A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Blogueira, escritora, poeta... porque escrever é preciso
Talvez eu esteja enganada. Mas viver já foi mais divertido.
Houve um tempo em que o riso era mais fácil. E rir não ofendia ninguém.
Talvez nesse tempo as pessoas (ao menos aquelas com as quais convivíamos) eram mais inteligentes. Por isso entendiam brincadeiras e levezas.
Hoje o mundo está tomado por uma raça desgraçada de pessoas sérias e muito sabidas. Dominam todos os assuntos, sentem-se no direito de apontar o dedo para todos, querem mostrar o conhecimento que não têm.
Assim, para disfarçarem a própria ignorância e superarem o terrível complexo de inferioridade que os domina, inventaram o politicamente correto.
Que transformou a realidade num porre.
Em seguida, a tremenda judicialização da vida e da sociedade.
Desenvolveram uma suscetibilidade exacerbada, e tudo os ofende e os melindra.
Em todos os sentidos. Até na alimentação.
A humanidade come pão há mais de 4.000 anos. Agora, os frescos e maricas são alérgicos a glúten. E têm intolerância à lactose. Precisam de alimentos batidos e liquidificados, porque têm sensibilidade e não conseguem mastigar.
Não ingerem açúcar porque faz mal. Restringem tanto a alimentação que vivem de mal humor.
São obcecados pela forma física, e não percebem que o cérebro está em péssimo estado de conservação. Podre.
Não educam os filhos para que não fiquem traumatizados. E parentes e vizinhos devem suportar os monstrenguinhos.
Tratam cães como filhos e acham que todos devem considerar essas criaturas como humanas, ainda que só sirvam para fazer cocô e latir, incomodando a vizinhança inteira.
Acham que roupa cara faz as pessoas melhores, então desprezam solenemente até mesmo aquelas que os servem, porque são “inferiores”.
E se acham “apenas o máximo”.
Todos têm de apresentar um mesmo padrão de pensamento, expressão, linguagem, gestual, trajes…
Acabou a espontaneidade, a alegria, a conversa despreocupada.
Somos nós As humanas cigarras! Nós, desde o tempo de Esopo conhecidos… Nós, Preguiçosos insetos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas Da fábula burguesa da formiga. Nós, a tribo faminta de ciganos Que se abriga Ao luar. Nós, que nunca passamos, A passar!
Somos nós, e só nós podemos ter Asas sonoras. Asas que em certas horas Palpítam. Asas que morrem mas que ressuscitam Da seputura! E que da planura Da seara Erguem a um campo de maior altura A mão que só altura semeara.
Por isso a vós, Poetas, eu levanto A taça fraternal deste meu canto, E bebo em vossa honra o doce vinho Da amizade e da paz! Vinho que não é meu, Mas sim do mosto que a beleza traz!
E vos digo e conjuro que canteis! Que sejais menestréis Duma gesta de amor universal! Duma epopeia que não tenha reis, Mas homens de tamanho natural!
Aos 09 de novembro de 1964 morria a poeta Cecilia Meireles. Poetisa única, deixou um legado de valor inestimável – uma mulher moderna, solitária, que escrevia com a alma, sobre o amor, a paixão, a finitude da vida, a solidão…
MOTIVO
Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento.
Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.