20º domingo de quarentena

Night magic | Cenário anime, Fundo de animação, Cenário para vídeos

Ando nas ruas, agora tão vazias de vida, nessa cidade entristecida. Alguns poucos carros, e mesmo assim tão apressados. Por que tanta pressa?

A cidade fechou há mais de quatro meses, o país se desmancha, não há motivo para correr. Estamos todos morrendo.    

Onde estão as crianças que brincavam nos parquinhos? Os idosos sentados nos bancos das praças? Os atletas correndo nas pistas?    

Onde estão todos?    

Por medo de morrer, enfurnaram-se nas casas, que permanecem fechadas. Enterraram-se vivos, famílias divididas, amantes separados,  encontros cancelados. Por medo da doença, evitam o contato com todos os outros seres humanos. E, acaso alguém é obrigado a sair, esconde o rosto o sorriso e alegria atrás de uma máscara horrorosa. Não há mais sorrisos.    

E, mesmo com todas essas medidas, as pessoas continuam a ficar doentes. E muitas morrem. O vírus foi uma bênção para os doentes: há mais de quatro meses que não se morre mais de doenças crônicas, neoplasias, problemas cardíacos, nada mais. Só do novo vírus.    

Vamos viver, minha gente!!!!! Abram as janelas e as portas, saiam ao sol, celebrem a vida enquanto a temos! Porque todos morreremos. Nem antes nem depois, mas só no exato momento que nos foi planejado morrer.     O medo nos mata em vida.      A morte virá nos buscar, estejamos em casa, com a janela aberta fechada. Estejamos nas ruas, nos bares, nos cinemas. Onde estivermos, seremos encontrados. Dona Ceifeira não falha.     E, na minha opinião, o melhor que temos a fazer, é viver enquanto não morremos. Para isso estamos nessa Terra adoentada pelo medo de morrer.      

Tenho saudade da alegria da vida. De ouvir risadas nos mercados. Das lojas abertas. Da cidade movimentada. Das pessoas se cumprimentando com sorrisos e beijos. Das cafeterias simpáticas e com o infalível perfume do café no ar. Dos bares lotados no final do dia, com risadas e copos brindando.    

Tenho saudade de viver.

Morte no funk

Num primeiro momento ele se preocupou com a notícia.

Afinal, também era funkeiro e não pretendia parar de compor nem de cantar. 

Sete funkeiros foram assassinados de forma parecida, em poucos meses, e a polícia não conseguia desvendar a autoria dos crimes. 

O primeiro ele nem conhecia, assim como outros três.

Ainda que trilhassem os mesmos caminhos, ele desconhecia a existência de muitos. Para ser sincero, nem apreciava esse gênero musical. Mas descobriu que dava dinheiro, muito dinheiro. E era bonito, novo, corpo esculpido nos treinos de luta, fazia sucesso com as mulheres. 

Sonhava ser piloto de avião desde menino. Dedicava-se aos estudos, sempre com boas notas, bem visto pelos professores. Mas um dia, tudo mudou. O pai – que sempre fora tão amoroso, vivia para a família, de repente começara a chegar embriagado, agredia a mãe, batia nos filhos, perdeu o emprego. 

A vida foi complicando, veio a ordem de despejo, e além da casa, também precisou sair da escola.

Da casa para o cortiço, do cortiço para a favela, que prefere dizer comunidade. Seus sonhos se desfizeram na dura realidade da fome nunca bem satisfeita. Depois da terceira agressão, quando teve os dois braços e alguns dentes quebrados, decidiu mudar de atitude. Subiu até o alto, onde nunca fora antes, conheceu o chefão do pedaço e falou que queria aprender a lutar. E descobriu que era bom de briga. Primeiro capoeira, depois o boxe e nunca mais apanhou. Bateu muito. Inclusive em alguns policiais que ousaram subir o morro sem o batalhão. Entregou drogas, buscou armas, ganhou os primeiros trocados. 

Até descobrir o funk. Não precisava saber música, não precisava saber português, não precisava saber dançar.

