Beijos

Acabo de descobrir que ontem foi o Dia Internacional do Beijo (que tanto pode ser comemorado no dia 13/04 quanto no dia 06/07). Vou postar textos de diversos autores, que falam sobre o beijo. Começo com o magistral Olavo Bilac:

Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida, 
ou talvez o pior…Glória e tormento, 
contigo à luz subi do firmamento, 
contigo fui pela infernal descida! 

Morreste, e o meu desejo não te olvida: 
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento, 
e do teu gosto amargo me alimento, 
e rolo-te na boca malferida. 

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo, 
batismo e extrema-unção, naquele instante 
por que, feliz, eu não morri contigo? 

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto, 
beijo divino! e anseio delirante, 
na perpétua saudade de um minuto…

 

E mais Bilac

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira
E aplaque o meu desejo
Ferve-me o sangue:
Acalma-o com teu beijo.

 

O Beijo Eterno - Idilio - Descubra Sampa

E sigo com Dominguinhos:

Tô com saudade de tu, meu desejo
Tô com saudade do beijo e do mel
Do teu olhar carinhoso
Do teu abraço gostoso
De passear no teu céu
É tão difícil ficar sem você
O teu amor é gostoso demais

 

E ainda Martha Medeiros

Foi um beijo… 

foi um beijo onde não importava a boca
só tuas mãos quentes me apertando pelas costas
nada estava acontecendo na minha frente
e a ansiedade que havia não era pouca
teus dedos perguntavam pra minha blusa
se meu corpo acolheria um delinquente
descoladas as línguas um instante
minha resposta saiu um tanto rouca

 

Quadro Gustav Klimt - O beijo

E Chico Buarque

Soneto

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Ainda, Adélia Prado

A vida é muito bonita,
basta um beijo
e a delicada engrenagem movimenta-se,
uma necessidade cósmica nos protege.”

V-J Day in Times Square – Wikipédia, a enciclopédia livre

E encerro com Augusto Branco:

 

Te levarei ao inferno
para te dar um beijo ardente
E meus braços queimarão
Ao agarrarem teu corpo em brasa

Quero te ter louca, cálida,densa, inconsequente
Pra viver contigo um romance tórrido eternamente
E exorcizar de mim este sentimento que me abrasa

Te levarei ao inferno 
Pra que tu sejas meu paraíso
Te levarei ao inferno para te dar um beijo ardente…

 

Há muito, muito, a se falar do beijo. Do abraço, da paixão e da saudade. Mas hoje passei a palavra a outros…

 

Herói de verdade

Escrevi esse texto em 27 de março de 2011, quando testemunhei todo o desenrolar da ação. Conversei com o nadador que salvou o garoto, enquanto esperávamos o resgate. Ele foi levado, exausto e ferido, para o hospital. Vi que os verdadeiros heróis são anônimos. Mas com um senso de humanidade e solidariedade acima da média. 

 

Ilha Pompeba, Guaruja | Ou Ilha do Tony, em homenagem a surf… | Flickr

Caminhava na linha do mar esta manhã quando foram ouvidos gritos de socorro. Todos que estão na praia param, para tentar avistar quem pede ajuda, e logo se vê um garoto que pede socorro, sendo arrastado pela correnteza, para os lados da ilha Pompeba. 

Não há guarda-vidas por perto, estamos na baixa estação, o pessoal extra já foi dispensado. Começa o ajuntamento de pessoas, que entre apavoradas e fascinadas assistem o mar levando o garoto. Será que pensam que isso é filme holliwoodiano e que no fim tudo sempre acaba bem? 

Um banhista começa a nadar em direção ao garoto. Não dá para ver se o alcançou. Ambos somem atrás das altas ondas. Em mais ou menos um minuto a um minuto e meio, alguns guarda-vidas chegam correndo, entram no mar, vão para o local onde por vezes apontam que os dois sumiram. 

De repente parece que ambos estão quase na ilha. Lugar muito perigoso. O mar hoje está bem agitado. Claríssimo, verdíssimo, ondas de espuma muito branca, mas com uma correnteza forte, puxando bastante.

 Cinco guarda-vidas munidos de boias estão próximos dos dois – o banhista não soltou o garoto – e tentam tirá-los da correnteza com auxílio ainda de dois anjos surfistas com suas pranchas. Naquele local há umas armadilhas – você não tem como sair do lugar, a correnteza impede qualquer tentativa de se distanciar da ilha ou ir em direção à praia. Há três ou quatro semanas assisti, aqui de minha sacada, a retirada de uma garota morta, encontrada pelos mergulhadores – vinte anos de idade, viera passar o final de semana aqui com o namorado. Não viveu para voltar para casa. 

Finalmente chega o bote – sei que não demoraram, mas o desespero de ver a luta inútil do banhista que segura o garoto, dois surfistas com suas pranchas e cinco guarda-vidas com suas boias faz parecer que se passou muito mais tempo. 

