Dia de Poesia – Walter Duarte – Mas…

Fosse a vida só de flores,

viesse quem se queria,

não existiriam dores,

… não haveria poesia

 

Sempre fosse o agora,

e eterna a felicidade,

ninguém mais iria embora,

… não haveria saudade.

 

Ânsia? Nada, nem um pouco,

a alma feliz, completa,

sem vazios ou sonhos loucos,

… não haveria poeta

 

Vida sem fim, permanente,

Chama eterna de calor,

Todos seriam sementes,

… não se morria de amor

 

Se eu nadasse em mar de rosas,

sem os espinhos reversos,

eu seria todo prosa,

… não haveria estes versos

Peste e tempestades

Navios enfrentando Tempestade em alto Mar com ONDAS GIGANTES ...

São trinta dias de isolamento, em razão de um vírus desconhecido e de alto contágio que se alastrou pelo mundo conhecido.

Impossível não pensar em Garcia Marquez.

Impossível não buscar Camus, para reler A Peste.

Como também a necessidade de reler Daniel Defoe, em Um diário do ano da peste.

Tempos difíceis, muita miséria no horizonte, insegurança social e pessoal. E não há como escapar. Todos estamos passando por isso.

Famílias separadas, quem foi surpreendido  distante não pode voltar – sem voos, sem viagens de ônibus intermunicipais, interestaduais… Cada um em sua casa – sorte dos que as têm, isolado, segregado, condenado, por vezes, à fome e privações, porque os empregos se foram junto com o confinamento.

E o jeito é aguentar. Com raiva, sem raiva; com conforto, sem conforto; com fome, sem fome…

Por outro lado, nuvens escuras nos trazem sobressaltos no campo da política. Também total insegurança.

Os ladrões da Pátria, acostumados com a mamata das patas no dinheiro público, desesperados por estarem há mais de um ano sem conseguir desviar verbas, conseguiram, com o coronavírus e o beneplácito da suprema corte, um caminho para continuarem suas práticas.

E o clima não é promissor. Não me surpreenderia se, em meio à turbulência trazida pela epidemia, ainda tenhamos de enfrentar uma revolução.

Já não bastam as tormentas da alma, que cada um traz dentro de si, sofrendo calado, muitas vezes em situações insustentáveis, mas que não há como colocar um ponto final, ainda temos ataques na profissão, na saúde, na estabilidade política…

Lembra-me uma frase atribuída a Churchill: “Se você está atravessando um inferno, continue caminhando”. Sim, um dia tudo passa. Mas só quem caminha por um inferno sabe o que é isso.

Estou assistindo a um documentário, na internet, sobre navios surpreendidos por tempestades violentas – Ships in a storm.

Ondas assustadoramente enormes. Mesmo eu, que amo o mar, tenho vocação de viver embarcada, reconheço que o mar pode se tornar um monstro.

E continuo assistindo. Grandes navios, pequenos barcos de pesca, todos continuam em frente.

Exatamente: em frente. Avante.

Mesmo que tenham mudado temporariamente a rota, não param. Nem podem fugir. Encaram o mar. Colocam a proa de frente para a tempestade. Ainda que altas – altíssimas ondas – cubram toda a estrutura. Mas entram de frente, encarando as ondas da tempestade. E continuam. Assim aprenderam com seus mestres e práticos. E assim fazem. E salvam seus barcos e tripulações.

Um pequeno barco, de vela única, tenta sair da tormenta. Mas é leve. E a marola o coloca de lado para a onda forte. Não resiste e emborca. As pessoas são atiradas longe enquanto o pequeno barco vira até a vela afundar. Isso assusta.

Nesse momento tormentoso e assustador que estamos passando, as lições e a experiência de quem nos precedeu devem ser valorizadas e observadas. Quem já atravessou um inferno sabe que é preciso continuar porque há uma porta de saída do outro lado e sabe onde ela fica.

Quem já conduziu um navio em forte tempestade, e não soçobrou, sabe que o único jeito é encarar, não fugir, e seguir. As ondas nos levantam, nos desequilibram, nos jogam para todos os lados, mas sairemos ilesos no final.

Está difícil, muito difícil, porque não sabemos que doença é essa. Se quem já sarou pode adoecer de novo. Se muitos ou todos morrerão. Se simplesmente o vírus tem prazo de validade e vai sumir da mesma forma que apareceu.

Como não sabemos se nosso país vai atravessar mais essa tentativa de derrubar o Presidente da República. Se balançaremos e continuaremos, como um grande navio, ou naufragaremos como um singelo barco a vela. Que não haja nenhum vergalhão a nossa espera.

A única coisa que podemos fazer, neste momento, é seguir em frente e encarar o que vem por aí…

De amar

 

Naquele Segundo.: AMAR TE FAZ MAIS AMAR 09/01/2019

Seus olhos me atraem e meus olhos procuram os seus

Seus carinhos me cativam e despertam todas as sensações

Sua voz me chama docemente e eu vou até você

Sua boca me cala em um beijo intenso, sem fim

Seus braços me enlaçam, me prendem, acorrentam

Seu corpo me possui com tanta paixão e eu correspondo

Sua sede de vida me encanta, por isso amo tanto você.