Era só falar as palavras de ordem, insuflar o morro contra a ordem, contra o sistema, contra a polícia.

Depois de cantar de graça em alguns bailes funks foi ficando conhecido, as meninas o seguiam, e o dinheiro começou a entrar como água que arrebenta as comportas e corre solta. 

Dois meses fazendo dez shows por semana e comprou casa de alvenaria para a mãe, lá em baixo, com telhado de verdade.

Comprou carro, comprou correntes e anéis e muita roupa de bacana, escolhida a dedo num shopping de mauricinhos. 

Agora, um ano e meio depois, já era quase rico. Saíram da casa – ele e a mãe, pois o irmão desaparecera há meses, provavelmente morrera em alguma quebrada da vida – e agora moravam em um apartamento no Irajá. 

E então começaram os assassinatos. 

Dos sete mortos conhecia três, dos quais era muito amigo de dois – MC Sarado e Mc Capeta. 

Foi um choque quando MC Sarado foi fuzilado ao sair de uma casa noturna no Jacarepaguá com a namorada, atingido por um único tiro, na altura do coração, disparado sabe-se de lá de onde. 

Foi ao velório, e MC Capeta contou que o amigo recebera um enigmático telefonema, onde disseram apenas “antes de começar a cantar a terceira música do show amanhã, diga EU ACHO O FUNK NOJENTO E TAMBÉM TENHO NOJO DE QUEM VAI A SHOWS DE FUNK”. 

Claro que Sarado não falou isso, fez o show e foi com a namorada para a boate, e morreu na saída. Souberam que os outros assassinados receberam o mesmo telefonema, com a mesma mensagem, mas nenhum cumpriu a ordem. 

Uns quinze dias depois desse fato, Capeta ligou e disse que recebera telefonema com a mesma mensagem, estava preocupado.

Contratou quatro seguranças e depois do show ia  direto para casa, uma verdadeira fortaleza no alto do morro, inatingível. Perguntou se queria ir também. Por não ter show nessa noite, foi ao show de MC Capeta e depois pretendia ir para a casa dele também, onde fariam uma festinha com algumas fãs. 

Não chegou lá. Corajosamente Capeta passou da segunda para a terceira música sem falar a mensagem. Não chegou no fim da canção. Um atirador de elite estourou-lhe os miolos com arma do mesmo calibre que matou os outros funkeiros, em pleno palco. Ele estava ali no fundo, viu o amigo cair de repente, e não deu tempo nem de socorrer. Já caiu morto, a bala entrou pela têmpora, colocada a dedo no lugar fatal.  Estava começando a sentir medo. 

Ontem, quando atendeu o celular, foi sua vez de ouvir a mesma mensagem.  Não sabia se cancelava o show, se ignorava a ordem ou se deveria obedecer.  Falou com seu empresário. Que achou melhor obedecer. 

Começou o show, se sentia onipotente quando subia no palco e a galera delirava, olhou para o público. Quase seis mil pessoas. Seria impossível ser atingido. Cantou a segunda música programada e passou direto para a terceira. 

Sorriu vitorioso, transgredira a ordem, nele ninguém ia mandar. 

Virou-se para acenar para o baterista. Sentiu um soco no estômago e algo quente, muito quente o atravessou. Caiu no palco, microfone ainda na mão. Não houve tempo para o socorro.

Morreu enquanto ainda ecoavam os acordes da última frase…

(11.07.2013)

Louca

Blog Cariri : Mendiga morre e deixa fortuna de R$ 2,33 milhões

 

 

“Lá vai a louca” todos dizem, alguns até com compaixão

Será louca, será sã, será lúcida? Como saber

Segue sem destino, sem ver e sem ouvir e sem falar

Mão crispadas, braços endurecidos, corpo curvado

“É louca”, repetem. Ela vai adiante, sem ter onde chegar.

Ela amou. Amou alguém apaixonadamente, mais que a si

Amou muito mais do que alguém já amou um dia

E esperou e acreditou. Por isso muito sofreu.