O bote dá duas ou três voltas, consegue vencer marola e onda altas, passa dos que tentam salvar e finalmente se aproxima dos dois. 

Habilmente são içados para o interior seguro do bote, que vêm para a praia e os traz em segurança. Vivos. 

O garoto está bem, um pouco assustado. O herói anônimo que não hesitou em se lançar contra a correnteza para impedir que o mar levasse o incauto banhista, traz as costas feridas, os braços lanhados, de onde o sangue escorre e as mãos cheias de espinhos – para impedir que o menino fosse lançado contra as pedras da ilha, segurava-o de lado e com a outra mão tentava se afastar das pedras – com pontas e espinhos, que o feriam a cada tentativa – mas não impediram que mantivesse o garoto junto de si até serem salvos. 

Emocionante a atitude deste nadador – não conhecia o menino, apenas afirmou que ao ouvir os gritos de socorro e avistar o garoto sendo arrastado, não parou para pensar no perigo, mas lançou-se em sua direção, para mantê-lo na tona até que o socorro viesse. 

Sem dúvida, um ser humano de primeira linha. Que Deus o abençoe!

Dia de poesia – Hilda Hilst – Tenta-me de novo

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Isolamento não é egoísmo

Moradores de rua enganam estômago com água e esperam horas no sol ...

Hoje entramos no 23º dia de isolamento. Para quem continua com seu rico dinheirinho no banco, a despensa e a geladeira bem abastecidas, é ótimo. E, principalmente, se tiver uma esposa ou mãe fazendo todo o serviço de casa. Que férias!!!!!!!!!

Não é o sentimento de quem está na outra ponta da canoa social. Com as prateleiras do pequeno armário já esvaziadas, a geladeira guardando apenas ar frio, o dinheiro ganho diariamente com o suor do rosto sem entrar, os filhos com fome, o futuro apagado… que sentimentos passam na alma dessas pessoas?

Aumentam geometricamente os pedidos de ajuda pela internet.

Grupos se formam para arrecadar dinheiro ou produtos.

Ainda que já tenhamos o hábito de ajudar entidades e instituições, agora a situação é emergencial. Nossos irmãos estão literalmente passando fome.

Os freis franciscanos, em São Paulo, forneciam 400 refeições/dia. Nessas últimas semanas essa fila aumentou para 2.500 refeições/dia. Eles não têm como fazer frente a essa multidão faminta. Frei Davi pede socorro.

Nós nos unimos e ajudamos. Dia a dia aumentamos a conta de quantas refeições podemos fornecer. Muitos ajudam. Graças a Deus nem todos os humanos são recheados de egoísmo e conseguem entender que a fome é a mais cruel tortura.

Outro grupo se forma para arrecadar fundos e fornecer cestas básicas para as famílias paupérrimas de crianças que eram atendidas em uma creche que está fechada. E as crianças sem as refeições diárias.

E vamos ajudando. Pedindo a todos que também colaborem.

Uma refeição custa R$ 8,00. Será possível que nosso igual não possa dispor de 8, 16 ou 24 reais/dia e dar comida a quem tem fome?

Ainda que nossos ganhos também diminuam em razão dessa crise, tenho certeza que ainda estamos melhores que esses desvalidos. Vamos dividir um pouco. Se tanto nos foi dado, talvez agora seja a hora de dividirmos um pouco.

Vamos ser mais humanos. Ou só sabemos fazer campanhas quando a mídia nos destaca, dia da criança, Natal dos pobres etc.? Não sabemos fazer caridade à moda de Cristo? Que sua mão esquerda não saiba o que doou sua mão direita?

E a compaixão – a capacidade de se colocar no lugar do próximo e entender o que ele sente – onde fica?

Será que o isolamento despertou o egoísmo? Se estamos em casa, por que não aproveitarmos para pensar nos outros, que talvez não tenham em suas casas nosso conforto, nossa “largueza”.

Tricotar cachecóis para distribuir quando começar o inverno. Fazer sapatinhos e casaquinhos para recém-nascidos e entregar em uma maternidade pública?

Não tem esses dons?

Grave textos, contos, livros e envie para entidades que atendem pessoas cegas.

Nem isso?

Faça pães e deixe em pontos públicos quando sair para ir ao mercado ou ao médico.

Conserte, recupere antigos brinquedos para doar. Faça brinquedos de pedaços de madeira, de garrafas plásticas. Faça móbiles para berços com botões, tampas de garrafas. Mas faça. Qualquer coisa. Ficar sentado olhando para a parede só porque estamos em quarentena não é certo.

Não acredito que haja uma pessoa tão inútil nesse mundo, que não possa ajudar com dinheiro, com as mãos, com a voz, com nada de si.

Um dia irá prestar contas de sua vida. E nada terá a apresentar ao Pai, a não ser sua total inutilidade.

Por mais maçante que seja esse período de isolamento, não podemos deixar morrer em nós o pouco de humanidade que nos resta nesse mundo egoísta e desumano.