E me sinto amada, esperada, desejada e querida.

Paixão, encanto, feitiço, desejo, loucura… não sei…

Meu sentimento não tem rótulo, não precisa de nome

Basta-me que exista. Esteja vivo. Tire meu chão e me dê asas

Eu sinto. Sou feliz. E isso é o que importa: simplesmente

Amar e ser amada. Plenamente. Nada mais. Nada menos.

Ruas

Rua do Professor, Ribeirão Preto | Mapio.net

 

Vejo as ruas desertas de pessoas a pé. Lembro-me de minha infância e adolescência. Não tive “mãetorista”. Apenas em alguns casos éramos levados de automóvel nos lugares. Porque, à  escola, às atividades extracurriculares – conservatório musical, aulas de línguas estrangeiras, cursos que resolvíamos fazer – bem como cinema, compras, casas de amigos, festinhas e tudo o mais, era para ir a pé. Sozinha, com irmãos, com amigos, em grupos, apenas pedíamos autorização e avisávamos que estávamos indo. E sempre hora marcada do retorno, vamos deixar bem claro. E isso era liberdade.

Andávamos. Caminhávamos. Passeávamos. Sempre a pé.

Acho que isso desenvolve um outro sentido, não sei se sétimo, oitavo ou nono. A percepção da rua.

Hoje vivemos em outro mundo. Não há mais rua nesse sentido. Apenas artérias de passagem de carros. Há lugares, em praticamente todas as cidades, em que se veem carros e motocicletas nas ruas. E nenhuma pessoa. Simplesmente as calçadas completamente inúteis e vazias.

Aqui no interior, mesmo em tempos anteriores à peste chinesa, a região onde moro é assim. Na avenida principal, no começo da manhã e final da tarde nós nos deparamos com “atletas” – roupinhas típicas, boné e tênis, fazendo exercício. Mas o resto do dia é um deserto de pessoas, uma cidade de veículos motorizados. Sem população.

Não é meu mundo. Gosto de andar a pé.

Nos anos em que morei no Guarujá, nem levei o carro. Deixei-o em uma garagem da casa de meus pais, em Ribeirão Preto.

Andava tanto lá, que, por brincadeira, adquiri e comecei a usar um aparelhinho que media os passos, e, durante os meses em que fiz uma reforma em um imóvel – fazendo todas as compras a pé – eu andava, em média, vinte quilômetros por dia.

Sem contar a infalível caminhada matinal à beira mar – entre seis e dezoito quilômetros/dia. Dependia mais do tempo disponível para caminhar do que disposição física ou cansaço.

Em São Paulo, também onde prefiro não dirigir nem ter carro, meu local de trabalho distava cerca de um quilômetro minha casa. Que foi cirurgicamente escolhida para me proporcionar a liberdade de andar a pé. Na hora de ir, geralmente, pegava um táxi. Mas voltava a pé. Especialmente no horário de verão, entre 18h30 e 19h00. Caminhava do Paraíso ao longo da Paulista até a Pamplona. E descia até a Lorena.

Em volta tenho tudo o que necessito. Faço tudo sem precisar de carro. Por isso, também, amo ficar por lá.

Sempre amei andar a pé em São Paulo. A beleza de São Paulo não é escancarada, para qualquer um chegar e se encantar. Não, São Paulo é de uma beleza peculiar, um encanto que se mostra aos poucos, só para “os iniciados”.

Quando eu trabalhava em um escritório do centro, no milênio passado, amava aquelas ruas antigas (ainda não havia as nojentas pichações como se veem hoje por todo lado). E era República, Barão, Sete de Abril, Patriarca, Santa Ifigênia… que coisa linda era o viaduto Santa Ifigênia, com seu gradil estilo “belle époque”. As fachadas dos prédios no centro, os canteiros, o Teatro…

Agora tudo é um lixo. A porquice do povo, o descaso da prefeitura, a invasão de estrangeiros de baixa categoria… minha cidade se acabou.

Andava em Paris, Roma, Madrid, e outras capitais que até quatro ou cinco anos possuíam seus centros preservados. Tudo lindo. Tudo encantador.

Depois dos atentados no Bataclan, em Paris, e na Promenade des Anglais, a linda “La Prom”,em Nice, e vendo, ainda, esse aumento desenfreado de “refugiados” porcos e violentos, a degradação dessas cidades também desanimou de frequentá-las. Estão feias. Ponto comum entre a maioria, são as prefeituras de esquerda. Onde era um patrimônio cultural da humanidade, hoje é lixo.

E assim o mundo, que era tão grande, foi se encolhendo.

E, há um mês, o meu mundo se resume a uma casa.

Uma casa se tornou o mundo de quem ainda tem sorte de ter uma casa.

E as ruas, a cada dia mais desertas, só nos dão a dimensão da tristeza de ainda estarmos vivos.