Para não ver sua partida, ela arrancou os olhos

E estourou os ouvidos para não ouvir o adeus.

Cortou a própria língua para não implorar que ficasse.

Seus braços e mãos se contraíram, para não mais abraçar

Calou na alma todos os tormentos, morreu por dentro

E desde então anda, a esmo, pelas ruas, calada, cega e surda.

“Ela é louca”, todos dizem. Mas ela não os ouve, sequer os vê

Mal pressente os perigos, escorraçada, por vezes apedrejada

Nada sente, nenhuma dor. Esgotou a capacidade de doer

De sentir, de chorar, de se lamentar. Nada lhe resta.

“É louca”. Não, não é mais louca. Agora é só uma coitada

Foi louca, sim, um dia em seu passado,

Louca quando amou mais do que devia.


Dia de poesia – Florbela Espanca – De joelhos

“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer…
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver…

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!

Texto de Vinicius de Moraes – Chorinho para a amiga

Se fosses louca por mim, ah eu dava pantana, eu corria na praça, eu te chamava para ver o afogado.

Se fosses louca por mim, eu nem sei, eu subia na pedra mais alto, altivo e parado, vendo o mundo pousado a meus pés.

Oh, por que não me dizes, morena, que és louca varrida por mim? Eu te conto um segredo, te levo à boate, eu dou vodca pra você beber! Teu amor é tão grande, parece um luar, mas lhe falta a loucura do meu.

Olhos doces os teus, com esse olhar de você, mas por que tão distante de mim? Lindos braços e um colo macio, mas porque tão ausentes dos meus?

Ah, se fosses louca por mim, eu comprava pipoca, saía correndo, de repente me punha a cantar. Dançaria convosco, senhora, um bailado nervoso e sutil.

Se fosses louca por mim, eu me batia em duelo sorrindo, caía a fundo num golpe mortal. Estudava contigo o mistério dos astros, a geometria dos pássaros, declamando poemas assim: “Se eu morresse amanhã… Se fosses louca por mim… “.

Se você fosse louca por mim, ô maninha, a gente ia ao Mercado, ao nascer da manhã, ia ver o avião levantar. Tanta coisa eu fazia, ó delícia, se fosses louca por mim! Olha aqui, por exemplo, eu pegava e comprava um lindo peignoir pra você. Te tirava da fila, te abrigava em chinchila, dava até um gasô pra você.

Diz por que, meu anjinho, por que tu não és louca-louca por mim? Ai, meu Deus, como é triste viver nesta dura incerteza cruel! Perco a fome, não vou ao cinema, só de achar que não és louca por mim. (E no entanto direi num aparte que até gostas bastante de mim…).

Mas não sei, eu queria sentir teu olhar fulgurar contra o meu. Mas não sei, eu queria te ver uma escrava morena de mim.

Vamos ser, meu amor, vamos ser um do outro de um modo total? Vamos nós, meu carinho, viver num barraco, e um luar, um coqueiro e um violão? Vamos brincar no Carnaval, hein, neguinha, vamos andar atrás do batalhão? Vamos, amor, fazer miséria, espetar uma conta no bar?

Você quer quer eu provoque uma briga pra você torcer muito por mim?

Vamos subir no elevador, hein, doçura, nós dois juntos subindo, que bom! Vamos entrar numa casa de pasto, beber pinga e cerveja e xingar? Vamos, neguinha, vamos na praia passear? Vamos ver o dirigível, que é o assombro nacional? Vamos, maninha, vamos, na rua do Tampico, onde o pai matou a filha, ô maninha, com a tampa do maçarico? Vamos maninha, vamos morar em jurujuba, andar de barco a vela, ô maninha, comer camarão graúdo?

Vem cá, meu bem, vem cá, meu bem, vem cá, vem cá, vem cá, se não vens bem depressinha, meu bem, vou contar para o seu pai.

Ah, minha flor, que linda, a embriaguez do amor, dá um frio pela espinha, prenda minha, e em seguida dá calor.