Isolamento, vida e música

 

Em tempos de isolamento social, quantas pessoas estão absolutamente sozinhas em suas residências? Quantas estão separadas das pessoas que mais amam? Qual a verdadeira finalidade desse “confinamento humano”?

São tantas as questões, mas hoje não quero falar de doenças, de vírus, de tristezas.

Hoje quero celebrar a vida.

Quando celebramos a vida, dificilmente o fazemos em solidão. Mas com outra – ou outras – pessoa.

E qual o primeiro gesto desse ato? Exatamente, o nosso velho e conhecido abraço.

O abraço é exatamente aquele instante mágico quando duas pessoas se tocam, corações batendo junto e trocam e emoção do encontro. Em todos os níveis – desde se abraçar o filho que acaba de nascer até o grande amor de sua vida que desperta todos seus instintos.

E, se vamos celebrar com muitas pessoas, deixamos aberta a porta de nossa casa e vamos recebendo os abraços.

Um amigo chega trazendo um abraço e um vinho. Outro chega trazendo um abraço e pães feitos por ele no maior carinho. E assim continuamos até encerrarmos nossa festa de celebração da vida.

E se nossa vida fosse uma música? Qual música seria essa? Que abre a porta e nos deixa recebendo os amigos, um a um, e seus preciosos abraços, até a grande festa que ali acontecerá?

Sem dúvida alguma, seria o Bolero de Ravel.

Timidamente uma percussão será a abertura da porta. Que assim permanecerá até a saída do último convidado, depois de encerrada a recepção.

E todos irão chegando e entrando, num encontro mágico de sons, de convergências rítmicas, grupos que se formam, que se desfazem e se refazem entre outras pessoas.

Assim é o Bolero: aberta a porta, chega a Flauta transversal. Com sua delicadeza. Invocando a natureza. Com o Flautin e seu som suave.

E vêm as Clarinetas, que chegam quase junto com o Fagote e contra-fagote.

Quando os sons já estão montados, já temos uma melodia se formando, entram o Oboé, e o Sax tenor. Aí entra o Sax soprano e o sopranino. E a melodia cresce. E a festa vai se animando.

Com a chegada da Trompa, dos Sopros de madeira e do Trombone e da Tuba temos uma alegria contagiante em curso.

A percussão cresce. Aparece. O coração de todos e de cada um bate no ritmo do pulsar dos sons. Os celos se fazem ouvir.

Aí, no ápice da alegria, entram os timbales e os violinos. E a festa se completa. E se prolonga. Nossa animação parece não ter fim.

Até que a festa, como tudo o que existe, chega a seu fim. Encerra-se. A mágica se acaba. Vem o mesmo silêncio que a precedeu. E tudo volta a ser como era.

Exatamente como a vida. Nascemos quando abrimos nossa porta para a vida. E vamos nos encontrando, nos abraçando, festejando, até o momento final, que voltamos, sozinhos, para o mundo desconhecido e tudo volta a ser como era antes de nossa passagem.

Mas a diferença é que quando nascemos não temos memórias. Nós as construímos ao longo da vida, somando os sons dos diferentes instrumento e pessoas que nos tocaram e que nós tocamos durante a trajetória. Memórias dos abraços, das alegrias, das angústias. Até o derradeiro momento em que nos despedimos de tudo, em plena festa.

Acredito que Ravel celebrou apenas a vida através de sua música. Com sua riquíssima melodia, explorando o timbre, o alcance, a capacidade sonora de cada instrumento. Apenas a vida. E isso – a vida – é tudo que temos realmente de nosso, que nos é dado ao nascer e devolvemos ao morrer.

Mas não encontro, nessa obra magnífica, nenhuma pausa significativa. Nem um instante sequer de silêncio. Uma melodia pulsante desde a chegada da flauta.

Tantos abraços, tantos encontros. Até o final.

Então insisto – esse isolamento social e qualquer outra tentativa de “confinar” o ser humano é negar-lhe o abraço do outro, o encontro. É a negação da própria vida.

Por que?

Se não era para ficares, por que chegaste tão cedo?

Se era para partires, por que vieste um dia?

Igual uma chuva, tão desejada, mas que não dura,

Porque vem o sol que apaga todos os sinais

Ou um céu estrelado por mais lindo e admirado,

Vem o amanhecer, o dia que a faz desaparecer

Se era para acabar e causar tanta dor, por que começou?

Se era para caíres em seguida, por que alçaste esse voo?

Da mesma forma que as marcas deixadas na areia

São em seguida desfeitas pelas ondas do mar

E os frutos, tão caprichosamente concebidos na natureza

São derrubados e destruídos pelo vento insensível

Se não pretendias amar, por que o juraste em falso?

Se não era para ser amor, por que surgiu esta paixão?

Como nuvens formando as mais lindas figuras

Que não permanecem, somem à primeira brisa?

Tudo que temos são as brancas espumas do mar

Que se desfazem quando se deitam em sua amada areia

Se não era para beijares, por que me deste este abraço?

Se não pretendias me levar, por que me chamaste?