer, na noite contínua.
Por tudo isso chegará um dia em que
Estaremos novamente frente a frente
Suas mãos ao alcance de minhas mãos
Nossos corpos no espaço de um abraço
E quando esse momento enfim chegar,
Encantados então nos abraçaremos
E à sua única pergunta responderei:
Não duvide, eu sempre estive aqui!(As fotos que ilustram os posts são retiradas de bancos de imagem do google, salvo se a autoria estiver anotada na página)
O canto de despedida
vai disfarçado de flor.
É feito para os caboclos
do barranco sofredor.
Pra eles que não vão ler nunca
estas palavras de amor.
Amor dá tudo o que tem:
dou esta rosa verdadeira,
levando a clara certeza
da vida nova que vem.
Canto para os curumins
nascidos iguais a mim,
vida escura, e tanto verde!,
canoa, vento e capim.
Canto para o ribeirinho
que um dia vai ser o dono
do verde daquele chão.
Tempo de amor vai chegar,
tua vida vai mudar.
Vai preparando a farinha,
murupi no matrinchão,
nunca vi verde tão verde
como o do teu coração.
(homenagem ao poeta, em seus 95 anos de vida)