És tão linda, menina, se te chamasses Marina, eu te levava no banho de mar. És tão doce, beleza, se te chamasses Teresa, eu teria certeza, meu bem.

Mas não tenho certeza de nada, ó desgraça, ó ruína, ó Tupá!

Tu sabias que em ti tem taiti, linda ilha do amor e do adeus? tem mandinga, tem mascate, pão-de-açúcar com café, tem chimborazo, kamtchaka, tabor, popocatepel? tem juras, tem jetaturas e até danúbios azuis, tem igapós, jamundás, içás, tapajós, purus! – tens, tens, tens, ah se tens! tens, tens tens, ah se tens!

Meu amor, meu amor, meu amor, que carinho tão bom por você, quantos beijos alados fugindo, quanto sangue no meu coração!

Ah, se fosses louca por mim, eu me estirava na areia, ficava mirando as estrelas. Se fosses louca por mim, eu saía correndo de súbito, entre o pasmo da turba inconsútil. Eu dizia : Woe is me! Eu dizia: helàs! pra você…

Tanta coisa eu diria que não há poesia de longe capaz de exprimir. Eu inventava linguagem, só falando bobagem, só fazia bobagem, meu bem. Ó fatal pentagrama, ó lomas valentinas, ó tetrarca, ó sevícia, ó letargo!

Mas não há nada a fazer, meu destino é sofrer: e seria tão bom não sofrer.

Porque toda a alegria tua e minha seria, se você fosse louca por mim…

Mas você não é louca por mim… Mas você não é louca por mim…

dengue X covid

Pavor com coronavírus cresce, mas o perigo maior está em nosso ...

Minha amiga me manda uma mensagem – está com dengue.

A cidade está com mais de 20.000 casos de dengue. Mas não importa. A doença é nativa, baixa letalidade, e não há verbas extras para seu combate. Ninguém ganha nas costas do mosquito da dengue.     

E, no mesmo período, são 12.000 casos de covid19. Esse dá holofotes. Dá verbas para serem gastas sem licitação. É uma doença importada da china, média letalidade. Muitos ganham nas costas do coronavírus.     

Fique em casa. Continue em casa. É para seu bem.     

Mais de 2.000 empresas já fecharam as portas definitivamente nesta cidade. Não é pouco. As cadeias produtora e empregatícia se ressentem. Há um inevitável efeito dominó. Quatro meses de isolamento horizontal. Tudo fechado.     

Quem sai é obrigado a portar máscara.     

E chegamos à conclusão que as recomendações, medidas, portarias, decretos dos governos estaduais e municipais, as máscaras e o isolamento não surtiram efeito. Porque a peste continua atacando.     

E contra a dengue, o que se faz? Não há decretos, portarias, medidas, absolutamente nada.     

O mosquito da dengue reina soberano nos domínios da cidade. Faz vítimas e mais vítimas. Ninguém nota, porque alunos e professores não faltam às aulas por causa da dengue – TODAS as escolas estão fechadas há mais de 120 dias.     

As pessoas não faltam do trabalho por causa da dengue. As lojas, empresas, prestadoras de serviços, e tudo o mais está fechado. 

Ou seja, não está fazendo a menor diferença se tem gente com dengue ou morrendo de dengue.

Mas que morra em casa. Porque, se for para o hospital, fatalmente vai morrer de covid. Basta ler a lista diária dos mortos: …, 82 anos, diabetes, neoplasia / …, 74 anos, diabetes, doença pulmonar / …, 72 anos, doença renal crônica / …, 68 anos, doença neurológica …    

Ou seja: qual morreu de covid? Nenhum. Podiam estar COM covid quando morreram, mas as comorbidades que mataram.     

E a dengue, qual a desculpa?     

Terrenos sujos, canteiros de avenidas cheios de mato, caçambas, lixo, depósitos, tudo com água parada.

Sem falar nos imundos quintais particulares. E nas dezenas de depósitos de ferro velho.     

Mas tudo bem, deixa a dengue em paz, que implicância…