Tempos de peste

Acordou no meio da noite, ao ouvir o barulho de passos. Devia ser o filho chegando. Sentiu frio ao se levantar da cama. Vestiu um roupão e saiu do quarto. A casa continuava escura.

Os caminhos eram tão familiares que nem precisava acender as luzes. Foi até o quarto do filho. Vazio.

Desceu a escada, onde havia a lâmpada automática, e entrou na sala escura. Copa escura. Cozinha com as luzes apagadas. A casa era a própria escuridão.

De quem seriam os passos ouvidos?

Voltou para a sala. Agora não queria mais dormir.

Deitou-se no sofá. Cochilou. Acordou ouvindo passos. E gritos.

Eram os meninos chegando da escola. Animados, corados, suados da correria pela calçada. Jogaram as malinhas num canto e correram para a copa.

“Mãe, tô com fome”.

– Sai da mesa, filho. Vai lavar as mãos, o rosto e se pentear. Abotoa a camisa que aqui não é casa de soldado. E você, tira esse boné para se sentar à mesa. Já lavou as mãos? E você, senta direito, parece que não tem ossos no corpo”

Então, todos prontos, sentaram-se à mesa para o almoço.

O dia estava frio. Muito frio. Ela pensou em ir até o quarto pegar uma blusa mais grossa, mas achou que iria se esquentar quando começasse a arrumar a cozinha, limpar chão, voltar ao serviço de todo dia.

Ouviu sua própria voz dando todas as ordens aos meninos.

E eles obedeciam. Às vezes resmungando, mas obedeciam. Sentavam-se, rezavam, e comiam. Era um momento íntimo entre mãe e filhos. O pai só estava à mesa na hora do jantar. Quando os interrogava sobre o dia, a escola, os colegas, o que aprenderam, do que brincaram. E então o pai contava histórias, de seu próprio pai, de seu avô e de tantas pessoas da família, que parecia pertencer a alguma família de romances, tantos eram os personagens.

E os meninos riam. E perguntavam. E participavam.

Eram uma família.

Com amor e orgulho ela olhava para os três filhos. Meninos de ouro. Ela sabia que seriam homens sérios. Bons. Trabalhadores.

O silêncio foi cortado por barulho de passos.

Ela acordou assustada. Era madrugada, ainda, estava deitada na sala escura. Gelada de frio. E não havia ninguém em casa.

Percebeu que sonhara.

Isso era saudade. Do marido, dos filhos, da vida que um dia tivera. Da casa cheia, bagunçada e barulhenta. Porque era uma casa viva.

Agora tudo ficava na penumbra. Nada saía do lugar, porque ela ficava quase sempre na cama, sem vontade de se levantar. Ninguém mexia em nada, ninguém usava nada.

Lembrou-se da angústia que sentiu na época da peste chinesa. O marido chegou gripado do trabalho. Depois de dois dias começou a passar muito mal. Necessitou ser hospitalizado. Não resistiu. E eles foram postos em isolamento. Souberam que havia uma peste dizimando a população.

Os gêmeos, asmáticos, morreram duas semanas depois da morte do pai.

Eles, que antes eram cinco, em menos de quinze dias se tornaram dois. Duas almas penadas andando pela casa, atônitos, assustados, sem entender o que estava acontecendo.

Cadê nossa família? Perguntavam um ao outro, aflitos, e se abraçavam chorando.

Foram meses e meses, que se transformaram em anos de isolamento. Vizinhos traziam alimentos e deixavam na escadinha da entrada. Ninguém podia se aproximar de ninguém. As notícias mais terríveis chegavam de todos os lados. Muitas pessoas morrendo. Em algumas casas do quarteirão onde moravam, simplesmente as luzes pararam de se acender, e o mato cresceu abafando as rosas dos jardins. A família morrera. Ninguém comprava propriedades. Ninguém visitava familiares. Os telefones se tornaram, depois de alguns meses, objetos inúteis, porque não havia mais a quem ligar.

Pela internet ainda se comunicavam. Depois, foram parando de se encontrar virtualmente. E o aparelho foi deixado sem carga, porque só era usado para avisos do governo, mandando ficar em casa.

Sua vida era dormir, rezar e chorar.

O filho se tornou um rapaz triste. Apático.

A casa envelheceu entristecida.

Não sabia quanto tempo ficou proibida de sair.

E, no dia em que o carro de som passou na rua avisando a população que finalmente podiam voltar à vida, já não havia mais vida para voltar.

A cidade era um deserto. Muitos que não morreram da peste, morreram de fome ou se mataram, porque não podiam sair, não podiam trabalhar, perderam o controle sobre as próprias emoções.

Ela saía algumas vezes, mas não se sentia viva.

Outras pessoas foram chegando, ocupando as casas vazias, reabrindo o comércio.

O filho saiu um dia, pela manhã. E não voltou. Ela esperou. E esperou. E ainda esperava.

Já nem sabia há quantos anos.

E ouvia seus passos. Ele andava pela casa. E ela o procurava, mas não o encontrava. Só podia ouvir seus passos.